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 A História do Silmarillion

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Manwë Súlimo
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Data de inscrição : 26/06/2010

MensagemAssunto: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:00

AINULINDALË
Ainulindalë
A Música dos Ainur



Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou. Entretanto, durante muito tempo, eles cantaram cada um sozinho ou apenas alguns juntos, enquanto os outros escutavam, pois cada um compreendia apenas aquela parte da mente de Ilúvatar da qual havia brotado e evoluía devagar na compreensão de seus irmãos. Não obstante, de tanto escutar, chegaram a uma compreensão mais profunda, tornando-se mais consonantes e harmoniosos.

E aconteceu de Ilúvatar reunir todos os Ainur e lhes indicar um tema poderoso, desdobrando diante de seus olhos imagens ainda mais grandiosas e esplêndidas do que havia revelado até então; e a glória de seu início e o esplendor de seu final tanto abismaram os Ainur, que eles se curvaram diante de Ilúvatar e emudeceram.

Disse-lhes então Ilúvatar: - A partir do tema que lhes indiquei, desejo agora que criem juntos, em harmonia, uma Música Magnífica. E, como eu os inspirei com a Chama Imperecível, vocês vão demonstrar seus poderes ornamentando esse tema, cada um com seus próprios pensamentos e recursos, se assim o desejar. Eu porém me sentarei para escutar; e me alegrarei, pois, através de vocês, uma grande beleza terá sido despertada em forma de melodia.

E então as vozes dos Ainur, semelhantes a harpas e alaúdes, a flautas e trombetas, a violas e órgãos, e a inúmeros coros cantando com palavras, começaram a dar forma ao tema de Ilúvatar, criando uma sinfonia magnífica; e surgiu um som de melodias em eterna mutação, entretecidas em harmonia, as quais, superando a audição, alcançaram as profundezas e as alturas; e as moradas de Ilúvatar encheram-se até transbordar; e a música e o eco da música saíram para o Vazio, e este não estava mais vazio. Nunca, desde então, os Ainur fizeram uma música como aquela, embora tenha sido dito que outra ainda mais majestosa será criada diante de Ilúvatar pelos coros dos Ainur e dos Filhos de Ilúvatar, após o final dos tempos Então, os temas de Ilúvatar serão desenvolvidos com perfeição e irão adquirir Existência no momento em que ganharem voz, pois todos compreenderão plenamente o intento de Ilúvatar para cada um, e cada um terá a compreensão do outro; e Ilúvatar, sentindo-se satisfeito, concederá a seus pensamentos o fogo secreto.

Agora, porém, Ilúvatar escutava, sentado, e por muito tempo aquilo lhe pareceu bom, pois na música não havia falha. Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar; com isso procurava aumentar o poder e a glória do papel a ele designado. A Melkor, entre os Ainur, haviam sido concedidos os maiores dons de poder e conhecimento, e ele ainda tinha um quinhão de todos os dons de seus irmãos. Muitas vezes, Melkor penetrara sozinho nos espaços vazios em busca da Chama Imperecível, pois ardia nele o desejo de dar Existência a coisas por si mesmo; e a seus olhos Ilúvatar não dava atenção ao Vazio, ao passo que Melkor se impacientava com o vazio. E, no entanto ele não encontrou o Fogo, pois este está com Ilúvatar. Estando sozinho, porém, começara a conceber pensamentos próprios, diferentes daqueles de seus irmãos.

Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música, e logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música a de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. Espalhou-se então cada vez mais a dissonância de Melkor, e as melodias que haviam sido ouvidas antes soçobraram num mar de sons turbulentos. Ilúvatar, entretanto, escutava sentado até lhe parecer que em volta de seu trono bramia uma tempestade violenta, como a de águas escuras que guerreiam entre si numa fúria incessante que não queria ser aplacada.

Ergueu-se então Ilúvatar, e os Ainur perceberam que ele sorria E ele levantou a mão esquerda, e um novo tema surgiu em meio à tormenta, semelhante ao tema anterior e ao mesmo tempo diferente; e ganhava força e apresentava uma nova beleza. Mas a dissonância de Melkor cresceu em tumulto e o enfrentou. Mais uma vez houve uma guerra sonora, mais violenta do que antes, até que muitos dos Ainur ficaram consternados e não cantaram mais, e Melkor pôde dominar. Ergueu-se então novamente Ilúvatar, e os Ainur perceberam que sua expressão era severa. Ele levantou a mão direita, e vejam! Um terceiro tema cresceu em meio à confusão, diferente dos outros. Pois, de início parecia terno e doce, um singelo murmúrio de sons suaves em melodias delicadas; mas ele não podia ser subjugado e acumulava poder e profundidade. E afinal pareceu haver duas músicas evoluindo ao mesmo tempo diante do trono de Ilúvatar, e elas eram totalmente díspares. Uma era profunda, vasta e bela, mas lenta e mesclada a uma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem. A outra havia agora alcançado uma unidade própria; mas era alta, fútil e infindavelmente repetitiva; tinha pouca harmonia, antes um som uníssono e clamoroso como o de muitas trombetas soando apenas algumas notas. E procurava abafar a outra música pela violência de sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene.

No meio dessa contenda, na qual as mansões de Ilúvatar sacudiram, e um tremor se espalhou, atingindo os silêncios até então impassíveis, Ilúvatar ergueu-se mais uma vez, e sua expressão era terrível de ver. Ele então levantou as duas mãos, e num acorde, mais profundo que o Abismo, mais alto que o Firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a Música cessou.

Então, falou Ilúvatar e disse: - Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou.

E então os Ainur sentiram medo e ainda não compreenderam as palavras que lhes eram dirigidas; e Melkor foi dominado pela vergonha, da qual brotou uma raiva secreta. Ilúvatar, porém, ergueu-se em esplendor e afastou-se das belas regiões que havia criado para os Ainur; e os Ainur o seguiram.

Entretanto, quando eles entraram no Vazio, Ilúvatar lhes disse: - Contemplem sua Música! - E lhes mostrou uma visão, dando-lhes uma imagem onde antes havia somente o som E eles viram um novo Mundo tomar-se visível aos seus olhos; e ele formava um globo no meio do Vazio, e se mantinha ali, mas não pertencia ao Vazio, e enquanto contemplavam perplexos, esse Mundo começou a desenrolar sua história, e a eles parecia que o Mundo tinha vida e crescia. E, depois que os Ainur haviam olhado por algum tempo, calados, Ilúvatar voltou a dizer: - Contemplem sua Música! Este é seu repertório. Cada um de vocês encontrará aí, em meio à imagem que lhes apresento, tudo aquilo que pode parecer que ele próprio inventou ou acrescentou. E tu, Melkor, descobrirás todos os pensamentos secretos de tua mente e perceberás que eles são apenas uma parte do todo e subordinados à sua glória.

E muitas outras palavras disse Ilúvatar aos Ainur naquele momento; e, em virtude da lembrança de suas palavras e do conhecimento que cada um tinha da música que ele próprio criara, os Ainur sabem muito do que foi, do que é e do que será,e deixam de ver poucas coisas.

Mas algumas coisas há que eles não conseguem ver, nem sozinhos nem reunidos em conselho; pois a ninguém a não ser a si mesmo Ilúvatar revelou tudo o que tem guardado; e em cada Era surgem novidades que não haviam sido previstas, pois não derivam do passado. E assim foi que, enquanto essa visão do Mundo lhes era apresentada, os Ainur viram que ela continha coisas que eles não haviam imaginado. E, com admiração, viram a chegada dos Filhos de Ilúvatar, e também a habitação que era preparada para eles. E perceberam que eles próprios, na elaboração de sua música, estavam ocupados na construção dessa morada, sem saber, no entanto, que ela tinha outro objetivo além da própria beleza. Pois os Filhos de Ilúvatar foram concebidos somente por ele; e surgiram com o terceiro tema; eles não estavam no tema que Ilúvatar propusera no início, e nenhum dos Ainur participou de sua criação. Portanto, quando os Ainur os contemplaram, mais ainda os amaram, por serem os Filhos de Ilúvatar diferentes deles mesmos, estranhos e livres; por neles verem a mente de Ilúvatar refletida mais uma vez e aprenderem um pouco mais de sua sabedoria, a qual, não fosse por eles, teria permanecido oculta até mesmo para os Ainur.

Ora, os Filhos de Ilúvatar são elfos e os homens, os Primogênitos e os Sucessores. E em meio a todos os esplendores do Mundo, seus vastos palácios e espaços e seus círculos de fogo, Ilúvatar escolheu um local para habitarem nas Profundezas do Tempo e no meio das estrelas incontáveis. E essa morada poderia parecer insignificante para quem leve em conta apenas a majestade dos Ainur, e não sua terrível perspicácia; e considere toda a área de Arda como o alicerce de uma coluna e a erga até que o cone do seu topo seja mais aguçado que uma agulha; ou contemple somente a vastidão incomensurável do Mundo, que os Ainur ainda estão moldando, não a precisão detalhada com que moldam todas as coisas que ali existem. Mas, quando os Ainur contemplaram essa morada numa visão e viram os Filhos de Ilúvatar surgirem dentro dela, muitos dos mais poderosos dentre eles concentraram todo o seu pensamento e seu desejo nesse lugar. E, desses, Melkor era o chefe, exatamente como no início ele fora o mais poderoso dos Ainur que haviam participado da Música. E ele fingia, a princípio até para si, que desejava ir até lá e ordenar tudo pelo bem dos Filhos de Ilúvatar, controlando o turbilhão de calor e frio que o atravessava. No fundo, porém, desejava submeter à sua vontade tanto elfos quanto homens, por invejar-lhes os dons que Ilúvatar prometera conceder-lhes; e Melkor desejava ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor e ter comando sobre a vontade de outros.

Já os outros Ainur contemplaram essa habitação instalada nos vastos espaços do Universo, que os elfos chamam de Arda, a Terra; e seus corações se alegraram com a luz, e seus olhos, enxergando muitas cores, se encheram de contentamento; porém, o bramido do oceano lhes trouxe muita inquietação. E observaram os ventos e o ar, e as matérias das quais Arda era feita: de ferro, pedra, prata, ouro e muitas substâncias. Mas de todas era a água a que mais enalteciam. E dizem os eldar que na água ainda vive o eco da Música dos Ainur mais do que em qualquer outra substância existente na Terra; e muitos dos Filhos de Ilúvatar escutam, ainda insaciados, as vozes do Oceano, sem contudo saber por que o fazem.

Ora, foi para a água que aquele Ainu que os elfos chamam de Ulmo voltou seu pensamento, e de todos foi ele quem recebeu de Ilúvatar noções mais profundas de música. Já sobre os ares e os ventos, mais havia refletido Manwë, o mais nobre dos Ainur. Sobre a textura da Terra havia pensado Aulë, a quem Ilúvatar concedera talentos e conhecimentos pouco inferiores aos de Melkor; mas a alegria e o prazer de Aulë estão no ato de fazer e no resultado desse ato, não na posse nem em sua própria capacidade; motivo pelo qual ele dá, e não acumula, é livre de preocupações e sempre se interessa por alguma nova obra.

E Ilúvatar falou a Ulmo, e disse: - Não vês como aqui neste pequeno reino, nas Profundezas do Tempo, Melkor atacou tua província? Ele ocupou o pensamento com um frio severo e implacável, mas não destruiu a beleza de tuas fontes, nem de teus lagos cristalinos. Contempla a neve, e o belo trabalho da geada! Melkor criou calores e fogo sem limites, e não conseguiu secar teu desejo nem sufocar de todo a música dos mares. Admira então a altura e a glória das nuvens, e das névoas em permanente mutação; e ouve a chuva a cair sobre a Terra! E nessas nuvens, tu és levado mais para perto de Manwë, teu amigo, a quem amas.

Respondeu então Ulmo: - Na verdade, a Água tornou-se agora mais bela do que meu coração imaginava. Meu pensamento secreto não havia concebido o floco de neve, nem em toda a minha música estava contida a chuva que cai. Procurarei Manwë para que ele e eu possamos criar melodias eternamente para teu prazer! - E Manwë e Ulmo se aliaram desde o início, e sob todos os aspectos serviram com a máxima fidelidade aos objetivos de Ilúvatar.

Porém, no momento em que Ulmo falava, e enquanto os Ainur ainda contemplavam a visão, ela foi recolhida e permaneceu oculta Pareceu-lhes que naquele instante eles percebiam uma nova realidade, as Trevas, que eles ainda não conheciam a não ser em pensamento. Estavam, porém, apaixonados pela beleza da visão e fascinados pela evolução do Mundo que nela ganhava existência, e suas mentes estavam totalmente voltadas para isso; pois a história estava incompleta, e os círculos do tempo, ainda não totalmente elaborados quando a visão foi retirada. E alguns disseram que a visão cessou antes da realização do Domínio dos Homens e do desaparecimento gradual dos Primogênitos; motivo pelo qual, embora a Música estivesse sobre todos, os Valar não viram com o dom da visão as Eras Posteriores ou o final do Mundo.

Houve então inquietação entre os Ainur; mas Ilúvatar os conclamou, e disse: - Conheço o desejo em suas mentes de que aquilo que viram venha na verdade a ser, não apenas no pensamento, mas como vocês são e, no entanto, diferente. Logo, eu digo: Eä! Que essas coisas Existam! E mandarei para o meio do Vazio a Chama Imperecível; e ela estará no coração do Mundo, e o Mundo Existirá; e aqueles de vocês que quiserem, poderão descer e entrar nele. - E, de repente, os Ainur viram ao longe uma luz, como se fosse uma nuvem com um coração vivo de chamas; e souberam que não era apenas uma visão, mas que Ilúvatar havia criado algo novo: Eä, o Mundo que É.

Aconteceu, assim, de entre os Ainur alguns continuarem residindo com Ilúvatar fora dos limites do Mundo, mas outros, e entre eles muitos dos mais fortes e belos, despediram-se de Ilúvatar e desceram para nele entrar. No entanto, essa condição llúvatar impôs, ou talvez fosse conseqüência necessária de seu amor, que o poder deles a partir daí fosse contido no Mundo e a ele restrito, e nele permaneceria para sempre, até que ele se completasse, para que eles fossem a vida do mundo; e o mundo, a deles. E por esse motivo foram chamados de Valar, os Poderes do Mundo.

Mas quando os Valar entraram em Eä, a princípio ficaram assustados e desnorteados, pois era como se nada ainda estivesse feito daquilo que haviam contemplado na Visão; tudo estava a ponto de começar, ainda sem forma, e a escuridão era total. Pois a Grande Música não havia sido senão a expansão e o florescer do pensamento nas Mansões Eternas, sendo a Visão apenas um prenúncio; mas agora eles haviam entrado no início dos Tempos, e perceberam que o Mundo havia sido apenas prefigurado e prenunciado; e que eles deveriam concretizá-la. Assim teve início sua enorme labuta em espaços imensos e inexplorados, e em eras incontáveis e esquecidas, até que nas Profundezas do Tempo e no meio das vastas mansões de Eä, veio a surgir à hora e o lugar em que foi criada a habitação dos Filhos de Ilúvatar. E, nessa obra, a parte principal coube a Manwë, Aulë e Ulmo; mas Melkor também estava ali desde o início e interferia em tudo o que era feito, transformando-o, se conseguisse, de modo que satisfizesse seus próprios desejos e objetivos; e ele acendia enormes fogueiras. E assim, quando a Terra ainda era jovem e repleta de energia, Melkor a cobiçou e disse aos outros Valar: - Este será o meu reino; e eu o designo como meu!

Manwë era, porém, irmão de Melkor na mente de Ilúvatar; e ele foi o principal instrumento do segundo tema que Ilúvatar havia criado para combater a dissonância de Melkor. E Manwë chamou a si muitos espíritos, superiores e inferiores, e eles desceram aos campos de Arda e auxiliaram Manwë, evitando que Melkor impedisse para sempre a realização de seu trabalho e que a Terra murchasse antes de florescer. E Manwë disse a Melkor:

- Este reino tu não tomarás como teu, pois muitos trabalharam aqui não menos do que tu. - E houve luta entre Melkor e os outros Valar. E, por algum tempo, Melkor recuou e partiu para outras regiões, e lá fez o que quis; mas não tirou de seu coração o desejo pelo Reino de Arda.

Então os Valar assumiram formas e matizes; e, atraídos para o Mundo pelo amor aos Filhos de Ilúvatar, por quem esperavam, adotaram formas de acordo com o estilo que haviam contemplado na Visão de Ilúvatar, menos na majestade e no esplendor. Além do mais, sua forma deriva de seu conhecimento do Mundo visível, em vez de derivar do Mundo em si; e eles não precisam dela, a não ser apenas como as vestes que usamos, e, no entanto podemos estar nus sem sofrer nenhuma perda de nosso ser. Portanto, os Valar podem caminhar, se quiserem, despidos; e nesse caso nem mesmo os eldar conseguem percebê-los com clareza, mesmo que estejam presentes. Quando os Valar desejam trajar-se, porém, costumam assumir, alguns, formas masculinas, outros, formas femininas; pois essa diferença de temperamento eles possuíam desde o início, e ela somente se manifesta na escolha de cada um, não sendo criada por essa escolha, exatamente como entre nós o masculino e o feminino podem ser revelados pelos trajes, mas não criados por eles. Mas as formas com as quais os Grandes se ornamentam não são sempre semelhantes às formas dos reis e rainhas dos Filhos de Ilúvatar; já que às vezes eles podem se revestir do próprio pensamento, tornado visível em formas de majestade e terror.

E os Valar atraíram para si muitos companheiros, alguns menos grandiosos do que eles, outros quase tão grandiosos quanto eles; e, juntos, trabalharam na organização da Terra e no controle de seus tumultos. Melkor então viu o que era feito; que os Valar caminhavam sobre a Terra como forças visíveis, trajados com roupas do Mundo, e eram lindos e gloriosos ao olhar, além de jubilosos, e que a Terra estava se tomando um jardim para seu prazer, já que seus turbilhões estavam subjugados. Cresceu-lhe então muito mais a inveja; e ele também assumiu forma visível; mas, em virtude de seu ânimo e do rancor que nele ardia, essa forma era escura e terrível. E ele desceu sobre Arda com poder e majestade maiores do que os de qualquer outro Vala, como uma montanha que avança sobre o mar e tem seu topo acima das nuvens, que é revestida de gelo e coroada de fumaça e fogo, e a luz dos olhos de Melkor era como uma chama que faz murchar com seu calor e perfura com um frio mortal.

Assim começou a primeira batalha dos Valar com Melkor pelo domínio de Arda; e sobre esses tumultos, os elfos sabem pouquíssimo, pois o que foi aqui declarado teve origem nos próprios Valar, com quem os eldalië falavam na terra de Valinor e por quem foram instruídos; mas os Valar pouco se dispõem a relatar sobre as guerras anteriores à chegada dos elfos. Diz-se, porém, entre os eldar que os Valar sempre se esforçaram, apesar de Melkor, para governar a Terra e prepará-la para a chegada dos Primogênitos: e eles criaram terras, e Melkor as destruía; sulcavam vales, e Melkor os erguia; esculpiam montanhas, e Melkor as derrubava; abriam cavidades para os mares, e Melkor os fazia transbordar; e nada tinha paz ou se desenvolvia, pois mal os Valar começavam algum trabalho, Melkor o desfazia ou corrompia. E, no entanto, o trabalho deles não foi totalmente vão; e embora em tarefa ou em parte alguma sua vontade e determinação fossem perfeitamente cumpridas, e todas as coisas fossem em matiz e forma diferentes da intenção inicial dos Valar, apesar disso, lentamente, a Terra foi moldada e consolidada. E assim finalmente estabeleceu-se à morada dos Filhos de Ilúvatar nas Profundezas do Tempo e no meio das estrelas incontáveis.


Última edição por Manwë Súlimo em Qui Jul 22 2010, 23:08, editado 2 vez(es)
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Manwë Súlimo
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:14

VALAQUENTA
Relato dos Valar e dos Maiar, segundo o conhecimento dos eldar



No início, Eru, o Único, que no idioma élfico é chamado de Ilúvatar, gerou de seu pensamento os Ainur; e eles criaram uma Música magnífica diante dele. Nessa música, o Mundo teve início; pois Ilúvatar tornou visível a canção dos Ainur, e eles a contemplaram como uma luz nas trevas. E muitos dentre eles se enamoraram de sua beleza, e também ele sua história, cujo início e evolução testemunharam como numa visão. Então, Ilúvatar deu Vida a essa visão e a instalou no meio do Vazio; e o Fogo Secreto foi enviado para que ardesse no coração do Mundo; e ele se chamou Eä.

Então, aqueles dos Ainur que assim desejaram, levantaram-se e entraram no Mundo no início dos Tempos; e foi sua missão realizar esse Mundo e, com seus esforços, concretizar a visão que haviam tido. Foi longa sua labuta nas regiões de Eä, que são vastas para além do alcance de elfos e homens, até que, no momento previsto, foi criada Arda, o Reino da Terra. Eles então vestiram os trajes da Terra, desceram até ela e a habitaram.


Dos Valar



Os Grandes, entre esses espíritos, os elfos denominam Valar, os Poderes de Arda; e os homens com freqüência os chamaram deuses. Os Senhores dos Valar são sete; e as Valier, as Rainhas dos Valar, são também em número de sete. Estes eram seus nomes no idioma élfico falado em Valinor, embora eles tenham outros nomes na fala dos elfos da Terra-média, e entre os homens seus nomes sejam numerosos. Os nomes dos Senhores na ordem correta são Manwë, Ulmo, Aulë, Oromë, Mandos, Lórien e Tulkas; e os das Rainhas são Varda, Yavanna, Nienna, Estë, Vairë, Vána e Nessa. Melkor não é mais incluído entre os Valar, e seu nome não é pronunciado na Terra.

Manwë e Melkor eram irmãos no pensamento de Ilúvatar. O mais poderoso daqueles Ainur que vieram para o Mundo foi inicialmente Melkor. Já Manwë tem a maior estima de Ilúvatar e compreende com mais clareza seus objetivos. Ele foi designado para ser, na plenitude do tempo, o primeiro de todos os Reis: senhor do reino de Arda e governante de todos os que o habitam. Em Arda, seu prazer está nos ventos e nas nuvens, e em todas as regiões do ar, das alturas às profundezas, dos limites mais remotos do Véu de Arda às brisas que sopram nos prados. Súlimo é seu sobrenome, Senhor do Alento de Arda. Ele ama todas as aves velozes, de asas fortes, e elas vão e vêm, atendendo às suas ordens.

Com Manwë mora Varda, Senhora das Estrelas, que conhece todas as regiões de Eä. Sua beleza é por demais majestosa para ser descrita nas palavras de homens ou elfos, pois a luz de Ilúvatar ainda vive em seu semblante. Na luz estão seu poder e sua alegria. Das profundezas de Eä, veio ela em auxílio a Manwë; pois conhecia Melkor antes do início da Música e o rejeitava; e ele a odiava e temia mais do que qualquer outro ser criado por Eru. Manwë e Varda raramente se separam, e permanecem em Valinor. Suas moradas são acima das neves eternas, em Oiolossë, a torre suprema da Taniquetil, a mais alta de todas as montanhas na face da Terra. Quando Manwë sobe ao seu trono e olha em volta, se Varda estiver a seu lado, ele vê mais longe do que todos os outros olhos, através da névoa, através da escuridão e por sobre as léguas dos mares.

E, se Manwë estiver com ela, Varda ouve com mais clareza do que todos os outros seres o som de vozes que gritam de leste a oeste, dos montes e dos vales, e também dos locais sinistros que Melkor criou na Terra. De todos os Grandes Seres que habitam o mundo, os elfos sentem maior reverência e amor por Varda. O nome que lhe dão é Elbereth, e eles o invocam das sombras da Terra-média, elevando-o em hino quando nascem as estrelas.

Ulmo é o Senhor das Águas. Ele vive só. Não mora em lugar algum por muito tempo, mas se movimenta à vontade em todas as águas profundas da Terra ou debaixo dela. Seu poder só é inferior ao de Manwë; e, antes da criação de Valinor, era seu melhor amigo. A partir dessa época, entretanto, raramente foi às assembléias dos Valar, a menos que questões importantes estivessem em discussão. Pois guardava na mente Arda inteira; e não necessita de um local de repouso. Além disso, não gosta de caminhar sobre a terra e raramente se dispõe a se apresentar num corpo, como fazem seus pares. Se os Filhos de Eru o avistassem, eram dominados por intenso pavor; pois a chegada do Rei dos Mares era terrível, como uma onda que se agiganta e avança sobre a terra, com elmo escuro e crista de espuma, e cota de malha cintilando do prateado a matizes do verde. As trombetas de Manwë são estridentes, mas a voz de Ulmo é profunda, como as profundezas do oceano que só ele viu.

Não obstante, Ulmo ama elfos e homens e nunca os abandonou, nem mesmo quando foram alvo da ira dos Valar. Às vezes, ele vem despercebido ao litoral da Terra-média, ou entra terra adentro, subindo por braços de mar para aí criar música com suas grandes trompas, as Ulumúri, que são feitas de concha branca; e aqueles que a escutam, passam a ouvi-la para sempre em seu coração, e o anseio pelo mar nunca mais os abandona. Na maioria das vezes, porém, Ulmo fala àqueles que moram na Terra-média com vozes que são ouvidas apenas como a música das águas. Pois tem sob seu domínio todos os mares, lagos, fontes e nascentes, e os elfos dizem que o espírito de Ulmo corre em todas as veias do mundo Assim, mesmo nas profundezas do mar, chegam a Ulmo notícias de todas as necessidades e aflições de Arda, que de outra forma permaneceriam ocultas a Manwë.

Aulë tem poder pouco inferior ao de Ulmo. Governa todas as substâncias das quais Arda é feita. No início, trabalhou bastante na companhia de Manwë e Ulmo; e a criação de todas as terras foi sua tarefa. Ele é ferreiro e mestre de todos os ofícios; deleita-se com trabalhos que exigem perícia, por menores que sejam, e também com a poderosa construção do passado São suas as pedras preciosas que jazem nas profundezas da Terra, e o ouro que é belo nas mãos, não menos do que as muralhas das montanhas e as bacias dos oceanos. Os noldor foram os que mais aprenderam com ele, e ele sempre foi seu amigo. Melkor sentia inveja de Aulë, pois era Aulë o que mais se assemelhava a ele em idéias e poderes; e houve um longo conflito entre os dois, no qual Melkor sempre desfigurava ou desfazia as obras de Aulë; e Aulë se exauria a reparar os tumultos e as desordens de Melkor. Os dois também desejavam criar coisas que fossem suas, novas e ainda não imaginadas pelos outros, e gostavam de ter sua habilidade elogiada. Aulë, porém, mantinha-se fiel a Eru e submetia tudo o que fazia à sua vontade; e não invejava os feitos dos outros, mas procurava conselhos e os dava. Ao passo que Melkor dissipava seu espírito em inveja e ódio, até que afinal não fazia mais outra coisa a não ser ridicularizar o pensa-mento de terceiros, e destruiria todas as obras alheias se pudesse.

A esposa de Aulë é Yavanna, a Provedora de Frutos. Ela ama todas as coisas que crescem na terra, e guarda na mente todas as suas incontáveis formas, das árvores semelhantes a torres nas florestas primitivas ao musgo sobre as pedras ou aos seres pequenos e secretos que vivem no solo. Em reverência, Yavanna vem logo após Varda entre as Rainhas dos Valar. Na forma de mulher, ela é alta e se traja de verde; mas às vezes assume outras formas. Há quem a tenha visto em pé como uma árvore sob o firmamento, coroada pelo Sol; e, de todos os seus galhos, derramava-se um orvalho dourado sobre a terra estéril, que se tornava verdejante com o trigo; mas as raízes das árvores estavam nas águas de Ulmo, e os ventos de Manwë falavam nas suas folhas. Kementári, Rainha da Terra, é seu sobrenome na língua eldarin.

Os fëanturi, senhores dos espíritos, são irmãos; e são geralmente chamados de Mandos e Lórien. Contudo, esses são de fato os nomes dos locais onde moram, sendo verdadeiros nomes Námo e Irmo.

Námo, o mais velho, mora em Mandos, que fica a oeste, em Valinor. Ele é o guardião das Casas dos Mortos; e o que convoca os espíritos dos que foram assassinados. Nunca se esquece de nada; e conhece todas as coisas que estão por vir, à exceção daquelas que ainda se encontram no arbítrio de Ilúvatar. Ele é o Oráculo dos Valar; mas pronuncia seus presságios e suas sentenças apenas em obediência a Manwë. Vairë, a Tecelã, é sua esposa, e tece em suas telas, repletas de histórias, todas as coisas que um dia existiram no Tempo, e as moradas de Mandos, que sempre se ampliam com o passar das eras, estão re-vestidas dessas telas.

Irmo, o mais novo, é o senhor das visões e dos sonhos. Em Lórien estão seus jardins na terra dos Valar, repletos de espíritos, são os mais belos locais do mundo. Estë, a Suave, curadora de ferimentos e da fadiga, é sua esposa. Cinzentos são seus trajes, e o repouso é seu dom. Ela não se movimenta de dia, mas dorme numa ilha no lago sombreado de árvores de Lórellin. Nas fontes de Irmo e Estë, todos os que moram em Valinor revigoram suas forças; e com freqüência os Valar vêm eles próprios a Lórien para ali encontrar repouso e alívio dos encargos de Arda.

Mais poderosa do que Estë é Nienna, irmã dos fëanturi, que vive sozinha. Ela conhece a dor da perda e pranteia todos os ferimentos que Arda sofreu pelos estragos provocados por Melkor.

Tão imensa era sua tristeza, à medida que a Música se desenvolvia, que seu canto se transformou em lamento bem antes do final; e o som do lamento mesclou-se aos temas do Mundo antes que ele começasse. Não chora, porém, por si mesma; e quem escutar o que ela diz, aprende a compaixão e a persistência na esperança. Sua morada fica a oeste do Oeste, nos limites do mundo; e ela raramente vem à cidade de Valimar, onde tudo é alegria. Prefere visitar a morada de Mandos, que fica mais perto da sua; e todos os que esperam em Mandos clamam por ela, pois ela traz força ao espírito e transforma a tristeza em sabedoria. As janelas de sua casa olham para fora das muralhas do mundo.

O maior na força e nos atas de bravura é Tulkas, cujo sobrenome é Astaldo, o Valente. Chegou a Arda por último, para auxiliar os Valar nas primeiras batalhas contra Melkor. Aprecia a luta corpo a corpo e as competições de força; não cavalga nenhum corcel, pois supera em velocidade todas as criaturas providas de patas, além de ser incansável. Seu cabelo e sua barba são dourados; e sua pele, corada. Suas armas são suas mãos. Presta pouca atenção ao passado ou ao futuro, e não tem serventia como conselheiro, mas é um amigo destemido. Sua esposa é Nessa, a irmã de Oromë, e também ela é ágil e veloz. Ama os cervos, e eles acompanham seus passos onde quer que ela vá aos bosques; mas ela corre mais do que eles, célere como uma flecha com o vento nos cabelos. Adora dançar, e dança em Valimar em gramados eternamente verdes.

Oromë é um senhor poderoso. Embora seja menos forte do que Tulkas, é mais temível em sua ira; ao passo que Tulkas sempre ri, tanto na luta por esporte quanto na guerra; e, mesmo diante de Melkor, ele riu em batalhas ocorridas antes do nascimento dos elfos. Oromë amava as terras da Terra-média e as deixou a contragosto, sendo o último a chegar a Valinor. Muitas vezes, no passado, atravessava as montanhas de volta para o leste e retornava com suas hostes para os montes e as planícies. É caçador de monstros e feras cruéis e adora cavalos e cães de caça, ama todas as árvores, motivo pelo qual é chamado de Aldaron e, pelos sindar, Tauron, o Senhor das Florestas. Nahar é o nome de seu cavalo, branco à luz do sol e prateado à noite Valaróma é o nome da sua enorme trompa, cujo som se assemelha ao nascer do Sol escarlate, ou ao puro relâmpago que divide as nuvens. Mais alto que todas as trompas de suas hostes, ela era ouvida nos bosques que Yavanna fez surgir em Valinor; pois ali Oromë treinava sua gente e seus animais para perseguir as criaturas perversas de Melkor. A esposa de Oromë é Vána, a Semprejovem, irmã mais nova de Yavanna. Todas as flores brotam à sua passagem e se abrem se ela as contemplar de relance. E todos os pássaros cantam à sua chegada.

São esses os nomes dos Valar e das Valier, e aqui se descreve por alto sua aparência, como os eldar os viram em Aman. Mas, por mais belas e nobres que fossem as formas dos Filhos de Ilúvatar, elas não passavam de um véu a encobrir sua beleza e seu poder. E, se pouco se diz aqui de tudo o que os eldar souberam outrora, isso não é nada em comparação com seu verdadeiro ser, que remonta a regiões e eras muito além do alcance de nossa mente. Entre eles, nove gozavam de maior poder e reverência; mas um foi excluído do grupo e oito permanecem, os Aratar, os Seres Superiores de Arda. Manwë e Varda, Ulmo, Yavanna e Aulë, Mandos, Nienna e Oromë Embora Manwë seja seu Rei e tenha a lealdade de todos sob as ordens de Eru, em majestade eles são semelhantes, ultrapassando de longe todos os outros, sejam Valar, sejam Maiar, sejam de qualquer outra ordem que Ilúvatar tenha enviado para Eä.








Dos Maiar




Com os Valar vieram outros espíritos cuja existência também começou antes do Mundo, e da mesma ordem dos Valar, mas de grau inferior. São os Maiar, o povo dos Valar, seus criados e auxiliares. Seu número não é conhecido entre os elfos, e poucos têm nomes em qualquer dos idiomas dos Filhos de Ilúvatar. Pois, embora seja diferente em Aman, na Terra-média os Maiar raramente apareceram em forma visível a elfos e homens.

Importantíssimos entre os Maiar de Valinor, cujos nomes são lembrados nas histórias dos Tempos Antigos, são Ilmarë, a criada de Varda, e Eönwë, o porta-estandarte e arauto de Manwë, cujo poder em armas ninguém supera em Arda. Porém, de todos os Maiar, Ossë e Uinen são os mais conhecidos dos Filhos de Ilúvatar.

Ossë é vassalo de Ulmo e é o senhor dos mares que banham as praias da Terra-média. Ele não mergulha nas profundezas, mas ama as costas e ilhas, e se deleita com os ventos de Manwë.

Pois, com a tempestade ele se delicia e ri em meio ao bramir das ondas. Sua esposa é Uinen, a Senhora dos Mares, cuja cabeleira se espalha por todas as águas sob os céus. Ela ama todas as criaturas que habitam as correntes salgadas e todas as algas que ali se desenvolvem. Por ela clamam os marinheiros, pois Uinen pode impor a calma às ondas, restringindo a ferocidade de Ossë. Os númenorianos viveram muito tempo sob sua proteção e sentiam por ela reverência igual à que dedicavam aos Valar.

Melkor odiava o Mar, já que não conseguia dominá-lo. Conta-se que na criação de Arda ele tentou atrair Ossë para sua vassalagem, prometendo-lhe todo o reino e o poder de Ulmo, se Ossë quisesse servi-lo. Assim, há muito tempo ocorreram enormes turbulências no mar, que devastaram as terras. Uinen, porém, atendendo a um pedido de Aulë, controlou Ossë e o levou à presença de Ulmo. Ossë foi perdoado e voltou a seu compromisso de lealdade, ao qual tem sido fiel. Isso, na maior parte do tempo, já que o prazer da violência nunca o abandonou por completo e às vezes ele se enfurece, em seus caprichos, sem nenhuma ordem de Ulmo, seu senhor. Portanto, os que moram junto ao mar ou que navegam em barcos podem amá-lo, mas nele não confiam.

Melian era o nome de uma Maia que servia tanto a Vána quanto a Estë. Morou muito tempo em Lórien, cuidando das arvores que florescem nos jardins de Irmo, antes de vir para a Terramédia.

Rouxinóis cantavam à sua volta onde quer que ela fosse.

O mais sábio dos Maiar era Olórin. Ele também mora em Lórien, mas sua natureza o levava com freqüência à casa de Nienna, e com ela aprendeu a compaixão e a paciência.

De Melian muito se fala no Quenta Silmarillion. Já de Olórin essa história não fala; pois embora ele amasse os elfos, caminhava invisível em seu meio ou na forma de um deles, e eles não sabiam de onde vinham as belas visões ou as sugestões de sabedoria que ele instilava em seus corações. Em tempos mais recentes, foi amigo de todos os Filhos de Ilúvatar e se compadeceu de suas tristezas; e aqueles que o escutavam despertavam do desespero e abandonavam as fantasias sinistras.






Dos Inimigos




Em último lugar está o nome de Melkor, Aquele que se levanta Poderoso. A esse nome, porém, ele renunciou. E os noldor, entre os elfos os que mais sofreram com sua perversidade, se recusam a pronunciá-lo e o chamam de Morgoth, o Sinistro Inimigo do Mundo. Grande poder lhe foi concedido por Ilúvatar, e ele era contemporâneo de Manwë. Dispunha dos poderes e conhecimentos de todos os outros Valar, mas os desviava para objetivos perversos e desperdiçava sua força em violência e tirania. Pois cobiçava Arda e tudo o que nela existia, desejando a realeza de Manwë e o domínio sobre os reinos de seus pares.

Do esplendor, por arrogância, caiu no desdém por tudo o que não fosse ele mesmo, um espírito devastador e impiedoso. O entendimento ele transformou em sutileza, em perverter à própria vontade tudo o que quisesse usar, e acabou se tornando um mentiroso contumaz. Começou desejando a Luz; mas, quando viu que não podia possuí-la só para si, desceu através do fogo e da ira, em enormes labaredas, até as Trevas. E às trevas recorreu principalmente em seus atos malignos em Arda e encheu-as de temor por todas as criaturas vivas.

Contudo, tão extraordinário era o poder de sua rebelião, que, em eras esquecidas, combateu Manwë e todos os Valar, e durante longos anos em Arda manteve a maior parte dos territórios da Terra sob seu domínio. Mas não estava sozinho. Pois, dos Maiar, muitos foram atraídos por seu esplendor em seus dias de majestade, permanecendo fiéis a ele em seu mergulho nas trevas.

E outros ele corrompeu mais tarde, atraindo-os para si com mentiras e presentes traiçoeiros.

Horrendos entre esses espíritos eram os valaraukar, os flagelos de fogo que na Terra-média eram chamados de balrogs, demônios do terror.

Entre seus servos que possuem nomes, o maior era aquele espírito que os eldar chamavam de Sauron, ou Gorthaur, o Cruel. No início, ele pertencia aos Maiar de Aulë e continuou poderoso na tradição daquele povo. Em todos os atos de Melkor, o Morgoth, em Arda, em seus imensos trabalhos e nas trapaças originadas por sua astúcia, Sauron teve participação; e era menos maligno do que seu senhor somente porque por muito tempo serviu a outro, e não a si mesmo.

No entanto, nos anos posteriores, ele se elevou como uma sombra de Morgoth e como um espectro de seu rancor, e o acompanhou no mesmo caminho desastroso de descida ao Vazio.

AQUI TERMINA O VALAQUENTA


Última edição por Manwë Súlimo em Ter Jun 29 2010, 00:03, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:16

CAPÍTULO I
Do início dos tempos




Diz-se entre os sábios que a Primeira Guerra começou antes que Arda estivesse totalmente formada, e antes mesmo que qualquer criatura crescesse ou caminhasse sobre a terra; e por muito tempo Melkor prevaleceu. Entretanto, no meio da guerra, ao ouvir no distante firmamento que havia batalha no Pequeno Reino, um espírito de enorme força e resistência veio em auxílio dos Valar; e Arda se encheu com o som de seu riso. Assim veio Tulkas, o Forte, cuja ira circula como um vento poderoso, afastando a nuvem e a escuridão à sua frente.

E Melkor fugiu de sua fúria e de suas risadas, abandonando Arda, e a paz reinou por uma longa era. E Tulkas permaneceu, tomando-se um dos Valar do Reino de Arda; mas Melkor remoia pensamentos nas trevas distantes, e dirigiu seu ódio a Tulkas para todo o sempre.

Naquele período, os Valar trouxeram ordem aos mares, terras e montanhas, e Yavanna finalmente plantou as sementes que havia muito imaginara. E, como houvesse necessidade de luz, já que os fogos estavam dominados ou enterrados sob as colinas primitivas, Aulë, a pedido de Yavanna, criou duas lamparinas poderosas para iluminar a Terra-média, construída por ele entre os mares circundantes. Então Varda encheu as lamparinas, e Manwë as consagrou; e os Valar as puseram em cima de colunas altíssimas, mais elevadas do que qualquer das montanhas mais recentes. Ergueram uma lamparina junto ao norte da Terra-média, e ela se chamou Illuin; e a outra foi erguida no sul, e foi chamada Ormal; e a luz das Lamparinas dos Valar se derramou por toda a Terra, iluminando tudo como se fosse sempre dia.

Então, as sementes que Yavanna havia plantado logo começaram a brotar e a se desenvolver, e surgiu uma infinidade de seres em crescimento, grandes e pequenos, musgos, capins e enormes samambaias, e árvores cujas copas eram coroadas de nuvens, como montanhas vivas, mas cujos pés ficavam envoltos numa penumbra verde. E surgiram feras que habitavam as pradarias, os rios e os lagos, ou caminhavam nas sombras dos bosques. Ainda não surgira nenhuma flor, nem cantara pássaro algum, pois esses seres esperavam sua vez no ventre de Yavanna; mas havia abundância do que ela imaginara, e nenhum lugar era mais rico do que as partes mais centrais da Terra, onde a luz das duas Lamparinas se encontrava e se fundia. E ali, na Ilha de Almaren, no Grande Lago, foi a primeira morada dos Valar quando tudo era novo, e o verde recém-criado ainda era uma maravilha aos olhos dos criadores. E eles se contentaram por muito tempo.

Ora, veio a acontecer que, enquanto os Valar repousavam da sua labuta e observavam o crescimento e o desabrochar daquilo que haviam inventado e iniciado, Manwë ofereceu uma grande festa; e os Valar e toda a sua gente atenderam ao convite. No entanto, Aulë e Tulkas estavam exaustos; pois a habilidade de Aulë e a força de Tulkas haviam estado ininterruptamente a serviço de todos, nos dias de sua faina. E Melkor sabia de tudo o que era feito, pois já naquela época dispunha de espiões e amigos secretos entre os Maiar, que havia atraído para sua causa. E muito ao longe, nas trevas, ele se enchia de ódio, sentindo inveja do trabalho de seus pares e desejando submetê-los. Assim, Melkor chamou a si os espíritos que desviara para seu serviço, fazendo-os sair das mansões de Eä, e se considerou forte. E, vendo que essa era sua hora, ele mais uma vez se aproximou de Arda e baixou os olhos até ela; e a beleza da Terra em sua Primavera o enfureceu ainda mais.

Assim, os Valar se reuniram em Almaren, sem temer mal algum, e, por causa da luz de Illuin, não perceberam a sombra do norte que vinha sendo lançada de longe por Melkor; pois ele se tornara escuro como a Noite do Vazio. E dizem as canções que, naquela festa, na Primavera de Arda, Tulkas desposou Nessa, a irmã de Oromë, e ela dançou diante dos Valar sobre a relva verdejante de Almaren Tulkas então adormeceu, exausto e contente, e Melkor acreditou que sua hora havia chegado.

Transpôs as Muralhas da Noite com sua legião e chegou a Terra-média, à distância, no norte, sem que os Valar dele se apercebessem.

Melkor iniciou então as escavações e a construção de uma enorme fortaleza nas profundezas da Terra, debaixo das montanhas escuras onde os raios de Illuin eram frios e pálidos. Esse reduto foi chamado Utumno. E, embora os Valar ainda nada soubessem a respeito, mesmo assim a perversidade de Melkor e a influência maléfica de seu ódio emanavam de lá, e a Primavera de Arda foi destruída. Os seres verdes adoeceram e apodreceram, os rios foram obstruídos por algas e lodo; criaram-se pântanos, repelentes e venenosos, criatórios de moscas; as florestas tornaram-se sombrias e perigosas, antros do medo; e as feras se transformaram em monstros de chifre e marfim e tingiram a terra de sangue. Os Valar tiveram então certeza, de que Melkor estava agindo novamente, e saíram à procura de seu esconderijo. Melkor, porém, confiante na resistência de Utumno e no poder de seus servos, apresentou-se de repente para a luta e deu o primeiro golpe antes que os Valar estivessem preparados, atacou as luzes de Illuin e Ormal, arrasou suas colunas e quebrou suas lamparinas. Quando as enormes colunas desmoronaram, terras fenderam-se e mares elevaram-se em turbulência. E, quando as lamparinas foram derrubadas, labaredas destruidoras se derramaram pela Terra. E a forma de Arda, além da simetria de suas águas e de suas terras, foi desfigurada naquele momento, de modo tal que os primeiros projetos dos Valar nunca mais foram restaurados.

Em meio à confusão e às trevas, Melkor conseguiu escapar, embora o medo se abatesse sobre ele; pois, mais alto que o bramido dos mares, ele ouvia a voz de Manwë como um vento fortíssimo, e a terra tremia sob os pés de Tulkas. Chegou, porém a Utumno antes que Tulkas conseguisse alcançá-lo; e ali permaneceu escondido. E os Valar não puderam então derrotá-lo, já que a maior parte de sua força era necessária para controlar as turbulências da Terra e salvar da destruição tudo o que pudesse ser salvo de sua obra. Depois, eles recearam fender novamente a Terra, enquanto não soubessem onde habitavam os Filhos de Ilúvatar, que ainda estavam por vir num momento que desconheciam.

Assim terminou a Primavera de Arda. A morada do Valar em Almaren foi totalmente destruída, e eles não tinham nenhum local de pouso na face da Terra. Por esse motivo partiram da Terra-média e foram para a Terra de Aman, a mais ocidental de todas, junto aos limites do mundo; pois seu litoral oeste dá para o Mar de Fora, que é chamado pelos elfos de Ekkaia e circunda o Reino de Arda. A extensão desse mar ninguém conhece a não ser os Valar; e, para além dele, ficam as Muralhas da Noite. Já a costa leste de Aman era o limite mais distante de Belegaer, o Grande Mar do Oeste. E, como Melkor estava de volta a Terra-média e eles ainda não tinham como derrotá-la, os Valar fortificaram sua morada e, junto ao litoral, ergueram as Pelóri, as montanhas de Aman, as mais altas de toda a Terra. E acima de todas as montanhas das Pelóri elevava-se aquela em cujo pico Manwë instalou seu trono. Taniquetil é como os elfos chamam essa montanha sagrada; e Oiolossë, Brancura Eterna; e Elerrína, Coroada de Estrelas, e muitos outros nomes. Já os sindar a mencionavam, em sua língua mais recente, como Amon Uilos. De seu palácio no cume da Taniquetil, Manwë e Varda conseguiam descortinar a Terra inteira, até mesmo as maiores distâncias a leste.

Por trás das muralhas das Pelóri, os Valar estabeleceram seu domínio na região chamada Valinor; e ali ficavam suas casas, seus jardins e suas torres. Nesse território seguro, os Valar acumularam enorme quantidade de luz e tudo de mais belo que fora salvo da destruição. E muitas outras coisas ainda mais formosas eles voltaram a criar; e Valinor tornou-se ainda mais bonita do que a Terra-média na Primavera de Arda. E Valinor foi abençoada, pois os Imortais ali moravam; e ali nada desbotava nem murchava; não havia mácula alguma em flor ou folha naquela terra; nem nenhuma decomposição ou enfermidade em coisa alguma que fosse viva; pois as próprias pedras e águas eram abençoadas.

E quando Valinor estava pronta, e as mansões dos Valar, instaladas no meio da planície do outro lado das montanhas, eles construíram sua cidade, Valmar de muitos sinos. Diante de seu portão ocidental, havia uma colina verdejante, Ezellohar, que também é chamada Corollairë; Yavanna a consagrou, e ficou ali sentada muito tempo sobre a relva verde, entoando uma canção de poder, na qual expunha o que pensava sobre as coisas que crescem na terra. Nienna, porém, meditava calada e regava o solo com lágrimas. Naquele momento, os Valar, reunidos para ouvir o canto de Yavanna, estavam sentados, em silêncio, em seus tronos do conselho no Máhanaxar, o Círculo da Lei junto aos portões dourados de Valmar; e Yavanna Kementãri cantava diante deles, e eles observavam.

E enquanto olhavam, sobre a colina surgiram dois brotos esguios; e o silêncio envolveu todo o mundo naquela hora, nem havia nenhum outro som que não o canto de Yavanna. Em obediência a seu canto, as árvores jovens cresceram e ganharam beleza e altura; e vieram a florir; e assim, surgiram no mundo as Duas Árvores de Valinor. De tudo o que Yavanna criou, são as mais célebres, e em torno de seu destino são tecidas todas as histórias dos Dias Antigos.

Uma tinha folhas verde-escuras, que na parte de baixo eram como prata brilhante; e de cada uma de suas inúmeras flores caía sem cessar um orvalho de luz prateada; e a terra sob sua copa era manchada pelas sombras de suas folhas esvoaçantes. A outra apresentava folhas de um verde viçoso, como o da faia recém-aberta, orladas de um dourado cintilante. As flores balançavam nos galhos em cachos de um amarelo flamejante, cada um na forma de uma cornucópia brilhante, derramando no chão uma chuva dourada. E da flor daquela árvore, emanavam calor e uma luz esplêndida. Telperion, a primeira, era chamada em Valinor, e Silpion, e Ninquelótë, entre muitos outros nomes; mas Laurelin era a outra, e também Malinalda e Culúrien, entre muitos outros nomes poéticos.

Em sete horas, a glória de cada árvore atingia a plenitude e voltava novamente ao nada; e cada uma despertava novamente para a vida uma hora antes de a outra deixar de brilhar. Assim, em Valinor, duas vezes ao dia havia uma hora suave de luz mais delicada, quando as duas árvores estavam fracas e seus raios prateados e dourados se fundiam. Telperion era a mais velha das árvores e chegou primeiro à sua plena estatura e florescimento; e aquela primeira hora em que brilhou, com o bruxulear pálido de uma alvorada de prata, os Valar não incluíram na história das horas, mas denominaram a Hora Inaugural, e a partir dela passaram a contar o tempo de seu reinado em Valinor. Portanto, à sexta hora do Primeiro Dia, e de todos os dias jubilosos que se seguiram, até o Ocaso de Valinor, Telperion interrompia sua vez de florir; e na décima segunda hora, era Laurelin que o fazia. E cada dia dos Valar em Aman continha doze horas e terminava com a segunda fusão das luzes, na qual Laurelin empalidecia, e Telperion se fortalecia.

Contudo, a luz que se derramava das árvores persistia muito, antes de ser levada para as alturas pelos ares ou de afundar terra adentro. E as gotas de orvalho de Telperion e a chuva que caía de Laurelin, Varda armazenava em enormes tonéis, como lagos brilhantes, que eram para toda a terra dos Valar como poços de água e luz. Assim começaram os Dias de Bem-aventurança de Valinor; e assim começou a Contagem do Tempo.

Porém, enquanto as Eras se aproximavam da hora estabelecida por Ilúvatar para a chegada dos Primogênitos, a Terra-média jazia numa penumbra sob as estrelas que Varda havia criado nos tempos remotos da sua labuta em Eä. E nas trevas habitava Melkor, e ele ainda saía com freqüência, sob muitos disfarces de poder e terror, brandindo o frio e o fogo, dos cumes das montanhas às fornalhas profundas que se encontram sob elas; e tudo o que fosse cruel, violento ou fatal naqueles tempos é a ele atribuído.

Da beleza e bem-aventurança de Valinor, os Valar raramente atravessavam as montanhas para chegar a Terra-média, mas dedicavam a terra por trás das Pelóri carinho e amor. E no meio do Reino Abençoado estava a morada de Aulë; e lá ele muito trabalhou. Pois, na criação de todas as coisas naquela terra, ele teve o papel principal, e lá realizou muitas obras bonitas e bemfeitas, tanto abertamente quanto em segredo. Dele vêm as tradições e os conhecimentos da Terra e de tudo o que ela contém – tanto as tradições dos que nada fazem, mas buscam o entendimento do que seja, quanto às tradições de todos os artífices: o tecelão, aquele que dá forma à madeira, aquele que trabalha os metais; aquele que cultiva e também lavra, embora estes últimos e todos os que lidam com o que cresce e dá frutos devam recorrer também à esposa de Aulë, Yavanna Kementári. É Aulë que é chamado de Amigo-dos-noldor, pois com ele aprenderam muito nos tempos que viriam; e os noldor são os mais habilidosos dos elfos. E, a seu próprio modo, de acordo com os dons que Ilúvatar lhes concedeu, eles muito acrescentaram aos seus ensinamentos, apreciando línguas e textos, figuras bordadas, desenho e entalhe. Foram também os noldor os primeiros a aprender a criar pedras preciosas; e as mais belas de todas as gemas foram as Silmarils, que estão perdidas.

Manwë Súlimo, o supremo e mais sagrado dos Valar, instalou-se nas fronteiras de Aman, não abandonando em pensamento as Terras de Fora. Pois seu trono situa-se majestosamente sobre o cume da Taniquetil, a mais alta das montanhas do mundo, que se ergue à beira do mar.

Espíritos na forma de falcões e águias sempre chegavam em vôo à sua morada e dela partiam; e seus olhos enxergavam as profundezas dos mares e penetravam nas cavernas ocultas nos subterrâneos do mundo. Assim, traziam-lhe notícia de quase tudo o que se passava em Arda.

Alguns fatos, porém, permaneciam ocultos aos olhos de Manwë e de seus servos, pois pairavam sombras impenetráveis sobre o lugar onde Melkor se encontrava, mergulhado em seus pensamentos sinistros.

Manwë não dá atenção à própria honra, nem sente apego pelo poder, mas governa todos para a paz. Dentre os elfos, os vanyar ele mais amava; e, dele, os vanyar receberam a música e a poesia; pois a poesia é o prazer de Manwë; e o entoar de palavras é sua música. Seus trajes são azuis, e azul é o brilho de seus olhos; e seu cetro é de safiras, que os noldor fabricaram para ele.

E ele foi designado vice-regente de Ilúvatar, Rei do mundo dos Valar, dos elfos e dos homens, principal baluarte contra o mal de Melkor. Com Manwë, vivia Varda, a belíssima, ela, que, no idioma sindarin é chamada de Elbereth, Rainha dos Valar, criadora das estrelas; e com os dois morava uma multidão de espíritos abençoados.

Ulmo, entretanto, vivia só e não tinha morada em Valinor, nem jamais ia até lá, a menos que houvesse alguma reunião importante. Desde o início de Arda, ele habitava o Oceano de Fora e lá reside. De lá, governa o fluxo de todas as águas, as marés, os cursos de todos os rios e o reabastecimento das nascentes, o gotejar de todos os pingos de orvalho e de chuva em todas as terras sob o céu. Nas profundezas, ele pensa em música majestosa e terrível; e o eco dessa música percorre todas as veias do mundo na dor e na alegria. Pois, se é alegre a fonte que brota à luz do sol, suas nascentes estão nos poços de insondável tristeza nos alicerces da Terra. Os teleri muito aprenderam com Ulmo, e por isso a música deles tem tanto tristeza quanto encantamento. Veio com ele para Arda, Salmar, que fabricou as trompas de Ulmo para que ninguém que as tenha ouvido jamais se esqueça delas; e Ossë e Uinen, também, a quem ele concedeu o controle das ondas e dos movimentos dos Mares Interiores, além de muitos outros espíritos. E, assim, foi pelo poder de Ulmo que, mesmo sob as trevas de Melkor, a vida continuava a correr em muitos veios secretos, e a Terra não morreu. E Ulmo estava sempre aberto a todos os que estavam perdidos nas trevas ou perambulavam afastados da luz dos Valar; e também nunca abandonou a Terra-média, nem deixou de refletir sobre tudo o que aconteceu desde então em termos de destruição ou de mudança, e não deixará de fazê-la até o final dos tempos.

E naquela época de trevas Yavanna também não quis abandonar totalmente as Terras de Fora; pois tudo o que cresce lhe é caro, e ela chorava pelas obras que havia começado na Terra-média e Melkor destruíra. Assim, deixando a morada de Aulë e os prados floridos de Valinor, ela às vezes vinha curar os ferimentos causados por Melkor; e, ao voltar, costumava instigar os Valar para a guerra contra seu domínio nefasto que sem dúvida precisariam travar antes da chegada dos Primogênitos. E Oromë, domador de feras, também costumava cavalgar de vez em quando na escuridão das florestas sem luz. Como caçador poderoso vinha com lança e arco, perseguindo até a morte os monstros e as criaturas impiedosas do reino de Melkor; e seu cavalo branco Nahar brilhava como prata nas sombras. E então a terra adormecida tremia ao som de seus cascos dourados; e, no crepúsculo do mundo, Oromë costumava fazer soar a Valaróma, sua grande trompa, pelas planícies de Arda; nesse momento, as montanhas reverberavam o som, as sombras do mal fugiam, e o próprio Melkor tremia em Utumno, prevendo a ira que estava por vir. Porém, assim que Oromë passava, os servos de Melkor voltavam a se reunir; e as terras se cobriam de sombras e falsidade.

Agora já se disse tudo o que estava relacionado à natureza da Terra e seus governantes no início dos tempos, e antes que o mundo se tornasse tal como os Filhos de Ilúvatar o conheceram. Pois elfos e homens são os Filhos de Ilúvatar; e, como os Ainur não entendessem plenamente o tema através do qual os Filhos entraram na Música, nenhum Ainu ousou acrescentar nada de seu próprio alvitre. Motivo pelo qual os Valar estão para essas famílias mais como antepassados e chefes do que como senhores. E, se algum dia no seu trato com elfos e homens, os Ainur tentaram forçá-los quando eles não queriam ser orientados, raramente o resultado foi bom, por melhor que fossem as intenções. As relações dos Ainur na realidade se deram principalmente com os elfos, pois Ilúvatar os fez mais parecidos com os Ainur, embora inferiores em poder e em estatura; enquanto aos homens conferiu dons estranhos.

Pois se diz que, depois da partida dos Valar, houve silêncio, e, por uma eternidade, Ilúvatar permaneceu sentado, meditando. Falou ele então e disse: - Olhem, eu amo a Terra, que será uma mansão para os quendi e os atani! Mas os quendi serão as mais belas criaturas da Terra; e irão ter, conceber e produzir maior beleza do que todos os meus Filhos; e terão a maior felicidade neste mundo. Já aos atani concederei um novo dom Ele, assim, determinou que os corações dos homens sempre buscassem algo fora do mundo e que nele não encontrassem descanso; mas que tivessem capacidade de moldar sua vida, em meio aos poderes e aos acasos do mundo, fora do alcance da Música dos Ainur, que é como que o destino de todas as outras coisas; e por meio de sua atuação tudo deveria, em forma e de fato, ser completado; e o mundo seria concluído até o último e mais ínfimo detalhe.

Ilúvatar sabia, porém, que os homens, colocados em meio ao torvelinho dos poderes do mundo, se afastariam com freqüência do caminho e não usariam seus dons em harmonia; e disse: - Esses também, no seu tempo, descobrirão que tudo o que fazem resulta no final em glória para minha obra. - Contudo, os elfos acreditam que os homens costumam ser motivo de tristeza para Manwë, que conhece a maior parte da mente de Ilúvatar; na opinião dos elfos, os homens são mais parecidos com Melkor do que com qualquer outro Ainur, embora Melkor sempre os tenha temido e odiado, mesmo aqueles que lhe prestaram serviços.

Inclui-se, nesse dom de liberdade, que os filhos dos homens permaneçam vivos por um curto intervalo no mundo, não sendo presos a ele, e partam logo, para onde, os elfos não sabem. Ao passo que os elfos ficam até o final dos tempos, e seu amor pela Terra e por todo o mundo é mais exclusivo e intenso por esse motivo e, com o passar dos anos, cada vez mais cheio de tristezas. Pois os elfos não morrem enquanto o mundo não morrer, a menos que sejam assassinados ou que definhem de dor (e a essas duas mortes aparentes eles estão sujeitos); nem a idade reduz sua força, a menos que estejam fartos de dez mil séculos; e, ao morrer, eles são reunidos na morada de Mandos, em Valinor, de onde podem depois retornar. Já os filhos dos homens morrem de verdade, e deixam o mundo, motivo pelo qual são chamados Hóspedes ou Forasteiros. A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar, que, com o passar do tempo, até os Poderes hão de invejar. Melkor, porém, lançou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperança. Outrora, no entanto, os Valar declararam aos elfos em Valinor que os homens juntarão suas vozes ao coro na Segunda Música dos Ainur: embora Ilúvatar não tenha revelado suas intenções com relação aos elfos depois do fim do Mundo; e Melkor ainda não as tenha descoberto.


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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:17

CAPÍTULO II
De Aulë e Yavanna



Dizem que no início os anões foram feitos por Aulë na escuridão da Terra-média. Pois, tão grande era o desejo de Aulë pela vinda dos Filhos, para ter aprendizes a quem ensinar suas habilidades e seus conhecimentos, que não se dispôs a aguardar a realização dos desígnios de Ilúvatar. E Aulë criou os anões, exatamente como ainda são, porque as formas dos Filhos que estavam por vir não estavam nítidas em sua mente e, como o poder de Melkor ainda dominasse a Terra, desejou que eles fossem fortes e obstinados. Temendo, porém, que os outros Valar pudessem condenar sua obra, trabalhou em segredo e fez em primeiro lugar os Sete Pais dos Anões num palácio sob as montanhas na Terra-média.

Ora, Ilúvatar soube o que estava sendo feito e, no exato momento em que o trabalho de Aulë se completava, e Aulë estava satisfeito e começava a ensinar aos anões a língua que inventara para eles, Ilúvatar dirigiu-lhe a palavra; e Aulë ouviu sua voz e emudeceu. E a voz de Ilúvatar lhe disse: - Por que fizeste isso? Por que tentaste algo que sabes estar fora de teu poder e de tua autoridade? Pois tens de mim como dom apenas tua própria existência e nada mais. E, portanto, as criaturas de tua mão e de tua mente poderão viver apenas através dessa existência, movendo-se quando tu pensares em movê-las e ficando ociosas se teu pensamento estiver voltado para outra coisa. É esse teu desejo?

- Não desejei tamanha ascendência – respondeu Aulë. - Desejei seres diferentes de mim, que eu pudesse amar e ensinar, para que também eles percebessem a beleza de Eä, que tu fizeste surgir. Pois me pareceu que há muito espaço em Arda para vários seres que poderiam nele deleitar-se; e, no entanto, em sua maior parte ela ainda está vazia e muda. E, na minha impaciência, cometi essa loucura. Contudo, à vontade de fazer coisas está em meu coração porque eu mesmo fui feito por ti. E a criança de pouco entendimento, que graceja com os atos de seu pai, pode estar fazendo isso sem nenhuma intenção de zombaria, apenas por ser filho dele. E agora, o que posso fazer para que não te zangues comigo para sempre? Como um filho ao pai, ofereço-te essas criaturas, obra das mãos que criaste. Faze com elas o que quiseres. Mas não seria melhor eu mesmo destruir o produto de minha presunção?

E Aulë apanhou um enorme martelo para esmagar os anões, e chorou. Mas Ilúvatar apiedou-se de Aulë e de seu desejo, em virtude de sua humildade. E os anões se encolheram diante do martelo e sentiram medo, baixaram a cabeça e imploraram clemência. E a voz de Ilúvatar disse a Aulë: - Tua oferta aceitei enquanto ela estava sendo feita Não percebes que essas criaturas têm agora vida própria e falam com suas próprias vozes? Não fosse assim, e elas não teriam procurado fugir ao golpe nem a nenhum comando de tua vontade.

Largou, então, Aulë o martelo e, feliz, agradeceu a Ilúvatar, dizendo. - Que Eru abençoe meu trabalho e o corrija. Ilúvatar voltou a falar, entretanto, e disse: - Exatamente como dei existência aos pensamentos dos Ainur no início do Mundo, agora adotei teu desejo e lhe atribuí um lugar no Mundo; mas de nenhum outro modo corrigirei tua obra; e, como tu a fizeste, assim ela será. Contudo não tolerarei o seguinte: que esses seres cheguem antes dos Primogênitos de meus desígnios, nem que tua impaciência seja premiada. Eles agora deverão dormir na escuridão debaixo da pedra, e não se apresentarão enquanto os Primogênitos não tiverem surgido sobre a Terra; e até essa ocasião tu e eles esperareis, por longa que seja a demora. Mas quando chegar a hora, eu os despertarei, e eles serão como filhos teus; e muitas vezes haverá discórdia entre os teus e os meus, os filhos de minha adoção e os filhos de minha escolha.

Então Aulë pegou os Sete Pais dos Anões e os levou para descansar em locais bem afastados; voltou em seguida a Valinor e esperou os longos anos transcorrerem.

Como fossem surgir na época em que Melkor prevalecia, Aulë fez os anões resistentes. Por isso, eles são duros como a pedra, teimosos, firmes na amizade e na inimizade, e conseguem suportar fadiga, fome e ferimentos com mais bravura do que todos os outros povos que falam; e vivem muito, bem mais do que os homens, embora não para sempre. Antigamente, dizia-se entre os elfos na Terra-média que os anões, ao morrer, voltavam para a terra e a pedra da qual eram feitos; no entanto, não é essa a crença entre eles próprios. Pois dizem que Aulë, o Criador, que chamam de Mahal, gosta deles e os acolhe em Mandos em palácios separados; e que ele declarou a seus antigos Pais que Ilúvatar os abençoará e lhes dará um lugar entre os Filhos no Final. Então, seu papel será servir a Aulë e auxiliá-la na reconstrução de Arda depois da Última Batalha. Dizem também que os Sete Pais dos Anões voltam a viver em seus próprios parentes e a usar de novo seus nomes ancestrais: dos quais Durin foi o mais célebre em épocas posteriores, pai daquela família mais simpática aos elfos, cujas mansões ficavam em Khazaddûm.

Ora, quando estava trabalhando na criação dos anões, Aulë manteve sua obra oculta dos outros Valar; mas acabou revelando seu segredo a Yavanna e lhe contou tudo o que havia acontecido.

Disse-lhe então Yavanna: - Eru é misericordioso. Agora vejo que teu coração se alegra, como de fato pode; pois recebeste não só perdão, mas generosidade. Mas como escondeste essa idéia de mim até sua realização, teus filhos terão pouco amor pelas coisas que amo. Eles amarão acima de tudo o que fizerem com as próprias mãos, como seu pai. Escavarão a terra, e não darão atenção ao que cresce e vive sobre ela. Muitas árvores sentirão o golpe de seu machado impiedoso.

Aulë, contudo, respondeu: - Isso também valerá para os Filhos de Ilúvatar; pois eles irão comer e construir. E por mais que os seres de teu reino tenham valor, e continuassem tendo mesmo que nenhum Filho estivesse por vir, ainda assim Eru lhes dará primazia, e eles usarão tudo o que encontrarem em Arda; embora, pelo desígnio de Eru, não sem respeito ou gratidão.

- Não, se Melkor toldar seus corações – respondeu Yavanna. E não se tranqüilizou, mas sofreu no íntimo, temendo o que poderia ocorrer na Terra-média em dias futuros. Assim, ela se apresentou diante de Manwë e não revelou sua conversa com Aulë, mas disse: - Rei de Arda, é verdade, como Aulë me disse, que os Filhos, quando vierem, dominarão todo o fruto de meu trabalho, com o direito de fazer dele o que quiserem?

- É verdade – respondeu Manwë. - Mas por que perguntas, se não necessitas em nada dos ensinamentos de Aulë?

Calou-se então Yavanna, para examinar seus próprios pensamentos. E respondeu: - Porque meu coração está apreensivo, pensando nos dias que virão. Todas as minhas obras me são caras. Não basta que Melkor já tenha destruído tantas? Será que nada do que inventei ficará livre do domínio alheio?

- Pela tua vontade, o que preservarias? - perguntou Manwë.- De todo o teu reino, o que te é mais caro?

- Tudo tem seu valor, e cada um contribui para o valor dos outros. Mas os kelvar podem fugir ou se defender, ao passo que os olvar que crescem, não. E entre estes, prezo mais as árvores.

Embora de crescimento demorado, veloz é sua derrubada, e, a menos que paguem o imposto dos frutos nos galhos, pouca tristeza despertam quando morrem. É assim que vejo no meu pensamento. Quisera que as árvores falassem em defesa de todos os seres que têm raízes, e castigassem aqueles que lhes fizessem mal!

- Estranho esse seu pensamento – disse Manwë.

- E, no entanto ele estava na Música – disse Yavanna. - Pois, enquanto estavas nos céus e com Ulmo criavas as nuvens e derramavas as chuvas, eu erguia os galhos das grandes árvores para recebê-las, e algumas cantaram a Ilúvatar em meio ao vento e à chuva.

Calou-se então Manwë, e o pensamento de Yavanna, que ela havia instilado em seu coração, cresceu e se desenvolveu; e foi visto por Ilúvatar. Pareceu, então, a Manwë que a Música se erguia de novo a seu redor, e ele agora percebia nela muitas coisas, às quais, embora já as tivesse ouvido, não prestara atenção. E afinal a Visão reapareceu, mas não estava mais afastada, pois ele próprio se encontrava dentro dela; e, contudo via que tudo era sustentado pela mão de Ilúvatar; e a mão penetrava na Visão e dela surgiam muitas maravilhas que até então estavam ocultas a seus olhos, nos corações dos Ainur.

Despertou então Manwë, desceu até Yavanna na colina Ezellohar e sentou-se a seu lado, à sombra das Duas Árvores. E Manwë falou: - Ó, Kementári, Eru pronunciou-se e disse: “Será que algum Vala supõe que eu não tenha ouvido toda a Música? Mesmo o som mais ínfimo da voz mais fraca? Vejam!Quando os Filhos despertarem, o pensamento de Yavanna também despertará, e ele convocará espíritos de muito longe, que irão se misturar aos kelvar e aos olvar, e alguns ali residirão e serão reverenciados, e sua justa ira será temida. Por algum tempo: enquanto os Primogênitos estiverem no apogeu, e os Segundos forem jovens.” Não te lembras agora, Kementári, que teu pensamento cantava, nem sempre sozinho? Que teu pensamento e o meu tampouco se encontravam, de modo que nós dois alçávamos vôo juntos como grandes aves que sobem acima das nuvens? Isso também irá se passar pela intenção de Ilúvatar; e, antes que os Filhos despertem, as Águias dos Senhores do Oeste surgirão com asas como o vento”.

Alegrou-se então Yavanna, e ela se levantou, com os braços esticados para os céus, e disse: - Crescerão muito as árvores de Kementári para que as Águias do Rei possam habitar suas copas!

Manwë, entretanto, também ergueu-se; e ele parecia tão alto, que sua voz descia até Yavanna como se viesse dos caminhos dos ventos.

- Não, Yavanna, apenas as árvores de Aulë terão altura suficiente. As Águias habitarão as montanhas e ouvirão as vozes daqueles que clamam por nós. Mas nas florestas caminharão os Pastores das Árvores.

Manwë e Yavanna então se despediram, e Yavanna voltou a Aulë; e ele estava em sua oficina de ferreiro, derramando metal derretido numa forma. - Eru é generoso – disse ela – Mas teus filhos que se cuidem! Pois caminhará pelas florestas uma força, cuja ira eles despertarão por seu próprio risco.

- Mesmo assim, eles precisarão de madeira – disse Aulë, e continuou seu trabalho de ferreiro.


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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:19

CAPÍTULO III



Da chegada dos elfos e do cativeiro de Melkor Durante longas eras, os Valar viveram em bem-aventurança, à luz das Árvores por trás das Montanhas de Aman, mas toda a Terra-média jazia em penumbra, à luz das estrelas. Enquanto as Lamparinas brilhavam, ali tivera início um crescimento que agora estava interrompido porque tudo voltara à escuridão. No entanto, os seres vivos mais antigos já haviam surgido: nos mares, as grandes algas; na terra, a sombra de árvores imensas; e, nos vales dos montes, envoltos no manto da noite, havia criaturas sinistras, velhas e fortes. A essas terras e florestas, raramente vinham os Valar, à exceção de Yavanna e Oromë. E Yavanna costumava caminhar ali nas sombras, lamentando o desenvolvimento e a promessa da Primavera de Arda estarem suspensos. E ela lançou um sono sobre muitos seres que haviam surgido na Primavera, para que não envelhecessem, mas esperassem para despertar numa hora que ainda viria.

No norte, porém, Melkor aumentava suas forças e não dormia, mas vigiava e trabalhava. Os seres nefastos que ele havia pervertido andavam a solta, e os bosques escuros e sonolentos eram assombrados por monstros e formas pavorosas. E, em Útumno, reuniu ele ao seu redor seus demônios, aqueles espíritos que primeiro lhe haviam sido leais nos seus dias de esplendor e se tornado mais parecidos com ele em sua depravação Seus corações eram de fogo, mas eles se ocultavam nas trevas, e o terror ia à sua frente, com seus açoites de chamas. Balrogs foram eles chamados na Terra-média em tempos mais recentes. E, naquela época sombria, Melkor gerou muitos outros monstros de variados tipos e formas, que por muito tempo atormentaram o mundo. E seu reino cada vez mais se espalhava na direção sul, pela Terra-média.

E Melkor construiu também uma fortaleza e arsenal não muito distante do litoral noroeste, para resistir a qualquer ataque que viesse de Aman. Essa cidadela era comandada por Sauron, lugartenente de Melkor; e seu nome era Angband.

Ocorreu que os Valar se reuniram em conselho por estarem perturbados com as notícias que Yavanna e Oromë traziam das Terras de Fora; e Yavanna falou diante dos Valar:

- Poderosos de Arda, a Visão de Ilúvatar foi breve, e logo se dissipou, de modo que talvez não consigamos adivinhar, contando os dias, a hora exata. Contudo, estejam certos do seguinte – o momento se aproxima; e, dentro desta era, nossa esperança será revelada, e os Filhos despertarão. Deixaremos então desoladas e repletas de maldade as terras de sua morada? Será que eles caminharão nas trevas enquanto nós temos a luz? Eles chamarão Melkor de senhor enquanto Manwë tem seu trono na Taniquetil?

- Não! - exclamou Tulkas. - Vamos iniciar a guerra imediatamente! Já não repousamos demais da luta? Nossas forças não estão renovadas? Será que um ser sozinho rivalizará conosco para sempre?

No entanto, a pedido de Manwë, Mandos falou, dizendo: - Nesta era, os Filhos de Ilúvatar de fato virão, mas não neste momento. Além disso, está escrito que os Primogênitos chegarão nas trevas e contemplarão primeiro as estrelas. Grande luz está reservada para seu declínio. A Varda eles sempre irão recorrer em momentos de necessidade.

Afastou-se então Varda do conselho e olhou das alturas da Taniquetil, contemplando a escuridão da Terra-média, abaixo das inúmeras estrelas, pálidas e esparsas Começou ela nesse instante um enorme trabalho, a maior de todas as obras dos Valar desde sua chegada a Arda.

Apanhou os orvalhos de prata dos tonéis de Telperion e com eles fez estrelas novas e mais brilhantes para a chegada dos Primogênitos. Por isso, ela, cujo nome desde as profundezas do tempo e da construção de Eä era Tintallë, a Inflamadora, foi mais tarde chamada pelos elfos de Elentári, Rainha das Estrelas. Camil e Luinil, Nénar e Lumbar, Alcarinquë e Elemmírë ela criou naquela ocasião, e muitas outras das estrelas mais antigas ela reuniu e dispôs como sinais nos céus de Arda: Wilwarin, Telumendif, Soronúmë e Anarríma; e Menel-macar, com seu cinturão cintilante, prenúncio da Última Batalha, que ocorrerá no final dos tempos. E bem alto ao norte, como um desafio a Melkor, ela pôs a balançar a coroa de sete estrelas poderosas, Valacirca, a Foice dos Valar e sinal do destino.

Diz-se que, no momento em que Varda encerrou seus trabalhos, e eles foram demorados, quando Menelmacar foi subindo pelo céu, e a chama azul de Helluin cintilou nas névoas acima dos limites do mundo, nessa hora os Filhos da Terra despertaram, os Primogênitos de Ilúvatar.

Perto da lagoa de Cuiviénen, a Água do Despertar, iluminados pelas estrelas, eles acordaram do sono de Ilúvatar. E enquanto permaneciam, ainda em silêncio, junto a Cuiviénen, seus olhos contemplaram antes de mais nada as estrelas dos céus. Por isso, eles sempre amaram o brilho das estrelas, e reverenciam Varda Elentãri mais do que qualquer outro Vala.

Nas transformações do mundo, as formas das terras e dos mares foram destruídas e refeitas.

Rios não mantiveram seus cursos, e montanhas não permaneceram firmemente enraizadas; e não há como retomar a Cuiviénen. Diz-se, porém, entre os elfos que essa lagoa ficava a grande distância a leste da Terra-média, e ao norte; e que era uma baía no Mar Interior de Helcar; e esse mar estava onde anteriormente haviam estado os sopés da montanha de Illuin, antes que Melkor a derrubasse. Muita água fluía para ali das regiões montanhosas a leste, e o primeiro som ouvido pelos elfos foi o de água corrente, e o de água caindo na pedra.

Muito tempo viveram eles em seu primeiro lar junto à água, à luz das estrelas, e caminhavam pela Terra maravilhados. E começaram a criar a fala e a dar nomes a todas as coisas que percebiam. A si mesmos, chamaram quendi, querendo dizer adueles que falam com vozes. Pois até então não haviam conhecido nenhum outro ser vivo que falasse ou cantasse.

E uma vez aconteceu de Oromë cavalgar mais para o leste em sua caçada; e ele se voltou para o norte, às margens do Helcar, e passou à sombra das Orocami, as Montanhas do Leste. E então, de repente, Nahar começou a relinchar muito e estancou, imóvel. E Oromë se perguntou o que seria e ficou calado. Pareceu-lhe ouvir ao longe, no silêncio da terra sob as estrelas, o canto de muitas vozes.

Foi assim que os Valar encontraram afinal, como que por acaso, aqueles por quem há muito esperavam. E Oromë, ao contemplar os elfos, encheu-se de admiração, como se eles fossem seres inesperados, maravilhosos e imprevistos; pois assim sempre será com os Valar. De fora do Mundo, embora todas as coisas possam ser prenunciadas em música ou previstas em visões remotas, para aqueles que realmente entrem em Eä, uma coisa de cada vez os apanhará desprevenidos, como algo novo e inaudito.

No início, os Primogênitos de Ilúvatar eram mais fortes e imponentes do que se tornaram desde então, mas não eram mais belos; pois, embora a beleza dos quendi nos dias de juventude superasse qualquer outra que Ilúvatar tenha feito surgir, ela não pereceu, mas vive no oeste, e a tristeza e a sabedoria a enriqueceram. E Oromë amou os quendi e os chamou em sua própria língua de eldar, o povo das estrelas. Esse nome, entretanto, mais tarde só foi usado por aqueles que o seguiram na estrada para o oeste.

Contudo, muitos dos quendi se apavoraram com sua chegada. E isso era obra de Melkor. Pois, em retrospectiva, os sábios declaram que Melkor, sempre alerta, fora o primeiro a se dar conta do despertar dos quendi; e enviara sombras e espíritos malévolos para espioná-los e armar-lhes emboscadas. Ocorreu assim, alguns anos antes da chegada de Oromë, que, se qualquer elfo se perdesse longe de casa, sozinho ou em pequenos grupos, era freqüente que desaparecesse e nunca retornasse; e os quendi diziam que o Caçador o apanhara e sentiam medo. E, de fato, as mais antigas canções dos elfos – cujos ecos ainda são relembrados no oeste – falam de formas sombrias, que perambulavam nas colinas que se erguiam a partir de Cuiviénen, ou que passavam de repente encobrindo as estrelas, ou ainda do Cavaleiro sinistro montado em seu cavalo selvagem que perseguia os caminhantes para apanhá-los e devorá-los. Ora, Melkor sentia um ódio imenso de Oromë e temia seus passeios a cavalo, e ele, ou mandou realmente seus servos obscuros como cavaleiros, ou espalhou rumores mentirosos, com o objetivo de que os quendi evitassem Oromë, se algum dia o encontrassem.

Foi assim que, quando Nahar relinchou e Oromë de fato surgiu entre eles, alguns dos quendi se esconderam, e alguns fugiram e se perderam. Mas aqueles que tiveram coragem, e permaneceram, rapidamente perceberam que o Grande Cavaleiro não era nenhuma forma saída das trevas, pois a luz de Aman estava em seu semblante, e todos os mais nobres elfos se sentiram atraídos por ela.

Entretanto, pouco se sabe daqueles infelizes que caíram na armadilha de Melkor. Pois, quem, entre os seres vivos, desceu aos abismos de Utumno, ou percorreu as trevas dos pensamentos de Melkor? É, porém, considerado verdadeiro pelos sábios de Eressëa que todos aqueles quendi que caíram nas mãos de Melkor antes da destruição de Utumno foram lá aprisionados, e, por lentas artes de crueldade, corrompidos e escravizados; e assim Melkor gerou a horrenda raça dos ores, por inveja dos elfos e em imitação a eles, de quem eles mais tarde se tornaram os piores inimigos. Pois os orcs tinham vida e se multiplicavam da mesma forma que os Filhos de Ilúvatar; e nada que tivesse vida própria, nem aparência de vida, Melkor jamais poderia criar desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Início. Assim dizem os sábios. E, no fundo de seus corações negros, os orcs odiavam o Senhor a quem serviam por medo, criador apenas de sua desgraça. Esse pode ter sido o ato mais abjeto de Melkor, e o mais odioso aos olhos de Ilúvatar.

Oromë demorou-se um pouco entre os quendi, e então voltou veloz por terra e mar a Valinor, trazendo as notícias a Valmar; e falou das sombras que perturbavam Cuiviénen. Alegraram-se então os Valar, e, no entanto sentiam alguma dúvida em meio ao júbilo; e debateram muito qual seria a melhor decisão a tomar para proteger os quendi da sombra de Melkor. Oromë, porém, voltou de imediato a Terra-média para morar com os elfos.

Manwë refletiu muito em seu trono na Taniquetil e procurou o conselho de Ilúvatar. Descendo, então, a Valmar, convocou os Valar ao Círculo da Lei, e até mesmo Ulmo, do Mar de Fora, compareceu.

Disse então Manwë aos Valar: - Este é o conselho de Ilúvatar em meu coração: que devemos reconquistar o domínio de Arda, a qualquer custo, e liberar os quendi da ameaça de Melkor.

Com isso alegrou-se Tulkas; mas Aulë se entristeceu, prevendo os danos ao mundo que deveriam resultar desse combate. No entanto, os Valar se prepararam e partiram de Aman prontos para a guerra, resolvidos a atacar as fortalezas de Melkor e encerrar o assunto. Jamais Melkor se esqueceu de que essa guerra tivera início pelo bem dos elfos e de que eles haviam sido a causa de sua derrocada. Contudo, os elfos não tiveram nenhuma participação nesses atos, e têm pouquíssimo conhecimento sobre o ataque da força do oeste contra o norte, no início de seus dias.

Melkor enfrentou a investida dos Valar no noroeste da Terra-média, e toda a região sofreu grande destruição. Mas a primeira vitória dos exércitos do oeste foi rápida, e os servos de Melkor fugiram, perseguidos, até Utumno. Então, os Valar cruzaram a Terra-média, e montaram guarda para vigiar Cuiviénen; e daí em diante os quendi nada souberam da grande Batalha dos Poderes senão que a Terra tremia e gemia sob seus pés, e as águas mudavam de lugar; e ao norte havia clarões como os de enormes fogueiras. Longo e angustiante foi o cerco a Utumno, e muitas batalhas foram travadas diante de seus portões, das quais nada chegou aos ouvidos dos elfos, a não ser rumores. Nessa época, a forma da Terra-média foi alterada, e o Grande Mar que a separava de Aman se alargou e se aprofundou. Ele também avançou costa adentro e formou um golfo profundo mais ao sul. Muitas baías menores foram abertas entre o Grande Golfo e Helcaraxë no extremo norte, onde a Terra-média e Aman se aproximavam.

Dessas, a Baía de Balar era a principal; e nela desembocava o caudaloso rio Sirion, que descia das regiões elevadas recém-erguidas ao norte: Dorthonion e as montanhas ao redor de Hithlum.

As terras do extremo norte tornaram-se ainda mais desoladas nesse período; pois lá Utumno havia sido escavada a enorme profundidade, e seus subterrâneos estavam cheios de fogos e de grandes contingentes de servos de Melkor.

Finalmente, porém, os portões de Utumno foram arrombados, e seus salões, destelhados; e Melkor foi
refugiar-se no canto mais profundo. Tulkas apresentou-se então para defender os Valar. Lutou com ele e o imobilizou com o rosto no chão. E Melkor foi acorrentado com Angainor, a corrente que Aulë havia feito, e levado prisioneiro; e o mundo teve paz por uma longa era.

Não obstante, os Valar não descobriram todas as poderosas masmorras e cavernas, ocultas com astúcia muito abaixo das fortalezas de Angband e Utumno. Muitos seres malignos ainda ali permaneceram, e outros se dispersaram e fugiram para as trevas e perambularam pelos lugares desolados do mundo, à espera de hora mais nefasta. E Sauron não foi encontrado.

Porém, quando a Batalha terminou e das ruínas do Norte nuvens enormes se ergueram e esconderam as estrelas, os Valar conduziram Melkor até Valinor, com pés e mãos atados e vendas nos olhos. E ele foi levado ao Círculo da Lei. Ali prostrou-se aos pés de Manwë e implorou perdão; mas sua súplica foi negada, e ele foi levado à prisão na fortaleza de Mandos, de onde ninguém consegue escapar, nem Vala, nem elfo, nem homem mortal. Vastas e fortes são essas construções, e elas foram erguidas a oeste da terra de Aman. Lá Melkor foi condenado a permanecer ao longo de três eras, antes que sua causa voltasse a ser julgada e ele pudesse mais uma vez implorar perdão.

Reuniram-se então novamente os Valar em conselho, e se dividiram no debate. Pois alguns, e desses Ulmo era o principal, sustentavam que os quendi deveriam ter a liberdade de perambular à vontade pela Terra-média e, com sua habilidade, ordenar todas as terras e curar seus estragos.

Já a maioria temia pelos quendi no mundo perigoso, em meio às ciladas da penumbra iluminada pelas estrelas; e, além disso, estavam tomados de amor pela beleza dos elfos e desejavam sua companhia. Ao final, portanto, os Valar convocaram os quendi a vir a Valinor, para ali se reunirem aos pés dos Poderes à luz das Árvores, para sempre; e Mandos rompeu seu silêncio dizendo – E assim está determinado – Dessa convocação, decorreram muitas desgraças.

Mas os elfos de início não estavam dispostos a dar ouvidos à convocação, pois até então somente haviam visto os Valar encolerizados em guerra, à exceção apenas de Oromë; e estavam dominados pelo pavor. Oromë foi, portanto, enviado novamente até eles e esacolheu entre eles embaixadores que se dispusesem a vir a Valinor falar em nome; de seu povo; e esses foram Ingwë, Finwë e Elwë, que mais tarde se tornaram reis. E, quando 1á chegaram eles se espantaram com a glória e a imponência dos Valar, e sentiram enorme desejo pela luz e pelo esplendor das Árvores. E então Oromë os levou de volta a Cuiviénen, e eles falaram a seu povo aconselhando-os a obedecer à convocação dos Valar e a se transferir para o oeste.

Foi então que ocorreu a primeira cisão dos elfos. Pois os familiares de Ingwë, e a maior parte dos familiares de Finwë e Elwë, foram influenciados pelas palavras de seus senhores e se dispuseram a partir e acompanhar Oromë. E esses ficaram co-nhecidos para sempre como os eldar, nome que Oromë deu aos elfos no ofício em sua própria língua. Muitos, porém, desrespeitaram a convocação, preferindo a luz das estrelas e a amplidão da Terra-média ao rumor das Árvores, e esses são os avari, Os Relutantes; e nessa época eles se separaram dos eldar e só voltaram a se encontrar passadas muitas eras.

Os eldar prepararam então uma enorme marcha partindo de sua primeira morada no leste, e se organizaram em três grandes grupos. O menor e primeiro a iniciar viagem era liderado por Ingwë, o senhor supremo de todos os elfos. Ele entrou em Valinor e está sentado aos pés dos Poderes, e todos os elfos reverenciam seu nome. Jamais, porém retornou nem voltou a lançar seu olhar sobre a Terra-média. Os vanyar eram seu povo. São os belos-elfos, amados por Manwë e Varda, e entre os homens poucos falaram com eles Em seguida, vinham os noldor, um nome de sabedoria, o povo de Finwë. São os elfosprofundos, amigos de Aulë; e eles são celebrados em música por terem lutado e trabalhado penosamente e por muito tempo nas antigas terras do norte.

O grupo maior vinha no final, e eles são chamados de teleri, pois se demoraram no caminho e não estavam totalmente decididos a passar da penumbra para a luz de Valinor. Demonstravam enorme encantamento pela água, e aqueles que chegaram finalmente ao litoral do oeste ficaram apaixonados pelo mar. Passaram a ser, na terra de Aman, os elfos-do-mar, os falmari, pois criavam música ao lado das ondas da arrebentação. Dois senhores tinham eles, pois eram muito numerosos: Elwë Singollo (que significa manto-cinzento) e Olwë, seu irmão.

Foram esses os três clãs de eldalië, que, tendo passado para o extremo oeste na época das Árvores, são chamados de calaquendi, elfos-da-luz. Mas houve outros eldar que de fato partiram na marcha para o Oeste, mas se perderam no longo trajeto, se desviaram, ou ainda permaneceram nas costas da Terra-média, e esses eram em sua maioria do clã dos teleri, como será relatado a partir daqui. Eles moravam à beira-mar, ou perambulavam pelos bosques e montanhas do mundo, mas seus corações estavam sempre voltados para o oeste. A esses elfos os calaquendi chamam de úmanyar, já que nunca chegaram à terra de Aman e ao Reino Abençoado; mas também os úmanyar e os avari eles chamam de moriquendi, elfos-das-trevas, pois jamais contemplaram a Luz que existia antes do Sol e da Lua.

Diz-se que, quando as hostes de eldalië partiram de Cuiviénen, Oromë cavalgou à frente montado em Nahar, seu cavalo branco de ferraduras de ouro; e, passando na direção norte pelas margens do Mar de Helcar, elas
se voltaram para o oeste. Diante delas, nuvens imensas pairavam ainda negras no Norte, acima das ruínas da guerra, e as estrelas naquela região estavam ocultas. Nessa hora, não poucos sentiram medo e se arrependeram, e deram meia-volta e foram esquecidos.

Longa e vagarosa foi à marcha dos eldar para o oeste, pois as léguas da Terra-média eram incontáveis, fatigantes e inexploradas. Nem desejavam os elfos apressar-se, pois estavam maravilhados com tudo o que viam, e sentiram vontade de morar próximo a muitas terras e rios; e, embora todos ainda estivessem dispostos a caminhar, muitos antes temiam o fim da viagem do que ansiavam por ele. Assim, sempre que Oromë se afastava, tendo às vezes outras questões às quais dar atenção, eles paravam e não avançavam até que ele retomasse para guiálos.

E aconteceu, depois de muitos anos viajando dessa forma, que os eldar seguiram por uma floresta e chegaram a um rio enorme, mais largo do que qualquer outro que já tivessem visto; e do outro lado do rio havia montanhas cujos picos pontiagudos pareciam perfurar o reino das estrelas. Diz-se que esse rio era exatamente aquele que mais tarde foi chamado de Anduin, o Grande, e sempre foi à fronteira da região ocidental da Terra-média. Já as montanhas eram as Hithaeglir, as Torres de Névoa nas fronteiras de Eriador. Eram, entretanto, mais altas e mais terríveis naquela época e haviam sido erguidas por Melkor para impedir à cavalgada de Oromë.

Ora, os teleri por muito tempo habitaram a margem oriental daquele rio, com o desejo de ali permanecer, mas os vanyar e os noldor o atravessaram, e Oromë os conduziu pelas passagens nas montanhas. E, quando Oromë já estava mais adiante, os teleri contemplaram os montes sombrios e sentiram medo.

Ergueu-se então alguém do clã de Olwë, que sempre ficava mais para trás no caminho. Lenwë era seu nome. Ele renegou a marcha para o Oeste e levou consigo um grupo numeroso, na direção sul, descendo pelo grande rio, e esses desapareceram do conhecimento de seus parentes, só retomando depois de muitos anos. Eram os Nandor; e se tornaram um povo isolado, diferente dos familiares, a não ser por amar a água e quase sempre habitar as proximidades de cachoeiras e cursos d’água. Sabiam mais sobre seres vivos, árvores e plantas, aves e bichos, do que quaisquer outros elfos. Em anos posteriores, Denethor, filho de Lenwë, voltou-se afinal para o oeste, e conduziu parte daquele povo através das montanhas para entrar em Beleriand antes do surgimento da Lua.

Afinal, os vanyar e os noldor transpuseram as Ered Luin, as Montanhas Azuis, entre Eriador e a região do extremo oeste da Terra-média, que os elfos mais tarde chamariam de Beleriand; e as companhias de vanguarda atravessaram o Vale do Sirion e desceram pelas costas do Grande Mar, entre Drengist e a Baía de Balar. Quando o viram, porém, um medo imenso abateu-se sobre eles, e muitos se afastaram, embrenhando-se nas matas e montes de Beleriand. Oromë, então, partiu de volta a Valinor em busca dos conselhos de Manwë, e os deixou.

E as hostes de teleri atravessaram as Montanhas Nevoentas e cruzaram as amplas terras de Eriador, sempre com o incentivo de Elwë Singóllo, pois ele ansiava por voltar a Valinor e à Luz que havia visto. E não desejava ser afastado dos noldor, pois tinha grande amizade por Finwë, seu senhor. Assim, depois de muitos anos, os teleri afinal também passaram pelas Ered Luin, entrando nas regiões mais orientais de Beleriand. Ali pararam, ficando algum tempo do outro lado do Rio Gelion.


Última edição por Manwë Súlimo em Ter Jun 29 2010, 11:12, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:23

CAPÍTULO IV
De Thingol e Melian


Melian era uma Maia, da raça dos Valar. Vivia nos jardins de Lórien, e entre todos os de seu povo não havia ninguém mais bela do que Melian, nem mais sábia, nem mais hábil em canções de encantamento Diz-se que os Valar costumavam abandonar seu trabalho, e as aves de Valinor, sua alegria, que os sinos de Valmar se calavam, e as fontes paravam de jorrar quando na hora da mistura das luzes Melian cantava em Lórien. Os rouxinóis sempre a acompanhavam, e ela lhes ensinou seu canto; e adorava as sombras profundas das grandes árvores. Antes que o Mundo fosse feito, era aparentada da própria Yavanna; e na época em que os quendi despertaram ao lado das águas de Cuiviénen, ela partiu de Valinor e veio até as Terras de Cá: e aí preencheu o silêncio da Terra-média antes do amanhecer com sua voz e as vozes de seus pássaros.

Ora, quando sua viagem estava próxima do final, como já se relatou, o povo dos teleri permaneceu muito tempo no leste de Beleriand, do outro lado do Rio Gelion; e, naquela época, muitos dos noldor ainda estavam mais à oeste, nas florestas que mais tarde foram chamadas de Neldoreth e Region Elwë, senhor dos teleri, muitas vezes atravessava os grandes bosques à procura de Finwë, seu amigo, nas moradas dos noldor. E ocorreu que certa vez ele chegou sozinho ao bosque de Nan Elmoth, iluminado pelas estrelas, e ali de repente ouviu o canto de rouxinóis. Caiu então sobre ele um encantamento, que o deixou imobilizado. E muito ao longe, para além das vazes dos lómelindi, ele ouviu a voz de Melian; e ela encheu seu coração de maravilha e de desejo. Esqueceu-se Elwë, então, inteiramente de seu povo e dos objetivos de sua mente; e, acompanhando os pássa-ros à sombra das árvores, embrenhou-se por Nan Elmoth adentro e se perdeu. Finalmente, porém, chegou a uma clareira aberta para as estrelas, e ali estava Melian. E, do meio da escuridão, ele a contemplou; e a luz de Aman estava em seu rosto.

Melian não disse uma palavra; mas, dominado pelo amor, Elwë aproximou-se e segurou sua mão. Imediatamente um encantamento caiu sobre ele, de tal modo que os dois ficaram na mesma posição enquanto longos anos eram contados pelas estrelas que giravam acima de suas cabeças; e as árvores de Nan Elmoth cresceram e se tornaram escuras antes que eles dissessem alguma palavra.

Assim, o povo de Elwë que o procurava não o encontrou, e Olwë assumiu o trono dos teleri e partiu, como é relatado daqui em diante. Enquanto viveu, Elwë Singollo nunca mais atravessou o mar para chegar a Valinor, e Melian não voltou para lá enquanto perdurou o reinado de ambos. A partir de Melian, porém, surgiu entre elfos e homens uma linhagem dos Ainur que estavam com Ilúvatar antes de Eä. Em tempos posteriores, Elwë tomou-se um rei célebre, e seu povo compreendia todos os eldar de Beleriand; os sindar eram chamados eltos-cinzentos, elfosdo- crepúsculo, e o Rei Manto-cinzento era ele, Elu Thingol na língua daquela terra. E Melian era sua Rainha, mais sábia do que qualquer filho da Terra-média; e suas moradas ocultas eram em Menegroth, as Mil Cavernas, em Doriath. Grande poder Melian concedeu a Thingol, que era ele próprio grande entre os eldar; pois somente ele entre todos os sindar havia visto com os próprios olhos as Árvores no dia em que floresceram; e, embora fosse rei dos úmanyar, não era incluído entre os moriquendi, mas entre os elfos-da-luz, poderosos na Terra-média E, do amor de Thingol e Melian, vieram ao mundo os mais belos Filhos de Ilúvatar que já existiram ou virão a existir.
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:25

CAPÍTULO V
De Eldamar e dos príncipes dos eldalië



Com o tempo, as hostes de vanyar e de noldor chegaram ao ponto extremo oeste das praias das Terras de Cá. Ao norte, esse litoral, nos tempos antigos posteriores à Batalha dos Poderes, fazia uma curva para o oeste, até que, na região do extremo norte de Arda, somente um mar estreito dividia Aman, onde Valinor havia sido construída, das Terras de Cá; mas esse mar estreito era cheio de um gelo que atritava pela violência do congelamento de Melkor. Por esse motivo, Oromë não conduziu as multidões dos eldalië para o extremo norte, mas as trouxe para as belas terras próximas ao Rio Sirion, que mais tarde receberam o nome de Beleriand; e dessas praias, de onde pela primeira vez os eldar, com medo e admiração, contemplaram o Mar, estendia-se um oceano, largo, escuro e profundo, entre elas e as Montanhas de Aman.

Ora, Ulmo, de acordo com a decisão dos Valar, chegou ao litoral da Terra-média e falou com os eldar que ali esperavam, com os olhos fixos nas ondas escuras; e, graças às suas palavras e à música que criou para eles com suas trompas de concha, seu medo do mar foi transformado em desejo. E, por esse motivo, Ulmo arrancou uma ilha que há muito estava isolada no meio do mar, distante dos dois litorais, desde a época das turbulências da queda de Illuin; e, com o auxílio de seus servos, ele a moveu, como se fosse uma embarcação imponente, e a ancorou na Baía de Balar, na qual o Sirion desaguava E então os vanyar e os noldor embarcaram nessa ilha e foram arrastados oceano afora, chegando afinal às longas praias aos pés das Montanhas de Aman; entraram em Valinor e foram acolhidos em sua bem-aventurança. No entanto, o cabo oriental da ilha, que estava profundamente enraizado nos baixios ao largo das Fozes do Sirion, separou-se e ficou para trás; e diz-se que ele se tornou a Ilha de Balar, à qual posteriormente Ossë costumava vir.

Já os teleri estavam ainda na Terra-média, pois habitavam o leste de Beleriand, longe do mar, e só ouviram o chamado de Ulmo quando já era tarde demais. Muitos continuavam a procurar por Elwë, seu senhor, pois sem ele não se dispunham a seguir viagem. Entretanto, quando souberam que Ingwë, Finwë e seus povos haviam partido, muitos dos teleri se apressaram a chegar ao litoral de Beleriand e ali ficaram, daí em diante, próximos às Fozes do Sirion, saudosos dos amigos que haviam partido. E escolheram Olwë, irmão de Elwë, para ser seu rei.

Muito tempo ficaram eles nas costas do mar ocidental, e Ossë e Uinen vinham a eles e os tratavam com amizade. E Ossë os instruía, sentado numa rocha perto da praia; e com ele eles aprenderam todos os tipos de histórias e de canções do mar. Foi assim que os teleri, que desde o início amavam a água e eram os melhores cantares de todos os elfos, mais tarde se apaixonaram pelos mares, e suas canções eram cheias dos sons das ondas batendo na praia.
Passados muitos anos, Ulmo deu ouvidos às súplicas dos noldor e de Finwë, seu rei, que se lamentavam pela longa separação dos teleri e lhe imploravam que os trouxesse a Aman, se eles quisessem vir. E a maioria deles revelou então estar realmente disposta a partir; mas foi enorme a dor de Ossë quando Ulmo voltou às costas de Beleriand para levá-los embora para Valinor.

Pois se interessava pelos litorais da Terra-média e pelas costas das Terras de Cá, e ele ficou descontente porque as vozes dos teleri não seriam mais ouvidas em seu território. Alguns ele convenceu a ficar; e esses foram os falathrim, os elfos-das-falas que em tempos posteriores habitaram os portos de Brithombar e Eglarest, os primeiros marinheiros da Terra-média e os primeiros a fabricar embarcações. Círdan, o Armador, era seu senhor Os parentes e amigos de Elwë Singollo também permaneceram nas Terras de Cá, ainda a procura-lo, embora tivessem preferido partir para Valinor e a Luz das Árvores, se Ulmo e Olwë estivessem dispostos a esperar. Olwë, porém, queria ir embora e afinal a grande maioria grande maioria dos teleri embarcou na ilha, e Ulmo os levou. Nessa ocasião, ficaram para trás os amigos de Elwë; e eles se denominaram o povo abandonado. Habitavarn os bosques e as colinas de Belriand, em vez de morar junto ao mar, que os enchia de tristeza; mas o desejo de chegar a Aman permanecia em seus corações.

Mas quando despertou de seu longo sono, Elwë saiu de Nan Elmoth com Melian, e os dois dali em diante habitaram os bosques no centro do território. Por maior que fosse seu desejo de ver mais uma vez a luz das Árvores, Elwë enxergava no rosto de Melian a luz de Aman como num espelho sem mácula, e com aquela luz se contentava. Seu povo reuniu-se ao seu redor em júbilo, cheio de admiração; pois se ele havia sido belo e majestoso, agora parecia um senhor Maia, o cabelo como prata acinzentada, mais alto do que todos os Filhos de Ilúvatar; e o aguardava um destino majestoso.

Ora, Ossë acompanhou as hostes de Olwë e, quando chegaram à Baía de Eldamar (que é Casadelfos), ele as chamou. Todos reconheceram sua voz e imploraram a Ulmo que suspendesse a viagem. E Ulmo concedeu-lhes esse pedido, e em obediência a ele Ossë fixou a ilha e a prendeu ao fundo do mar. Ulmo concordou com isso prontamente, pois compreendia os corações dos teleri e no conselho dos Valar havia falado contra a convocação, por acreditar ser melhor que os quendi permanecessem na Terra-média.Os Valar não gostaram muito de saber o que ele havia feito: e Finwë se entristeceu quando os telèri não chegaram, ainda mais quando soube que Elwë fora abandonado e que não o veria novamente a não ser nos palácios de Mandos. No entanto, a ilha não voltou a ser movida e ficou ali parada, sozinha, na Baía de Eldamar; e foi chamada de Tol Eressëa, a Ilha Solitária. Ali os teleri permaneceram como queriam, sob as estrelas dos céus, mas podendo ver Aman e a costa imortal. E, desse longo isolamento na Ilha Solitária, resultou que seu idioma se afastou daquele dos vanyar e dos noldor.

A esses, os Valar haviam proporcionado uma terra e um local de moradia. Mesmo em meio às flores radiantes dos jardins iluminados pelas Árvores de Valinor, eles às vezes ainda sentiam falta das estrelas. E assim foi feita uma fenda nas grandes muralhas das Pelóri, e ali, num vale profundo que corria até o mar, os eldar ergueram uma colina alta e verdejante. Túna, chamavase ela. Do ocidente, a luz das Árvores a iluminava; e sua sombra sempre era projetada para o leste. E, para o leste, ela dava para a Baía de Casadelfos, para a Ilha Solitária e para os Mares Sombrios. E então, através da Calacirya, a Passagem da Luz, jorrava o esplendor do Reino Abençoado, aquecendo as ondas escuras com tons de prata e ouro e tocando a Ilha Solitária, o que tomou sua costa oeste verde e bela. Ali surgiram as primeiras flores que existiram a leste das Montanhas de Aman.

No topo de Túna, foram construídos a cidade dos elfos, as brancas muralhas e os terraços de Tirion; e a mais alta das turres dessa cidade era a Torre de Ingwë, Mindon Eldaliéva, cuja lamparina de prata brilhava longe, em meio às névoas do mar. Poucos foram os navios de homens mortais que viram seu facho estreito. Em Tirion, no alto de Túna, os vanyar e os noldor viveram muito tempo como companheiros. E como, de tudo o que havia em Valinor, o que eles mais amassem era a Árvore Branca, Yavanna fez para eles uma árvore semelhante a uma imagem menor de Telperion, com a diferença de que ela não emitia luz de seu próprio ser; Galathilion, foi ela chamada no idioma sindarin. Essa árvore foi plantada nos pátios abaixo da Mindon e ali floresceu; e suas mudas eram muitas em Eldamar. Dessas, uma foi mais tarde plantada em Tol Eressëa e ali vicejou, sendo chamada de Celeborn. Depois, com o transcorrer do tempo, como está relatado em outro trecho, surgiu Nimloth, a Árvore Branca de Númenor.

Manwë e Varda gostavam mais dos vanyar, os belos-elfos; mas os noldor tinham a preferência de Aulë, e ele e seu povo costumavam andar entre eles. Enormes tornaram-se seu conhecimento e sua habilidade. Entretanto, ainda maior era sua sede de conhecimento; e, sob muitos aspectos, logo ultrapassaram seus mestres. Eram criativos na fala, pois tinham um amor imenso pelas palavras e sempre procuravam descobrir nomes mais adequados para todas as coisas que conheciam ou imaginavam. E aconteceu que os pedreiros da casa de Finwë, trabalhando nas montanhas em busca de pedra (pois adoravam construir altas torres), descobriram pela primeira vez as pedras preciosas e as apresentaram em miríades incontáveis.

E inventaram ferramentas para cortar e lapidar as pedras, esculpindo-as em muitas formas. Eles não as guardavam como tesouros, mas as davam livremente e, com seu trabalho, enriqueceram toda Valinor.

Mais tarde, os noldor voltaram a Terra-média, e este relato fala principalmente de seus feitos.

Por isso, os nomes: e o parentesco dos príncipes podem ser aqui descritos na forma que esses nomes assumiram no idioma dos elfos de Beleriànd.

Finwë era Rei dos noldor Os filhos de Finwë eram Fëanor, e Fingolfin e Finarfin. Mas a mãe de Fëanor era Míriel Serindë, enquanto a mãe de Fingolfin e Finarfin era Indis dos vanyar.

Fëanor era o mais hábil tanto na palavra quanto no trabalho manual. Era mais instruído que seus irmãos. Seu espírito ardia como uma chama. Fingolfin era o mais forte, o mais firme e o mais valente. Finarfin era o mais belo e o de coração mais prudente. E, mais tarde, ele foi amigo dos filhos de Olwë, senhor dos teleri, e se casou com Eärwen, a donzela-cisne de Alqualondë, filha de Olwë.

Os sete filhos de Fëanor eram Maedhros, o alto; Maglor, o cantor maravilhoso, cuja voz podia ser ouvida ao longe, fosse na terra, fosse no mar; Celegorm, o louro, e Caranthir, o moreno; Curufin, o habilidoso, que herdou grande parte do talento do pai para os trabalhos manuais; e os mais novos, Amrod e Amras, que eram gêmeos, semelhantes de rosto e de temperamento.

Em épocas posteriores, foram grandes caçadores nos bosques da Terra-média; e caçador foi também Celegorm, que em Valinor era amigo de Oromë e muitas vezes acompanhava o chamado do Vala.

Os filhos de Fingolfin eram Fingon, que mais tarde foi Rei dos noldor no norte do mundo, e Turgon, senhor de Gondolin.

Sua irmã era Aredhel, a Branca. Ela era mais jovem nos anos dos eldar do que seus irmãos; e, quando atingiu sua plena estatura e beleza, era alta e forte e adorava cavalgar e caçar nas florestas. Ali, esteve muitas vezes na companhia dos filhos de Fëanor, seus parentes; mas a ninguém entregou seu coração. Ar-Feiniel, era ela chamada, a Dama Branca dos Noldor, pois era clara, embora seus cabelos fossem escuros, e nunca se trajava de outra forma a não ser de branco e prata.

Os filhos de Finarfin eram Finrod, o Fiel (que mais tarde foi chamado de Felagund, Senhor das Cavernas), Orodreth, Angrod e Aegnor, Esses quatro eram tão amigos dos filhos de Fingolfin como se fossem irmãos. Uma irmã tinham eles, Galadriel, a mais bela de todos os da Casa de Finwë. Seu cabelo tinha reflexos de ouro como se tivesse captado numa rede o esplendor de Laurelin.

Aqui é preciso que se diga como os teleri chegaram afinal à terra de Aman. Durante um longo período, eles permaneceram em Tol Eressëa; mas aos poucos seus corações foram mudando, sendo atraídos pela luz que se espalhava pelo mar até a Ilha Solitária. Estavam num dilema entre o amor pela música das ondas sobre as praias e o desejo de voltar a ver seus familiares e contemplar o esplendor de Valinor; mas, no final, o desejo de luz foi mais forte. Assim, submetendo-se ao desejo dos Valar, Ulmo enviou-lhes Ossë, seu amigo, e ele, embora triste, lhes ensinou a arte da fabricação de barcos. E, quando seus barcos estavam prontos, ele lhes trouxe como presente de despedida muitos cisnes de asas fortes. Os cisnes, então, puxaram os alvos barcos dos teleri pelo mar calmo; e assim, finalmente e por último, chegaram eles a Aman e às costas de Eldamar.

Ali ficaram. E, se quisessem, podiam ver a luz das Árvores e caminhar pelas ruas douradas de Valmar e pelas escadas de cristal de Tirion sobre Túna, a colina verde; mas principalmente velejavam em seus barcos velozes nas águas da Baía de Casadelfos, ou andavam junto às ondas na praia, com o cabelo cintilando à luz que vinha do outro lado da colina. Muitas pedras preciosas deram-lhes os noldor: opalas, diamantes e cristais claros, que eles espalharam pelas praias e pelos lagos. Maravilhosas eram as praias de Elendë naquela época. E muitas pérolas eles ganharam por si mesmos do mar; e seus palácios eram de pérolas, e de pérolas eram as mansões de Olwë em Alqualondë, o Porto dos Cisnes, iluminado por muitas lamparinas. Pois aquela era sua cidade, e o porto de seus barcos; e estes eram feitos na forma de cisnes, com bicos de ouro e olhos de ouro e azeviche. A entrada para aquele porto era um arco de rocha viva esculpida pelo mar; e ela ficava nos limites de Eldamar, ao norte da Calacirya, onde a luz das estrelas era forte e clara.

Com a passagem das eras, os vanyar começaram a amar a terra dos Valar e a luz plena das Árvores; abandonaram a cidade de Tirion sobre Túna e a partir daí passaram a morar na montanha de Manwë ou nas planícies e bosques de Valinor, afastando-se dos noldor. Mas a lembrança da Terra-média à luz das estrelas permanecia nos corações dos noldor, e eles ficaram na Calacirya e nas colinas e nos vales ao alcance do som do mar ocidental. E, embora muitos deles costumassem passear pela terra dos Valar, fazendo longas viagens em busca dos segredos da terra, da água e de todos os seres vivos, ainda assim os povos de Túna e de Alqualondë se aproximaram naquela época. Finwë era rei em Tirion, e Olwë, em Alqualondë; mas Ingwë sempre foi considerado o Rei Supremo de todos os elfos. A partir daí, ele viveu aos pés de Manwë na Taniquetil.

Fëanor e seus filhos raramente moravam num único lugar por muito tempo, mas viajavam com liberdade, dentro dos limites de Valinor, chegando mesmo às fronteiras das Trevas e às margens frias do Mar de Fora, em busca do desconhecido. Costumavam hospedar-se no palácio de Aulë; mas Celegorm preferia ir para a casa de Oromë, e ali adquiriu grande conhecimento sobre aves e outros animais e aprendeu todas as suas línguas. Pois todos os seres vivos que existem ou existiram no Reino de Arda, à exceção das criaturas perversas e cruéis de Melkor, viviam então na terra de Aman; e ali havia também muitas outras criaturas que não foram vistas na Terra-média, e talvez nunca voltem a sê-la, já que a configuração do mundo mudou.


Última edição por Manwë Súlimo em Ter Jun 29 2010, 11:13, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:29

CAPÍTULO VI
De Fëanor e da libertação de Melkor

Agora as Três Famílias dos eldar estavam finalmente reunidas em Valinor, e Melkor estava acorrentado. Esse foi o Apogeu do Reino Abençoado, a plenitude de sua glória e bemaventurança, longo na contagem dos anos, mas muito breve na memória. Naquele tempo, os eldar atingiram a maturidade de corpo e mente; e os noldor progrediram sempre em conhecimentos e habilidades; e os longos anos foram preenchidos com seus trabalhos prazerosos, nos quais inventaram muitas coisas belas e maravilhosas. Aconteceu então que os noldor foram os primeiros a quem ocorreu a idéia das letras, e Rúmil de Tirion foi o nome do estudioso que conseguiu adequar sinais ao registro da fala e da música, alguns para serem gravados em metal ou em pedra, outros para serem desenhados com pincel ou pena.

Naquela época, nasceu em Eldamar, na Casa do Rei em Tirion, no cume de Túna, o filho mais velho de Finwë, e o mais amado. Curunfinwë era seu nome, mas por sua mãe ele foi chamado de Fëanor, Espírito de Fogo; e assim é lembrado em todas as histórias dos noldor.

Míriel era o nome da sua mãe, que era chamada Serindë, por sua extraordinária competência no tear e no bordado; pois suas mãos eram mais adequadas à delicadeza do que quaisquer outras entre os noldor. O amor de Finwë e Míriel era imenso e cheio de alegria, pois começara no Reino Abençoado nos Dias de Bem-aventurança. Entretanto, ao dar à luz seu filho, Míriel foi consumida em corpo e em espírito; e, depois do nascimento da criança, ela ansiava por se livrar do esforço de viver E, quando deu nome ao filho, disse ela a Finwë - Nunca mais terei filhos; pois as forças que teriam nutrido a vida de muitos foram todas para Fëanor.

Finwë entristeceu-se, então, pois os noldor eram jovens, e ele desejava trazer muitos filhos à bem-aventurança de Aman. Disse ele: - Sem dúvida, existe cura em Aman. Aqui toda a exaustão pode encontrar alívio. - Porém, como Míriel continuasse definhando, Finwë procurou aconselhar-se com Manwë, e Manwë a entregou aos cuidados de Irmo, em Lórien. Em sua despedida (por um curto período, pensava ele), Finwë estava tnste, porque parecia uma infelicidade que a mãe se afastasse e perdesse no, mínimo o início da infância do filho.

- É mesmo uma infelicidade – disse Míriel -, e eu choraria, se não estivesse tão exausta. Mas não me culpe por isso, nem por nada que possa acontecer.

Ela foi então para os jardins de Lórien, onde se deitou para dormir. No entanto, embora parecesse estar dormindo, seu espírito de fato abandonou o corpo e passou em silêncio para os palácios de Mandos. As criadas de Estë cuidavam do corpo de Míriel, e ele manteve seu viço, mas ela não voltou. Finwë vivia, portanto, desolado. Ia com freqüência aos jardins de Lórien e, sentado à sombra dos salgueiros prateados ao lado do corpo da esposa, ele a chamava por seus nomes. Mas sem nenhum resultado. E somente ele em todo o Reino Abençoado era privado de alegria. Depois de algum tempo, ele deixou de ir a Lórien.

A partir daí, todo o seu amor ele dedicava ao filho. E Fëanor crescia rapidamente, como se houvesse dentro dele um fogo secreto aceso. Era alto, belo de rosto e dominador; seus olhos tinham um brilho penetrante, e seus cabelos eram negros e lustrosos. Para atingir seus objetivos, era ávido e obstinado. Poucos chegaram a conseguir mudar sua atitude por meio de conselhos, ninguém pela força. De todos os noldor, daquela época ou de épocas posteriores, tomou-se ele o de raciocínio mais sutil e de mãos mais habilidosas. Na juventude, aperfeiçoando a obra de Rúmil, Fëanor criou as letras que levam seu nome, e que os eldar usam desde então; e foi ele o primeiro dos noldor a descobrir como fazer, com técnica, pedras preciosas maiores e mais brilhantes do que as da Terra. As primeiras pedras que Fëanor criou eram brancas e sem cor, mas, quando expostas à luz das estrelas, brilhavam com raios azuis e prateados mais luminosos do que Helluin. E outros cristais ele também fez, com os quais era possível enxergar coisas distantes, em tamanho pequeno mas com nitidez, como se fosse com os olhos das águias de Manwë. Raramente descansavam as mãos e a mente de Fëanor.

Enquanto ainda era muito jovem, Fëanor desposou Nerdanel, a filha de um grande ferreiro chamado Mahtan, que entre os noldor era o mais querido de Aulë. E, com Mahtan, Fëanor muito aprendeu sobre a criação de objetos de metal e de pedra. Nerdanel também tinha firmeza e determinação, mas era mais paciente do que Fëanor, procurando compreender as mentes, em vez de domina-las; e a princípio ela o refreava quando o temperamento do marido se incendiava. Mas os atos posteriores do marido a entristeceram; e os dois se desentenderam.

Sete filhos deu ela a Fëanor. Sua disposição ela transmitiu em parte a alguns deles, mas não a todos.

Ora, ocorreu que Finwë tomou como segunda esposa Indis, a Loura. Era ela uma vanya, parente próxima de Ingwë, o Rei Supremo, alta e de cabelos dourados, e sob todos os aspectos diferente de Míriel. Finwë muito a amou e voltou a se alegrar. Porém, a lembrança de Míriel não abandonou a casa de Finwë, nem seu coração; e, de todos os que ele amava, Fëanor ocupava a maior parte de seu pensamento.

O casamento do pai não agradou a Fëanor; e ele não sentia grande amor nem por Indis, nem por Fingolfin e Finarfin, os filhos dela. Fëanor vivia separado deles, em viagens de exploração pela terra de Aman ou ocupando-se com o conhecimento e os ofícios que adorava. Nos tristes acontecimentos que mais tarde vieram a ocorrer, e nos quais Fëanor assumiu a posição de líder, muitos perceberam o resultado dessa cisão dentro da Casa de Finwë, considerando que, se Finwë tivesse suportado sua perda e se contentado em ser pai de seu poderoso filho, os caminhos de Fëanor teriam sido diferentes, e um grande mal poderia ter sido evitado. Pois a dor e a discórdia na Casa de Finwë estão gravadas na memória dos elfos noldorin. Contudo, os filhos de Indis foram notáveis e gloriosos, bem como os filhos deles; e, se eles não tivessem nascido, a história dos eldar teria empobrecido.

Ora, mesmo enquanto Fëanor e os artífices dos noldor trabalhavam com prazer, sem prever nenhum fim para suas atividades, e enquanto os filhos de Indis atingiam sua plena maturidade, o Apogeu de Valinor se aproximava do fim. Pois ocorreu que Melkor, como os Valar haviam determinado, completou sua pena de cativeiro, tendo permanecido três eras no cárcere de Mandos, totalmente só. Por fim, como Manwë havia prometido, ele foi conduzido novamente diante dos tronos dos Valar. Contemplou então sua glória e sua bem-aventurança; e a inveja encheu seu coração. Viu os Filhos de Ilúvatar sentados aos pés dos Poderosos, e o ódio o dominou. Observou a abundância de pedras preciosas, e as cobiçou. Ocultou, porém, seus pensamentos e adiou sua vingança.

Diante dos portões de Valmar, Melkor humilhou-se aos pés de Manwë e suplicou seu perdão, jurando que, se pudesse ser equiparado mesmo ao mais ínfimo dos seres livres de Valinor, ajudaria os Valar em todas as suas obras e, principalmente, na cura dos muitos danos que causara ao mundo. E Nienna auxiliou em sua súplica; mas Mandos não se pronunciou.

Concedeu-lhe então Manwë o perdão; mas os Valar ainda não se dispunham a deixá-la partir para fora do alcance de sua visão e de sua vigilância; e ele foi obrigado a permanecer dentro dos portões de Valmar. Entretanto, eram aparentemente justos todos os atos e palavras de Melkor naquela época; e tanto os Valar quanto os eldar se beneficiavam de sua ajuda e de seus conselhos, se os procurassem. Portanto, dentro de pouco tempo, ele recebeu permissão para andar livremente pelo território; e a Manwë pareceu que o mal de Melkor estava curado. Pois Manwë era isento de maldade e não conseguia compreendê-la; e sabia que no início, no pensamento de Ilúvatar, Melkor havia sido igual a ele; e Manwë não chegava a enxergar as profundezas do coração de Melkor e não percebia que o amor o abandonara para sempre.

Ulmo, porém, não se iludiu. E Tulkas cerrava os punhos sempre que via passar Melkor, seu inimigo. Pois se Tulkas é lento para chegar à ira, também é lento para esquecer. Seguiram os dois, no entanto, a decisão de Manwë; pois aqueles que defendem a autoridade contra a rebelião não devem eles próprios se rebelar.

Ora, em seu coração, Melkor odiava acima de tudo os eldar, tanto por serem belos e alegres quanto por ver neles a razão para o ataque dos Valar e sua própria derrocada. Por esse motivo, mais ainda simulava amor por eles, procurando sua amizade e lhes oferecendo seu conhecimento e seus serviços em qualquer grande obra que quisessem empreender. Os vanyar na realidade ainda o mantinham sob suspeita, pois moravam à luz das Árvores e se sentiam satisfeitos; e aos teleri, ele não dava atenção, considerando-os desprezíveis, instrumentos fracos demais para suas intenções. Já os noldor se encantavam com o conhecimento oculto que ele lhes poderia revelar. E alguns deram ouvidos a palavras que teria sido melhor nunca terem escutado. Melkor de fato declarou mais tarde que Fëanor havia aprendido grandes artes com ele em segredo, e que havia sido instruído por ele em suas maiores obras; mas Melkor mentia, em sua cobiça e inveja, pois nenhum dos eldalië jamais odiou Melkor mais do que Fëanor, filho de Finwë, que primeiro lhe deu o nome de Morgoth. E, embora tivesse se enredado nas tramas da perversidade de Melkor contra os Valar, Fëanor jamais conversou com ele nem aceitou seus conselhos Pois Fëanor era movido pelo fogo de seu próprio coração, apenas; trabalhando sempre com rapidez e em solidão; e não pedia ajuda nem procurava a opinião de ninguém que habitasse Aman, fosse grande, fosse pequeno, à única e breve exceção de Nerdanel, a Sábia, sua esposa.
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Seg Jun 28 2010, 19:32

CAPÍTULO VII
Das Silmarils e da inquietação dos noldor


Naquela época foram feitas as coisas que mais tarde alcançaram maior renome entre todas as obras dos elfos. Pois Fëanor, atingindo seu poder máximo, foi dominado por uma nova idéia, ou talvez lhe tivesse ocorrido alguma sombra de presságio do triste destino que se acercava. E ele se perguntava como a luz das Árvores, a glória do Reino Abençoado, poderia manter-se imperecível. Começou, então, um trabalho longo e secreto, para o qual recorreu a todo o seu conhecimento, seu poder e sua habilidade sutil. E, ao final de tudo, fez as Silmarils.

Como três magníficas pedras preciosas eram elas na forma. Mas não antes do Fim, quando retornará Fëanor, que pereceu antes que o Sol fosse criado, e agora está sentado nos Palácios da Espera e não surge mais entre seus parentes; somente depois que o Sol passar, e a Lua cair, será conhecido de que substância elas eram feitas. Aparentemente do cristal dos diamantes e, no entanto, mais duras do que ele, de tal modo que nenhuma violência pudesse danificá-las ou quebrá-las no Reino de Arda. Contudo, esse cristal estava para as Silmarils como o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a morada do fogo interior, que se encontra dentro dele e, ainda assim, em todas as suas partes; e que é sua vida. E o fogo interior das Silmarils, Fëanor criou a partir da fusão da luz das Árvores de Valinor, que ainda sobrevive nas jóias, embora as Árvores já há muito tenham definhado e não brilhem mais. Portanto, mesmo na escuridão do cofre mais profundo, as Silmarils brilhavam com luz própria, como as estrelas de Varda; e, no entanto, como se de fato fossem seres vivos, elas se deleitavam na luz e a recebiam e refletiam em matizes mais maravilhosos do que antes.

Todos os que moravam em Aman ficaram maravilhados e se deleitavam com a obra de Fëanor.

E Varda consagrou as Silmarils, para que dali em diante nenhuma carne mortal, nem mãos impuras, nem nada de mau, pudesse tocá-las, que não se queimasse e murchasse. E Mandos previu que os destinos de Arda, da terra, do mar e do ar estavam dentro delas. O coração de Fëanor apegou-se profundamente a essas gemas que ele próprio havia criado.

E então Melkor cobiçou as Silmarils, e a mera lembrança de seu brilho era um fogo a lhe corroer o coração. Daquela época em diante, instigado por esse desejo, ele buscou, cada vez mais avidamente, um meio de destruir Fëanor e encerrar a amizade entre os Valar e os elfos; mas disfarçou seus objetivos com astúcia, e nenhuma malignidade podia ser vislumbrada no semblante que ele apresentava. Por muito tempo dedicou-se ele a esse trabalho, e a princípio lentos e estéreis eram seus esforços. Contudo, quem semeia mentiras no final não deixará de ter sua colheita; e em breve poderá descansar da labuta enquanto outros vão colher e semear em seu lugar. Melkor sempre encontrava ouvidos que lhe dessem atenção, e algumas línguas que aumentassem o que haviam escutado; e suas mentiras passaram de amigo a amigo, como segredos cujo conhecimento demonstra a sabedoria de quem os revela. Amargo foi o preço pago pelos noldor, nos tempos que se seguiram, pela tolice de manter os ouvidos abertos.

Quando via que muitos se inclinavam em sua direção, Melkor costumava caminhar entre eles; e, em meio a suas belas palavras, eram entremeadas outras, com tanta sutileza, que muitos daqueles que as ouviam, ao procurar se lembrar, acreditavam terem elas brotado de seu próprio pensamento. Ele fazia surgirem visões em seus corações dos esplêndidos reinos que eles poderiam ter governado por si mesmos, em poder e liberdade, no leste; e então se espalharam rumores de que os Valar teriam atraído os eldar para Aman em decorrência de sua inveja, temendo que a beleza dos quendi e o poder criador que Ilúvatar lhes havia transmitido crescessem tanto, que os Valar não pudessem mais controlá-lo, à medida que os elfos crescessem e se espalhassem pelas terras do mundo.

Naquela época, além disso, embora os Valar soubessem de fato da chegada dos homens, que ocorreria, os elfos nada sabiam a respeito; pois Manwë não lhes havia feito essa revelação.

Melkor, porém, falou-lhes em segredo dos homens mortais, percebendo que o silêncio dos Valar poderia ser distorcido. Pouco sabia ele, ainda, dos homens, pois, absorto em seu próprio pensamento, na Música, prestara pouquíssima atenção ao Terceiro Tema de Ilúvatar; mas agora corriam entre os elfos rumores de que Manwë os mantinha cativos, para que os homens pudessem chegar e suplantá-los nos territórios da Terra-média, pois os Valar consideravam que poderiam influenciar com maior facilidade essa raça mais fraca e de vida curta, privando os elfos da herança de Ilúvatar. Pouca verdade havia nisso; e raramente os Valar chegaram a tentar influenciar a vontade dos homens; mas muitos dos noldor acreditaram, ou acreditaram em parte, nessas palavras nefastas.

Assim, antes que os Valar percebessem, a paz de Valinor estava envenenada. Os noldor começaram a resmungar contra eles, e muitos se encheram de orgulho, esquecendo-se de que grande parte do que possuíam e conheciam lhes chegara como presente dos Valar. Ardia com maior violência a nova chama do desejo de liberdade e de territórios mais vastos no coração impaciente de Fëanor; e Melkor ria em segredo, pois era esse o alvo ao qual se dirigiam suas mentiras, já que odiava Fëanor acima de todos e sempre cobiçara as Silmarils. Dessas, porém, não lhe era permitido aproximar-se. Pois, embora em grandes comemorações Fëanor as usasse, refulgentes sobre a testa, em outras ocasiões elas eram guardadas em segurança, trancadas nas câmaras profundas de seus tesouros em Tirion. De fato, Fëanor começara a amar as Silmarils com um amor ganancioso, ressentindo-se de que qualquer um as visse, à exceção do pai e de seus sete filhos. Agora raramente se lembrava de que a luz das pedras não era propriedade sua.

Nobres príncipes eram Fëanor e Fingolfin, os filhos mais velhos de Finwë, respeitados por todos em Aman; mas agora eles se haviam tornado orgulhosos, e cada um sentia ciúme de seus direitos e de seus bens. E então Melkor espalhou novas mentiras em Eldamar, e rumores chegaram aos ouvidos de Fëanor, dizendo que Fingolfin e seus filhos estavam tramando usurpar a liderança de Finwë e da linha primogênita de Fëanor, para suplantá-los, com a permissão dos Valar; pois aos Valar desagradava que as Silmarils estivessem em Tirion, e não confiadas à sua guarda. Já para Fingolfin e Finarfin foi dito: -Cuidado! Pouco amor já teve um dia o orgulhoso filho de Míriel pelos filhos de Indis. Agora ele se tornou importante, e tem o pai sob seu domínio. Não vai demorar muito para ele expulsar vocês de Túna! E, quando Melkor viu que as mentiras se inflamavam, e que o orgulho e a raiva haviam despertado entre os noldor, ele lhes falou de armas. E foi nessa época que os noldor começaram a forjar espadas, machados e lanças. Também fizeram escudos, exibindo os símbolos das muitas casas e clãs que competiam entre si. Somente estes eles usavam em público, e de outras armas não falavam, pois cada um acreditava que somente ele havia recebido o aviso. E Fëanor construiu uma forja secreta, que nem mesmo Melkor conhecia; e ali temperou espadas cruéis para si e para os filhos, além de criar elmos altos, com plumas vermelhas. Lamentou amargamente Mahtan o dia em que ensinara ao marido de Nerdanel todo o conhecimento de metais que havia aprendido com Aulë.

E assim, por meio de mentiras, rumores maldosos e conselhos falsos, Melkor atiçou os corações dos noldor para a luta; e de suas contendas, com o tempo, resultou o fim dos belos dias de Valinor e o crepúsculo de sua glória antiqüíssima. Pois Fëanor começava agora a falar abertamente em rebelião contra os Valar, proclamando alto e bom som que partiria de Valinor de volta para o mundo de fora e livraria os noldor da escravidão, se eles quisessem segui-la.

Houve então enorme inquietação em Tirion, o que perturbou Finwë. E ele convocou todos os senhores seus súditos para uma reunião. Fingolfin, porém, apressou-se a chegar a seus palácios e parou diante dele.

- Rei e pai, não queres reprimir o orgulho de nosso irmão, Curufinwë, que é chamado, com muito acerto, de Espírito de Fogo? Com que direito ele fala por todo o nosso povo, como se fosse Rei? Foste tu que há muito tempo falaste aos quendi, pedindo-lhes que aceitassem a convocação dos Valar para vir a Aman. Foste tu que conduziste os noldor pela longa estrada, superando os perigos da Terra-média até a luz de Eldamar. Se não te arrependes agora do que fizeste, tens pelo menos dois filhos que honram tuas palavras.

Mas no momento exato em que Fingolfin falava, Fëanor entrou no salão, e estava totalmente armado: com o elmo na cabeça e uma poderosa espada de lado. - Quer dizer que é mesmo como imaginei – disse ele. - Meu meio-irmão prefere estar antes de mim com meu pai neste assunto, como em qualquer outro.

Voltando-se então contra Fingolfin, ele sacou a espada e gritou: - Vai embora, e ocupa teu devido lugar!

Fingolfin fez uma reverência a Finwë e, sem dizer palavra ou olhar na direção de Fëanor, saiu do salão. Fëanor, entretanto, o acompanhou, detendo-o à porta da casa do rei; e tocou o peito de Fingolfin com a ponta de sua espada brilhante.

- Vê, meu meio-irmão! Esta é mais afiada do que tua língua. Tenta, uma vez mais que seja, usurpar meu lugar e o amor de meu pai, e pode ser que ela livre os noldor de alguém que procura ser o senhor de escravos.

Essas palavras foram ouvidas por muitos, já que a morada de Finwë ficava na grande praça aos pés da Mindon. Mais uma vez, porém, Fingolfin não deu resposta e, passando pela multidão em silêncio, foi procurar Finarfin, seu irmão.

Ora, a inquietação dos noldor na realidade não passava despercebida aos Valar, mas sua semente havia sido plantada na escuridão. Portanto, como Fëanor fora o primeiro a falar abertamente contra eles, os Valar julgaram que ele fosse o instigador da insatisfação, por serem notórias sua teimosia e arrogância, embora todos os noldor se houvessem tomado orgulhosos. E Manwë sentiu grande dor, mas vigiava sem dizer palavra. Os Valar haviam trazido os eldar para sua terra em liberdade, para que ficassem ou partissem; e, embora pudessem considerar a partida uma insensatez, os Valar não poderiam impedi-los de ir embora. Agora, os atos de Fëanor não poderiam ser ignorados, e os Valar estavam irritados e consternados. E Fëanor foi convocado a se apresentar diante deles junto aos portões de Valmar, para responder por suas palavras e seus atos. Foram também convocados todos os outros que haviam tido qualquer participação na questão, ou qualquer conhecimento dela. E Fëanor, parado diante de Mandos no Círculo da Lei, recebeu ordens de responder a tudo o que lhe fosse perguntado. Então, afinal, foi desnudada a raiz e revelada a influência perniciosa de Melkor. E imediatamente Tulkas deixou o conselho para ir buscá-lo e trazê-lo mais uma vez a julgamento. Fëanor, porém, não foi considerado livre de culpa, pois fora ele quem desrespeitara a paz de Valinor, tendo puxado a espada contra alguém de sua própria família, e Mandos lhe disse: - Tu falas de escravidão. Se for mesmo escravidão, não podes escapar a ela; pois Manwë é Rei de Arda, e não apenas de Aman. E esse ato foi contrário às leis, seja em Aman, seja em outra parte.

Portanto, a sentença está agora decidida: por doze anos deixarás Tirion, onde a ameaça foi feita.

Durante esse período, reflete em teu íntimo e lembra-te de quem és e do que és. Após esse prazo, essa questão estará resolvida e considerada reparada se os outros te desobrigarem.

- Eu desobrigo meu irmão – disse então Fingolfin. Fëanor, porém, não disse palavra em resposta, permanecendo parado em silêncio diante dos Valar. Em seguida, deu meia-volta, saiu do conselho e partiu de Valmar.

Com ele, para o exílio, foram seus sete filhos; e ao norte de Valinor construíram, nas montanhas, uma fortaleza provida de cofres. Ali, em Formenos, grande quantidade de pedras preciosas foi acumulada, assim como armas, e as Silmarils foram trancadas numa câmara de ferro. Para lá também foi Finwë, o Rei, pelo amor que sentia por Fëanor. E Fingolfin governou os noldor em Tirion. Assim, tornaram-se aparentemente realidade as mentiras de Melkor, embora Fëanor, por seus próprios atos, tivesse provocado esses acontecimentos. E o rancor que Melkor havia semeado perdurou, estendendo-se ainda por muito tempo entre os filhos de Fingolfin e os de Fëanor.

Ora, Melkor, sabendo que seus expedientes haviam sido revelados, escondeu-se, passando de um lugar a outro como uma nuvem nas colinas. E Tulkas procurou por ele em vão. Pareceu então ao povo de Valinor que a luz das Árvores estava mais fraca, e que as sombras de tudo o que estivesse em pé ficavam mais longas e mais escuras nessa época.

Diz-se que por um tempo Melkor não mais foi visto em Valinor, nem se ouviu rumor algum dele, até que de repente chegou a Formenos e falou com Fëanor diante de suas portas. Amizade simulou ele com argumentos astuciosos, incitando Fëanor a seu pensamento anterior de fugir às peias dos Valar; e ele disse: - Vê a verdade de tudo o que eu falei, e como foste banido injustamente. Porém, se o coração de Fëanor ainda é livre e audaz, como foram suas palavras em Tirion, então eu o ajudarei e o levarei para longe desta terra estreita. Pois não sou eu também um Vala? Sim, e mais do que aqueles que se sentam em majestade em Valimar; e sempre fui amigo dos noldor, o mais habilidoso e valente dos povos de Arda.

Ora, o coração de Fëanor ainda estava magoado com a humilhação perante Mandos; e ele olhou para Melkor em silêncio, ponderando se na realidade poderia ainda confiar nele a ponto de permitir que o auxiliasse em sua fuga. E Melkor, vendo que Fëanor hesitava e sabendo que seu coração era presa das Silmarils, disse afinal: - Este é um lugar seguro e bem guardado; mas não penses que as Silmarils estejam em segurança em nenhum cofre dentro do reino dos Valar! Sua astúcia ultrapassou, porém, o objetivo. Suas palavras tocaram muito fundo e despertaram um fogo mais ameaçador do que o projetado. E Fëanor contemplou Melkor com olhos que atravessaram em chamas seu semblante enganoso e penetraram nos recônditos de sua mente, percebendo ali sua feroz cobiça pelas Silmarils. Então o ódio suplantou o medo de Fëanor, e ele amaldiçoou Melkor, mandando que se fosse dali.

- Sai já de meus portões, tu, prisioneiro de Mandos! - E bateu as portas de sua casa no nariz do mais poderoso de todos os que habitavam Eä.

Melkor partiu, então, envergonhado, pois ele próprio estava em perigo, e não vislumbrava ainda a hora
de sua vingança. Mas seu coração estava obscurecido pelo ódio. E Finwë foi tomado de um medo imenso; e apressado mandou mensageiros a Manwë, em Valmar.

Ora, os Valar estavam reunidos em conselho diante dos portões, temendo o alongamento das sombras, quando chegaram os mensageiros de Formenos. De imediato, Oromë e Tulkas se levantaram, mas, no momento em que iam partir em perseguição, chegaram mensageiros de Eldamar, dizendo que Melkor havia fugido pela Calacirya, e que, do morro de Túna, os elfos o haviam visto passar irado, como uma nuvem de tempestade. E disseram que dali ele se dirigira para o norte, pois os teleri em Alqualondë haviam visto sua sombra passar por seu porto, na direção de Araman

Assim, Melkor partiu de Valinor e, durante algum tempo, as Duas Árvores voltaram a brilhar sem sombras, e a terra esteve cheia de luz. Os Valar procuraram em vão notícias do inimigo. E, como uma nuvem muito ao longe que se avoluma cada vez mais, trazida por um vento frio e lento, uma dúvida agora estragava a alegria de todos os moradores de Aman, o temor de um mal desconhecido, que ainda poderia surgir.
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Manwë Súlimo
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Ter Jun 29 2010, 11:21

CAPÍTULO VIII
Do ocaso de Valinor



Quando Manwë soube dos caminhos que Melkor havia tomado, pareceu-lhe claro que Melkor pretendia fugir para suas antigas fortalezas no norte da Terra-média; e Oromë e Tulkas foram para o norte com a máxima rapidez, procurando alcançá-lo, se possível, mas não encontraram nenhum traço nem rumor dele para além das costas dos teleri, nos territórios desolados e despovoados próximos ao Gelo. Daquele momento em diante, a guarda foi redobrada ao longo da fronteira norte de Aman; mas inutilmente, pois, antes mesmo que fosse iniciada a perseguição, Melkor deu meia-volta e, em segredo, passou direto para o extremo sul. Pois ele ainda era um Valar, e podia mudar sua apresentação ou andar sem forma, como seus irmãos; embora esse poder ele logo perdesse para sempre.

Assim, sem ser visto, ele afinal chegou à sombria região de Avathar. Essa terra estreita ficava ao sul da Baía de Eldamar, junto aos sopés orientais das Pelóri, e suas praias tristes e longas se estendiam para o sul, escuras e inexploradas. Ali, abaixo das muralhas escarpadas das montanhas e junto ao mar frio e negro, as sombras eram as mais profundas e densas do mundo; e ali, em Avathar, em total segredo, Ungoliant havia feito morada. Os eldar não sabiam de onde ela teria vindo; mas alguns diziam que, em épocas muito remotas, ela descera da escuridão que cerca Arda, quando Melkor pela primeira vez contemplara com inveja o Reino de Manwë, e que no início ela fora um dos seres que ele corrompera para seu serviço. Ungoliant, no entanto, renegara seu Senhor, por desejar ser senhora de seu próprio prazer, tomando para si todas as coisas a fim de nutrir seu vazio. E ela fugira para o sul, escapando às investidas dos Valar e aos caçadores de Oromë, pois a vigilância destes sempre fora dirigida para o norte, e o sul ficara por muito tempo negligenciado. De lá ela se arrastara na direção da luz do Reino Abençoado; pois ansiava pela luz e a odiava.

Numa ravina, morava ela sob a forma de uma aranha monstruosa, tecendo suas teias negras numa fenda nas montanhas. Ali, sugava toda a luz que conseguia encontrar e passava a tecê-la em redes sinistras de uma escuridão sufocante, até que nenhuma luz conseguiu mais chegar à sua morada; e ela estava faminta.

Ora, Melkor chegou a Avathar e a procurou. Assumiu novamente a forma que havia usado como tirano de Utumno: a de um Senhor cruel, alto e terrível. Nessa forma, ele permaneceu eternamente. Ali, nas sombras negras, fora do alcance até mesmo dos olhos de Manwë, em seus altos palácios, Melkor tramou sua vingança com Ungoliant. Contudo, quando compreendeu o objetivo de Melkor, Ungoliant ficou num dilema entre o desejo e um medo imenso. Pois ela não se dispunha a desafiar os perigos de Aman e o poder dos Senhores temíveis; e se recusava a sair do esconderijo. Disse-lhe, portanto, Melkor: - Faz o que ordeno; e se ainda sentires fome quando tudo estiver terminado, eu te darei aquilo que teu desejo possa exigir. Sim, e com as duas mãos.

Com frivolidade fez ele esse voto, como sempre; e, em seu íntimo, ele ria. Foi assim que o grande ladrão conseguiu seduzir a que lhe era inferior.

Um manto de trevas ela teceu ao redor de ambos quando Melkor e ela avançaram: uma Antiluz, na qual as coisas pareciam não mais existir, e os olhos não conseguiam penetrar porque ela era vazia. E então, lentamente, ela começou a criar suas teias: corda a corda, de fenda em fenda, de rocha saliente até pináculo de pedra, sempre subindo, arrastando-se e se agarrando, até afinal chegar ao próprio cume de Hyarmentir, a montanha mais alta naquela região do mundo, muito ao sul da enorme Taniquetil. Ali, os Valar não vigiavam; pois a oeste das Pelóri havia uma terra vazia na penumbra e, a leste, as montanhas, à exceção da região esquecida de Avathar, davam apenas para as águas turvas do mar inexplorado.

Agora, porém, no topo da montanha estava Ungoliant. Ela teceu uma escada de cordas trançadas e a jogou para baixo. E Melkor subiu por essa escada e chegou àquele lugar nas alturas, parou a seu lado e baixou o olhar até o Reino Protegido. Abaixo deles, estavam os bosques de Oromë, e a oeste tremeluziam os campos e as pastagens de Yavanna, dourados abaixo do alto trigo dos deuses. Melkor olhou, entretanto, para o norte, e avistou ao longe a planície reluzente e os damos de prata de Valmar, cintilando à mescla de luzes de Telperion e Laureún. Deu, então, uma forte risada, e desceu veloz pelas longas encostas acidentais. E Ungoliant estava a seu lado, e sua escuridão os encobria.

Aquela era a época de uma festa, como Melkor bem sabia. Embora todas as estações e épocas seguissem a vontade dos Valar, e em Valinor não existisse nenhum inverno de morte, mesmo assim eles estavam então no Reino de Arda, e este era apenas um pequeno território nos palácios de Eä, cuja vida é o Tempo, que flui para sempre, da primeira nota ao último acorde de Eru. E exatamente como era então para os Valar um prazer (como está relatado no Ainulindalé) se apresentarem vestindo as formas dos filhos de Ilúvatar, eles também apreciavam comer e beber, além de colher da Terra os frutos de Yavanna, que sob o comando de Eru haviam criado.

Portanto, Yavanna estabeleceu épocas para o florescimento e a maturação de tudo o que crescia em Valinor. E, a cada primeira colheita de frutos, Manwë oferecia uma grande festa em louvor a Eru, quando todos os povos de Valinor manifestavam sua alegria em música e poesia sobre Taniquetil. Essa hora era agora, e Manwë decretou que a festa fosse mais gloriosa do que qualquer outra já realizada desde a chegada dos eldar a Aman. Pois, embora a fuga de Melkor prenunciasse dificuldades e aflições futuras, e na realidade ninguém pudesse dizer quais outros danos seriam causados a Arda antes que ele fosse novamente subjugado, nessa ocasião Manwë pretendia curar o mal que havia surgido entre os noldor. E todos foram chamados ao palácio, no topo de Taniquetil, para ali deixar de lado os rancores que existiam entre os príncipes e relegar ao esquecimento as mentiras de seu Inimigo.

Vieram os vanyar, e vieram também os noldor de Tirion; e os Maiar se reuniram; e os Valar estavam engalanados em sua beleza e majestade; e eles cantavam diante de Manwë e Varda em seus grandiosos salões ou dançavam nas encostas verdes da Montanha que davam para o oeste, na direção das Árvores. Nesse dia, as ruas de Valmar estavam vazias, e as escadas de Tirion, em silêncio. E toda a terra estava adormecida, em paz. Somente os teleri, do outro lado das montanhas, ainda cantavam nas praias, pois eles pouco se importavam com estações ou épocas, e não dedicavam um pensamento sequer aos interesses dos governantes de Arda ou à sombra que havia caído sobre Valinor, pois, por enquanto, ainda não haviam sido tocados por ela.

Somente uma coisa prejudicou o intento de Manwë. Fëanor de fato viera, pois somente a ele Manwë dera ordem para vir. Já Finwë não viera, como não viera mais ninguém dos noldor de Formenos. Pois disse Finwë: - Enquanto persistir a interdição a Fëanor, meu filho, de entrar em Tirion, eu me considero destronado, e me recuso a me encontrar com meu povo.

E Fëanor não viera trajado para uma festa. Não usava nenhum ornamento, nem prata, ouro, nem pedra preciosa. E recusou aos Valar e aos eldar a visão das Silmarils, deixando-as trancadas em Formenos em sua câmara de ferro. Não obstante, ele se encontrou com Fingolfin diante do trono de Manwë, e os dois se reconciliaram, pelo menos em palavras. E Fingolfin não deu importância à espada desembainhada, pois estendeu a mão e disse:

- Como prometi, cumpro agora. Eu te perdôo e não guardo nenhum rancor.

Fëanor então segurou sua mão em silêncio; mas Fingolfin disse. - Meio-irmão de sangue, irmão total serei no coração. Tu serás o líder, e eu te seguirei. Que nenhum ressentimento possa nos separar.

- Eu te ouço – disse Fëanor. - Assim seja. - No entanto, eles não sabiam o significado que suas palavras teriam.

Diz-se que, no momento em que Fëanor e Fingolfin estavam diante de Manwë, ocorreu a mescla das luzes, quando as duas Árvores brilharam, e a cidade silenciosa de Valmar se encheu de um brilho de ouro e prata. E, naquele mesmo instante, Melkor e Ungoliant atravessaram apressados os campos de Valinor, como a sombra de uma nuvem negra ao sabor do vento que passa veloz sobre a terra ensolarada. E os dois chegaram à colina verde de Ezellohar. Então a Antiluz de Ungoliant subiu até as raízes das Árvores, e Melkor de um salto escalou a colina. E, com sua lança negra, atingiu cada Árvore até o cerne, ferindo todas profundamente. E a seiva jorrou como se fosse seu sangue e se derramou pelo chão. Contudo, Ungoliant tudo sugou; e, indo de uma Árvore a outra, grudou seu bico negro nos ferimentos até que as esgotou. E o veneno da Morte que ela continha penetrou em seus tecidos e as fez murchar, na raiz, no galho, na folha. E elas morreram. E, ainda assim, Ungoliant sentiu sede. Foi até os Poços de Varda, e também os secou; mas Ungoliant arrotava vapores negros enquanto bebia: e inchou tanto, e de forma tão horrenda, que Melkor sentiu medo.

Abateu-se assim sobre Valinor a grande escuridão. Dos feitos daquele dia, muito está relatado no Aldudénië, que Elemmíre dos vanyar compôs e é conhecido de todos os eldar. No entanto; nenhuma canção ou história poderia conter toda a dor e o terror que se sucederam. A Luz desapareceu; mas a Escuridão que se seguiu era mais do que falta de luz. Naquela hora, criouse uma Escuridão que parecia ser não uma falta, mas um ser provido de existência própria: pois ela era, na realidade, feita de maldade a partir da luz, e tinha o poder de penetrar no olho, de entrar no coração e na mente, e sufocar a própria vontade.

Das alturas de Taniquetil, Varda olhou para baixo e viu a Sombra que se erguia em súbitas torres de trevas. Valmar havia mergulhado num profundo mar noturno. Logo a Montanha Sagrada estava só, uma última ilha num mundo submerso. Toda a música cessou. Reinava o silêncio em Valinor, e não se ouvia nenhum som, além de algo que vinha de longe, com o vento, atravessando a passagem nas montanhas: o lamento dos teleri, como o grito frio de gaivotas. Pois o vento soprava gelado do leste naquela hora, e as vastas sombras do mar rolavam contra as muralhas do litoral.

Manwë, porém, de seu trono elevado, olhou ao longe; e somente seus olhos atravessaram a noite, até que divisaram uma Escuridão mais do que escura, na qual não conseguiam penetrar, imensa, mas muito distante, movendo-se agora para o norte a grande velocidade. E ele soube que Melkor havia vindo e ido embora.

Teve início então a perseguição. E a terra tremeu com os cavalos da hoste de Oromë, e as faíscas acesas pelos cascos de Nahar foram a pnmeira luz que voltou a Valinor. Porém, assim que qualquer um deles alcançava a Nuvem de Ungoliant, os cavaleiros dos Valar ficavam cegos e apavorados, e se dispersavam e não sabiam para onde estavam indo; e o som da Valaróma hesitava e se calava. E Tulkas parecia alguém preso a uma teia negra à noite, e ele estava ali indefeso, debatendo-se, em vão, no ar. Mas quando a Escuridão passou, era tarde demais.

Melkor havia fugido para onde queria, e sua vingança estava consumada.




CAPÍTULO IX
Da fuga dos noldor


Passado algum tempo, uma grande multidão reuniu-se junto ao Círculo da Lei; e os Valar estavam na penumbra, pois era noite. Mas as estrelas de Varda agora cintilavam lá no alto, e o ar estava límpido; pois os ventos de Manwë haviam dispersado os vapores da morte e feito recuar as sombras do mar. E então Yavanna se levantou e ficou em pé em Ezellohar, a Colina Verde, que agora estava nua e negra. E ela pôs as mãos nas Árvores, mas elas estavam mortas e escuras; e cada galho que Yavanna tocava, quebrava e caía sem vida a seus pés. Muitas vozes então se ergueram em lamento E pareceu àqueles que choravam que haviam esgotado a última gota do cálice de infortúnio que Melkor havia preparado para eles. Mas estavam enganados.

Yavanna falou aos Valar, dizendo: - A Luz das Árvores se extinguiu e sobrevive agora somente nas Silmarils de Fëanor. Como ele foi previdente! Mesmo para os mais poderosos súditos de Ilúvatar, existem obras que podem realizar uma e apenas uma vez. Dei existência à Luz das Árvores, e dentro de Eä nunca mais poderei repetir esse feito. Porém, se eu tivesse um pouco que fosse dessa luz, poderia devolver a vida às Árvores, antes que suas raízes apodrecessem.

Assim, nossa dor seria curada, e a maldade de Melkor, frustrada.

- Ouviste, Fëanor, filho de Finwë, as palavras de Yavanna? - disse então Manwë. - Desejas conceder o que ela quis pedir? Houve um longo silêncio, mas Fëanor não deu resposta.

- Fala, ó noldo, sim ou não! - exclamou Tulkas, então. - Mas quem negaria algo a Yavanna? E a luz das Silmarils por acaso não provém do trabalho dela desde o início?

- Não sejas apressado, Tulkas! - retrucou Aulë, o Criador. - Pedimos algo maior do que imaginas. Que ele possa refletir um pouco.

Pronunciou-se, porém, Fëanor com um lamento amargurado.

- Para os inferiores como para os superiores, existe um feito que ele não poderá realizar mais do que uma vez; e a esse feito seu coração se apegará. Talvez eu libere minhas pedras preciosas, mas nunca mais farei outras semelhantes; e, se precisar destruí-las, destruirei meu coração e morrerei; serei o primeiro a morrer de todos os eldar em Aman.

- Não o primeiro – disse Mandos, mas ninguém entendeu suas palavras. E mais uma vez fez-se silêncio enquanto Fëanor meditava no escuro. Parecia-lhe estar encurralado numa roda de inimigos, e voltaram à sua mente as palavras de Melkor, dizendo que as Silmarils não estariam em segurança se os Valar quisessem possuí-ias. “E não é um Vala como eles,” dizia seu pensamento, “e não compreende seus corações? Sim, um ladrão revelará ladrões!” - Isso eu não farei de livre e espontânea vontade – gritou então bem alto. - Porém, se os Valar me forçarem, saberei então com certeza que Melkor é da sua estirpe.

- Já te pronunciaste – disse então Mandos. E Nienna se levantou e subiu ao topo de Ezellohar.

Ela afastou do rosto seu capuz cinzento e, com suas lágrimas, lavou toda a profanação de Ungoliant; e cantou um lamento pela tristeza do mundo e pela Destruição de Arda.

Contudo, enquanto Nienna entoava seu canto triste, chegaram mensageiros de Formenos; e eles eram noldor e traziam notícias funestas. Pois contaram como uma Escuridão cega chegara ao norte, e no meio dela viera algum poder para o qual não havia nome; e a Escuridão emanava desse poder. Melkor, porém, também estava lá e fora à casa de Fëanor. Ali ele assassinara Finwë, Rei dos noldor, diante das portas, e derramara o primeiro sangue no Reino Abençoado; pois somente Finwë não havia fugido ao horror das Trevas. E contaram que Melkor arrombara a fortaleza de Formenos, tirando todas as pedras preciosas dos noldor que lá estavam guardadas; e as Silmarils haviam desaparecido.

Levantou-se então Fëanor e, erguendo a mão diante de Manwë, amaldiçoou Melkor, chamando-o de Morgoth, o Sinistro Inimigo do Mundo, e somente por esse nome passou ele a ser conhecido entre os eldar para sempre. Fëanor também mal-disse a convocação de Manwë e a hora em que ele viera a Taniquetil, acreditando, em meio ao furor de sua ira e de sua dor, que, se tivesse estado em Formenos, sua força poderia ter sido mais proveitosa do que ser simplesmente assassinado, como era o propósito de Melkor. Saiu então Fëanor correndo do Círculo da Lei e fugiu pela noite adentro. Pois seu pai lhe era mais caro do que a Luz de Valinor ou do que as incomparáveis obras de suas mãos. E quem, entre os filhos, de elfos ou de homens, deu mais valor aos pais?

Muitos ali choraram pela aflição de Fëanor, mas sua perda não era exclusivamente sua. E Yavanna chorava junto à colina, temendo que a Escuridão devorasse os últimos raios da Luz de Valinor para sempre. Pois, embora os Valar ainda não compreendessem plenamente o que havia acontecido, percebiam que Melkor havia recorrido a algum auxilio de fora dos limites de Arda. As Silmarils haviam desaparecido, e parecia não fazer diferença se Fëanor tivesse dito sim ou não a Yavanna. Contudo, tivesse ele dito sim de início, antes que chegassem as notícias de Formenos, talvez seus atos posteriores tivessem sido diferentes do que foram. Agora, porém, o cruel destino dos noldor se aproximava.

Enquanto isso, Morgoth, em sua fuga à perseguição dos Valar, chegava aos ermos de Araman.

Essa terra ficava ao norte entre as Montanhas das Pelóri e o Grande Mar, como Avathar ficava ao sul. Araman era, entretanto, uma terra mais larga; e entre as praias e as montanhas havia planícies áridas, cada vez mais frias com a aproximação do Gelo. Morgoth e Ungoliant passaram às pressas por essa região, atravessando assim as grandes brumas de Oiomúrë até Helcaraxë, onde o estreito entre Araman e a Terra-média era cheio de gelo em constante atrito; e ele fez a travessia, voltando por fim para o norte elas Terras de Fora Juntos, eles prosseguiram; pois Morgoth não conseguiu escapar a Ungoliant, e a nuvem dela ainda o envolvia enquanto todos os olhos dela o vigiavam; e chegaram àquelas terras que ficavam ao norte do Estuário de Drengtst. Agora Morgoth se aproximava das ruínas de Angband, onde no passado ficara sua grande fortaleza ocidental. E Ungoliant percebeu sua esperança e soube que ali ele procuraria fugir. Fez, então, com que ele parasse e exigiu que cumprisse sua promessa.

- Monstro cruel – disse ela – Fiz o que pediste. Mas ainda estou com fome.

- O que mais queres devorar? - respondeu Morgoth. - Desejas o mundo inteiro para encher a barriga? Não jurei te dar isso Eu sou o Senhor do mundo.

- Não desejo tudo isso. Mas tu tens um imenso tesouro de Formenos. É o que quero. Sim, e com as duas mãos tu o entregarás.

Foi assim que, forçado, Morgoth lhe entregou as pedras preciosas que trazia consigo, uma a uma e com relutância. E, quando ela as devorou, a beleza delas desapareceu do mundo. Cada vez maior e mais sinistra tornava-se Ungoliant, mas sua voracidade não estava saciada – Com apenas uma das mãos tu dás -disse ela – somente com a esquerda. Abre tua mão direita.

Na mão direita, Morgoth segurava firme as Silmarils e, embora estivessem guardadas num porta-jóias de cristal, já começavam a queimá-la, e era com grande dor que ele mantinha a mão cerrada, mas se recusava a abri-la.

- Não! Já recebeste teu quinhão. Pois com meu poder, que te transmiti, tua parte foi feita. Não preciso mais de ti. Estas pedras tu não terás, nem as verás Eu as tomo para mim para sempre.

Ungoliant, entretanto, se havia tornado enorme, enquanto ele ficara menor, pelo poder que dele havia saído. E ela se rebelou contra ele, cercando-o com sua nuvem, e o enredou numa teia de tiras grudentas para sufocá-lo. Morgoth deu então um grito terrível, que ecoou pelas montanhas. Por esse motivo, aquela região foi chamada de Lammoth, pois os ecos de sua voz permaneceram ali para sempre, de tal modo que quem desse um grito naquele lugar os despertava, e todos os recantos isolados entre os montes e o mar ficavam cheios de um clamor de vozes em agonia. Naquela hora, o grito de Morgoth foi o maior e mais horrendo jamais ouvido no norte do mundo. Abalou as montanhas, a terra tremeu e rochas se fenderam. Nas profundezas de lugares esquecidos, aquele grito foi ouvido. Muito abaixo dos salões destruídos de Angband, em subterrâneos aos quais os Valar, na pressa de seu ataque, não haviam descido, balrogs ainda estavam escondidos, sempre à espera do retomo de seu Senhor. E agora, velozes, eles se ergueram e, passando por Hithlum, chegaram a Lammoth como uma tempestade de chamas. Com seus açoites de fogo, eles rasgaram as teias de Ungoliant; e ela se acovardou e procurou fugir, soltando vapores negros para se encobrir. E, tendo escapado do norte, ela pousou em Beleriand e foi morar nos sopés das Ered Gorgoroth, naquele vale sinistro que mais tarde foi chamado de Nan Dungortheb, o Vale da Morte Horrenda, em decorrência dos horrores que ela espalhou por lá. Pois outras criaturas nefastas em forma de aranha ali habitavam desde os tempos das escavações de Angband, e ela copulava com essas criaturas e as devorava. E, mesmo depois que a própria Ungoliant partiu, não se sabe para onde, nas plagas esquecidas do sul, sua prole permaneceu ali, tecendo suas teias hediondas. Do destino de Ungoliant, não há história que fale. Contudo, há quem tenha dito que teve seu fim há muito tempo, quando, em sua fome extrema, ela própria acabou devorando a si própria.

E assim não se realizou o temor de Yavanna de que as Silmarils fossem engolidas e caíssem no vazio; mas elas continuaram nas mãos de Morgoth. E ele, estando livre, reuniu novamente todos os servos que conseguiu encontrar e chegou às ruínas de Angband. Ali, voltou a escavar seus enormes salões subterrâneos e calabouços; e, acima de seus portões, ergueu os picos tríplices das Thangorodrim, e uma densa nuvem de fumaça escura os envolveu eternamente.

Ali multiplicaram-se suas hostes de feras e demônios; e a raça dos orcs, criada tanto tempo antes, cresceu e proliferou nas entranhas da terra. Caía agora sobre Beleriand uma sombra escura, como será relatado a seguir.

Em Angband, porém, Morgoth forjou para si uma coroa de ferro e se intitulou Rei do Mundo.

Como símbolo de majestade, engastou as Silmarils em sua coroa. Suas mãos ficaram carbonizadas ao tocar naquelas pedras abençoadas, e negras elas continuaram para sempre. Ele também nunca mais se livrou da dor da queimadura e da raiva causada pela dor. Essa coroa, ele jamais tirou da cabeça, embora seu peso acabasse se transformando num cansaço mortal. Uma única vez chegou ele a sair, mas em segredo, de seus domínios no norte. Na realidade, raramente deixava as profundezas de sua fortaleza, comandando seus exércitos a partir de seu trono no norte. E, enquanto durou seu império, uma única vez, também, voltou a brandir uma arma.

Pois agora, mais do que nos tempos de Utumno, antes que seu orgulho sofresse humilhação, o ódio o devorava; e ele consagrava seu espírito a dominar seus servos e a inspirar-lhes o desejo do mal. Mesmo assim, sua majestade como um Vala persistiu por muito tempo, embora transformada em terror, e, diante de seu semblante, todos, a não ser os mais poderosos, sucumbiam num negro abismo de pavor.

Ora, quando se soube que Morgoth havia escapado de Valinor e que a perseguição a ele fora infrutífera, os Valar permaneceram por muito tempo sentados no Círculo da Lei; e os Maiar e vanyar ficaram a seu lado e choraram. Já os noldor, em sua maior parte, voltaram a Tirion e prantearam o escurecimento de sua bela cidade. Através da escura ravina da Calacirya, chegavam as brumas dos mares sombrios, que encobriam suas torres, e a lamparina da Mindon ardia pálida na penumbra.

Entao Fëanor apareceu de repente na cidade e convocou todos a irem ao palácio do Rei, no cume de Túna. Mas a sentença de exílio que lhe havia sido imposta ainda não fora revogada; e ele estava se rebelando contra os Valar. Uma enorme multidão reuniu-se rapidamente, portanto, para ouvir o que ele queria dizer; e a colina, assim como as escadas e ladeiras que subiam por suas encostas, foi iluminada pela luz dos muitos archotes que cada um trazia na mão. Fëanor era um mestre das palavras, e sua fala exercia enorme influência sobre os corações quando ele se decidia a usá-la. Naquela noite, ele fez um discurso perante os noldor do qual eles se lembrariam para sempre. Ferozes e cruéis foram suas palavras, e cheias de raiva e orgulho; e, ao ouvi-Ias, os noldor foram levados à loucura. Sua ira e seu ódio eram dirigidos principalmente a Morgoth; e, entretanto, quase tudo o que dizia vinha das mentiras do próprio Morgoth. Fëanor estava, porém, transtornado de dor com o assassinato do pai e aflito com o roubo das Silmarils. Ele agora reivindicava o trono de rei de todos os noldor, já que Finwë havia morrido, e ele desdenhava os decretos dos Valar.

- Ó povo dos noldor, por que deveríamos continuar a servir aos invejosos Valar, que não conseguem proteger nem a nós nem a seu próprio reino, do Inimigo? E, embora ele agora seja seu adversário, não é verdade que Morgoth e eles são da mesma linhagem. A vingança exige que eu parta; mas, mesmo que não fosse assim, eu não moraria mais na mesma terra que a família do assassino de meu pai e ladrão de meu tesouro. Não sou, porém, o único valente neste povo destemido. E vocês todos não perderam seu Rei? E o que mais vocês não perderam, encurralados aqui numa terra estreita, entre as montanhas e o mar.

- Aqui, outrora, houve luz, que os Valar não concediam à Terra-média, mas agora as trevas deixam todos em condições iguais. Vamos nos lamentar aqui, passivos, para todo o sempre, um povo-fantasma, que corre atrás de névoas, derramando lágrimas vãs sobre os mares ingratos? Ou vamos voltar para a terra natal? Em Cuiviénen, as águas fluíam tranqüilas à luz das estrelas límpidas, e havia terras extensas onde um povo livre podia caminhar. Lá elas ainda estão aguardando por nós, que em nossa loucura as abandonamos. Vamos embora! Que os covardes fiquem com esta cidade!

Longo foi seu discurso, e ele sempre insistia para que os noldor o acompanhassem e, com sua própria força, conquistassem a liberdade e territórios imensos nas terras do leste, antes que fosse tarde demais. Pois ele repetia as mentiras de Melkor, de que os Valar os haviam iludido e queriam mantê-los cativos para que os homens dominassem a Terra-média. Muitos dos eldar ouviram falar ali pela primeira vez dos Sucessores

- Belo será o final – exclamou Fëanor -, embora a estrada seja longa e difícil! Digam adeus à servidão! Mas digam também adeus ao conforto! Digam adeus aos fracos! Digam adeus a seus tesouros! Faremos tesouros ainda maiores. Não carreguem peso na viagem; mas tragam suas espadas! Pois iremos muito mais longe do que Oromë, e resistiremos mais do que Tulkas.

Nunca desistiremos da perseguição. No encalço de Morgoth até os confins da Terra! Guerra terá ele, e um ódio eterno. Porém, quando tivermos vencido e reconquistado as Silmarils, nós, e somente nós, seremos os donos da Luz impoluta, senhores da felicidade e da beleza de Arda.

Nenhuma outra raça nos derrubará!

Nesse momento, Fëanor fez um juramento terrível. Seus sete filhos colocaram-se imediatamente a seu lado e fizeram juntos o mesmo voto, e vermelhas como sangue brilharam suas espadas desembainhadas à luz dos archotes. Fizeram um voto que ninguém deveria quebrar, e que ninguém deveria fazer, nem mesmo em nome de Ilúvatar, conclamando as Trevas Eternas a caírem sobre eles se não o cumprissem. E como testemunhas nomearam Manwë, Varda e a montanha abençoada de Taniquetil, jurando perseguir até o fim do Mundo com vingança e ódio qualquer Vala, demônio, elfo ou homem ainda não nascido, ou qualquer criatura, grande ou pequena, boa ou má, que o tempo fizesse surgir até o final dos tempos, quem quer que segurasse, tomasse ou guardasse uma Silmaril, impedindo que eles dela se apoderassem.

Assim falaram Maedhros, Maglor e Celegorm, Curufin e Caranthir, Amrod e Amras, príncipes dos noldor; e muitos fraquejaram ao ouvir aquelas palavras tremendas. Pois um juramento desses, para o bem ou para o mal, não pode ser quebrado; e perseguirá quem o cumprir e quem o descumprir até o fim do mundo. Fingolfin e Turgon, seu filho, falaram então contra Fëanor, e palavras terríveis surgiram, de tal modo que mais uma vez, a ira quase chegou ao fio das espadas. Finarfin, porém, falou com ponderação, como era seu costume, e procurou acalmar os noldor, convencendo-os a parar e refletir antes de agir de modo irreparável; e Orodreth foi o único entre seus filhos a se manifestar da mesma forma. Finrod estava com Turgon, seu amigo; mas Galadriel, a única mulher dos noldor a se apresentar naquele dia, alta e valente entre os príncipes em conflito, estava ansiosa por partir. Não fez nenhum juramento, mas as palavras de Fëanor acerca da Terra-média haviam reverberado em seu coração, pois ela ansiava por ver os vastos territórios desprotegidos e estabelecer ali um reino a seu gosto. Disposição semelhante à de Galadriel tinha Fingon, filho de Fingolfin, que também ficara comovido com as palavras de Fëanor, embora não gostasse muito dele. E ao lado de Fingon, como sempre faziam, estavam Angrod e Aegnor, filhos de Finarfin. Esses, porém, permaneceram calados e não falaram contra seus pais.

Afinal, após um longo debate, a vontade de Fëanor prevaleceu; e a maior parte dos noldor ali reunidos ele inflamou com o desejo de coisas novas e países desconhecidos. Por isso, quando Finarfin mais uma vez defendeu a cautela e mais tempo para pensar, ergueu-se da multidão um forte brado: - Não! Vamos embora! - E imediatamente Fëanor e seus filhos começaram os preparativos para a marcha.

Pouco poderiam prever aqueles que ousavam enveredar por um caminho tão sombrio. Mesmo assim, tudo foi feito às pressas; pois Fëanor os instigava, temendo que, quando os corações arrefecessem, suas palavras perdessem o brilho e outras opiniões pudessem prevalecer. E, apesar de toda a sua arrogância, ele não se esquecia do poder dos Valar. De Valmar, porém, não chegava mensagem alguma, e Manwë estava em silêncio. Ainda não queria proibir nem impedir a iniciativa de Fëanor. Pois os Valar estavam magoados com a acusação de que teriam intenções malévolas para com os eldar, ou de que algum deles estaria ali cativo contra a própria vontade. Agora, eles só observavam e aguardavam, pois ainda não acreditavam que Fëanor pudesse fazer valer sua vontade sobre todos os noldor.

E, de fato, quando Fëanor começou a comandar os noldor para a partida, imediatamente iniciou-se a discordância. Pois, embora ele tivesse convencido todos os reunidos em assembléia a partir, de modo algum tinham todos eles a intenção de aceitá-la como Rei. Um amor maior era dedicado a Fingolfin e seus filhos; e tanto a família deste quanto a maior parte dos habitantes de Tirion se recusavam a renunciar a ele, se ele quisesse vir junto. E assim, no final, como duas hostes separadas, os noldor partiram para sua amarga jornada. Fëanor e seus seguidores tornaram a dianteira, mas a multidão mais numerosa vinha atrás, sob o comando de Fingolfin; e este marchava contrariando seu discernimento, porque Fingon, seu filho, insistia com ele para que o fizesse, e por não querer se isolar de seu próprio povo, que estava decidido a partir, nem querer abandoná-la às decisões apressadas de Fëanor. Tampouco se esquecera de suas palavras diante do trono de Manwë. Com Fingolfin ia também, e por motivos semelhantes, Finarfin, mas ele muito relutara em partir. E, de todos os noldor em Valinor, que agora formavam uma grande população, apenas uma pequena fração se recusou a pôr o pé na estrada: alguns pelo amor que sentiam pelos Valar (principalmente por Aulë), alguns pelo amor por Tirion e pelas muitas coisas que haviam feito. Nenhum por medo dos perigos que os aguardavam.

Mas no momento exaro em que soava a trombeta, e Fëanor saía pelos portões de Tirion, chegou afinal um mensageiro de Manwë, dizendo:

- Somente contra a insensatez de Fëanor declaro minha decisão. Não sigam adiantei Pois a hora é funesta, e seu caminho leva a tristezas das quais vocês ainda não têm idéia. Nenhum auxílio lhes prestarão os Valar nessa demanda; mas também não lhes criarão obstáculos. Pois isso saibam vocês: como chegaram aqui livremente, livremente partirão. Mas tu, Fëanor, filho de Finwë, por teu próprio juramento estás exilado. As mentiras de Melkor irás desaprendê-las amargamente. Vala ele é, dizes. Pois juraste em vão, porque nenhum Vala podes derrotar nem agora nem nunca dentro dos limites de Eä, nem se Eru, em nome de quem juraste, te houvesse criado três vezes mais poderoso do que és.


Fëanor riu, porém, e não se dirigiu ao arauto, mas aos noldor.

- Pois bem! Será que esse povo valente vai enviar o herdeiro de seu Rei sozinho para o exílio apenas com seus filhos, e voltar para o cativeiro? Mas se alguém quiser vir comigo, eu lhes pergunto se está previsto o sofrimento. No entanto, em Aman, nós já o conhecemos. Em Aman chegamos ao sofrimento através da felicidade. Agora vamos tentar o oposto: através do sofrimento, chegar à alegria, ou à liberdade pelo menos. - Voltando-se então para o arauto, gritou: - Diga o seguinte a Manwë Súlimo, Rei Supremo de Arda. Se Fëanor não pode derrotar Morgoth, ele pelo menos não deixa o ataque para depois, nem fica sentado, ocioso, a chorar. E talvez Eru tenha posto em mim um fogo maior do que conheces. No mínimo vou infligir tal sofrimento ao Inimigo dos Valar, de tal modo que mesmo os poderosos no Círculo da Lei ficarão espantados em saber. Sim, no final, eles me seguirão. Adeus! Nessa hora, a voz de Fëanor tomou-se tão forte e potente, que até mesmo o arauto dos Valar lhe fez uma reverência, como alguém que houvesse recebido uma resposta completa, e foi embora; e os noldor se sujeitaram. Continuaram, portanto, sua marcha. E a Casa de Fëanor ia apressada, à frente, ao longo das costas de Elendë. Nem uma vez eles voltaram os olhos para Tirion na verde colina de Túna. Com menos pressa e entusiasmo vinha a hoste de Fingolfin atrás deles.

Desses, Fingon ia à frente. Já na retaguarda iam Finarfin e Finrod, além de muitos dos mais nobres e sábios entre os noldor. E muitas vezes, eles olhavam para trás para ver sua bela cidade, até a lamparina da Mindon Eldaliéva desaparecer na noite. Mais do que qualquer outro dos Exilados, eles levavam lembranças da felicidade à qual haviam renunciado, e mesmo algumas coisas que lá haviam feito eles traziam consigo: um alívio e um fardo na estrada.

Ora, Fëanor conduziu os noldor para o norte, porque seu primeiro objetivo era seguir Morgoth
Além disso, Túna, aos pés da Taniquetil, ficava próxima do cinturão de Arda, e ali o Grande Mar tinha extensão incomensurável, ao passo que para o norte os mares divisores ficavam mais estreitos, à medida que se aproximavam os ermos de Araman e as costas da Terra-média. Mas, quando a mente de Fëanor se acalmou e refletiu, ele percebeu tarde demais que aquela enorme multidão jamais conseguiria transpor as longas léguas até o norte, nem cruzar os mares no final, a não ser com a ajuda de barcos. Seria, porém, necessário muito tempo e trabalho para construir uma frota tão grande, mesmo que houvesse entre os noldor alguém capacitado para essa tarefa. Resolveu, então, convencer os teleri, sempre amigos dos noldor, a se juntarem a eles. E, em sua rebeldia, acreditava desse modo poder diminuir ainda mais a felicidade de Valinor e aumentar seu poder para enfrentar Morgoth. Apressou-se então a chegar a Alqualondë, e falou com os teleri, como havia falado antes em Tirion.

Os teleri, entretanto, não se comoveram com nada do que ele dissesse. Estavam realmente tristes com a partida de parentes e amigos de longa data, mas, em vez de auxiliá-los, preferiam dissuadi-los. E nenhuma embarcação emprestariam ou ajudariam a construir contra a vontade dos Valar. Quanto a si próprios, não desejavam outro lar a nao ser as praias de Eldamar; e nenhum outro senhor além de Olwë, príncipe de Alqualondë. E ele nunca dera ouvidos a Morgoth, nem o acolhera em sua terra; e ainda tinha confiança de que Ulmo e os outros poderosos entre os Valar compensariam os danos de Morgoth, e que a noite ainda passaria a ser uma nova aurora.

Então a ira tomou conta de Fëanor, pois ele ainda temia um atraso. E foram veementes suas palavras a Olwë.

- Vocês renegam a amizade justamente na hora de nossa necessidade – disse. - Mas ficaram bem felizes de receber nossa ajuda quando chegaram por último a estas praias, preguiçosos covardes, e praticamente de mãos vazias. Ainda estariam morando em cabanas na praia se os noldor não tivessem esculpido seu porto e trabalhado em suas muralhas.

- Não renegamos nenhuma amizade – respondeu, porém, Olwë. - Mas a um amigo pode caber o papel de censurar a loucura do companheiro. E, quando os noldor nos acolheram e auxiliaram, eram diferentes suas palavras: na terra de Aman viveríamos para sempre, como irmãos cujas casas ficam lado a lado. Quanto a nossas alvas embarcações, essas vocês não nos deram. Não aprendemos esse ofício com os noldor, mas com os Senhores do Mar; e as madeiras claras trabalhamos com nossas próprias mãos; e as velas brancas foram tecidas por nossas esposas e filhas. Por isso, não nos dispomos a dá-las nem vendê-las por nenhuma aliança ou amizade.

Pois eu 1he digo, Fëanor, filho de Finwë, elas são para nós como são as pedras preciosas dos noldor: as obras que mais prezamos, iguais às quais não voltaremos a fazer outras.

Com isso, Fëanor o deixou e foi sentar remoendo maus pensamentos do lado de fora das muralhas de Alqualondë até sua hoste se reunir. Quando considerou que sua força era suficiente, foi até o Porto dos Cisnes e começou a manobrar os barcos que ali estavam ancorados, levando-os à força. Os teleri, entretanto, ofereceram resistência e lançaram muitos dos noldor ao mar. Então, espadas foram desembainhadas, e travou-se uma terrível batalha nos barcos, em volta dos molhes e dos quebra-mares do Porto, iluminados por lamparinas, e mesmo sobre o grande arco de entrada. Três vezes o povo de Fëanor foi rechaçado, e muitos morreram de ambos os lados. Contudo, a vanguarda dos noldor foi socorrida por Fingon com os primeiros da hoste de Fingolfin, que, ao se aproximarem, encontraram uma batalha em curso e sua própria gente caindo. Eles correram para ajudar antes de saber ao certo a causa da contenda. Alguns chegaram a acreditar que os teleri haviam tentado uma cilada contra a marcha dos noldor a pedido dos Valar.

Assim, finalmente, os teleri foram derrotados; e grande parte de seus marinheiros que moravam em Alqualondë foi brutalmente assassinada Pois os noldor estavam se tomando cruéis e desesperados; e os teleri tinham menos força e estavam armados, em sua maioria, apenas com arcos finos. Os noldor então puxaram os barcos brancos e manejaram seus remos da melhor forma possível, levando-os para o norte ao longo da costa. E Olwë recorreu a Ossë, mas este não veio, pois os Valar não permitiram que a fuga dos noldor fosse interrompida pela força.

Uinen, porém, chorou pelos marinheiros dos teleri; e o mar cresceu em fúria contra os assassinos, de modo que muitas embarcações naufragaram, e aqueles que nelas estavam morreram afogados. Sobre o Fratricídio de Alqualondë, mais é dito no lamento conhecido como Noldolantë, a Queda dos Noldor, que Maglor compôs antes de se perder.

Mesmo assim, a maior parte dos noldor escapou. E, quando a tempestade passou, eles mantiveram seu curso, alguns por mar, outros por terra. Mas o caminho era longo, e mais difícil à medida que avançavam. Depois de muito marcharem na noite sem limites, chegaram afinal ao extremo norte do Reino Protegido, junto às fronteiras dos ermos vazios de Araman, que eram frios e montanhosos. Ali, viram de repente uma figura escura parada no alto de um rochedo que dava para a praia. Alguns dizem que era o próprio Mandos, e nenhum mensageiro menos importante de Manwë. E ouviram uma voz alta, solene e terrível, que 1hes ordenou que parassem e escutassem. Todos então pararam e ficaram imóveis; e de uma ponta à outra das hostes dos noldor ouviu-se a voz que proferiu a maldição e profecia que é chamada de Profecia do Norte, e a Condenação dos Noldor. Muito ela pressagiou em palavras sombrias, que os noldor somente foram entender quando as desgraças de fato se abateram sobre eles; mas todos ouviram a maldiçâo lançada sobre aqueles que não quisessem ficar nem procurar a lei e o perdão dos Valar.

- Vocês verterão lágrimas sem conta; e os Valar cercarão Valinor para impedi-los de entrar.

Ficarão de tal modo isolados, que nem mesmo o eco de suas lamentações atravessará as montanhas. Sobre a Casa de Fëanor, a ira dos Valar se abate, desde o oeste até o extremo leste, e sobre todos aqueles que se dispuserem a acompanhá-los. O Juramento que fizeram os motivará, e ao mesmo tempo os trairá, arrancando de suas mãos os próprios tesouros que juraram procurar. Um final funesto terão todas as coisas que eles iniciarem com êxito; e isso se dará pela traição de irmão por irmão, e pelo medo da traição. Para sempre serão eles Os Espoliados.

- Vocês derramaram o sangue de seus irmãos injustamente e macularam a terra de Aman. Pelo sangue, irão entregar sangue; e fora de Aman permanecerão na sombra da Morte. Pois, embora Eru tenha determinado que vocês não morressem em Eä, e que nenhuma enfermidade os atacasse, mesmo assim vocês podem ser assassinados, e serão: por armas, tormentos e pela tristeza; e seus espíritos sem pouso virão, então, para Mandos.
Ali ficarão por muito tempo a ansiar por seus corpos, e encontrarão pouquíssima compaixão, mesmo que aqueles que vocês assassinaram venham a implorar por vocês. E aqueles que resistirem na Terra-média e não vierem para Mandos ficarão cansados do mundo como de um peso enorme e definharão, tornando-se como que espectros de remorso diante da raça mais jovem que virá. Falaram os Valar.

E então muitos se intimidaram, mas Fëanor endureceu seu coração.

- Fizemos nosso juramento, e não foi com leviandade. A esse juramento seremos fiéis. Somos ameaçados com muitos males, e a traição não é o menor deles. Mas uma coisa não é dita: que sofreremos de medo, de covardia ou do temor à covardia. Portanto, digo que devemos seguir, e acrescento um prognóstico: nossos feitos futuros serão tema de canções até os últimos dias de Arda.

Nessa hora, porém, Finarfin abandonou a marcha e voltou, por estar cheio de dor e de amargura contra a Casa de Fëanor, em virtude de seu parentesco com Olwë de Alqualondë. E muitos dos seus foram com ele, refazendo seus passos, pesarosos, até contemplar mais uma vez o facho longínquo de Mindon sobre Túna, ainda fulgindo na noite, e afinal chegar a Valinor. Ali receberam o perdão dos Valar, e Finarfin foi indicado para governar os noldor que restavam no Reino Abençoado. Seus filhos, entretanto, não estavam com ele, pois não quiseram abandonar os filhos de Fingolfin. E toda a gente de Fingolfin ainda prosseguiu, sentindo a obrigação do parentesco e a vontade de Fëanor, e tendo de encarar a condenação dos Valar, já que nem todos eram inocentes no Fratricídio de Alqualondë. Além disso, Fingon e Turgon eram audazes e belicosos, e relutavam em abandonar qualquer tarefa à qual se houvessem dedicado antes do triste final, se ele tivesse de ser triste. Portanto, a hoste principal continuou viagem, e rapidamente o mal que havia sido previsto começou a atuar.

Os noldor acabaram chegando ao norte de Arda e viram as primeiras pontas do gelo que flutuava no mar. Souberam, então, que estavam se aproximando de Helcaraxë; Pois, entre a terra de Aman, que ao norte fazia uma curva para o leste, e o litoral oeste de Endor (que é a Terra-média), que se projetava para o ocidente, havia um pequeno estreito, através do qual confluíam as águas do Mar Circundante e as ondas de Belegaer. Havia vastos nevoeiros e brumas de um frio mortal, e as correntes marítimas vinham carregadas de blocos de gelo que colidiam uns com os outros e do atrito do gelo das profundezas. Assim era Helcaraxë, e ali ninguém até então ousara pisar, a não ser os Valar, e Ungoliant.

Portanto, Fëanor parou, e os noldor debateram que caminho deveriam seguir a partir dali.

Começaram, porém, a sofrer com o frio e o nevoeiro insistente, que o brilho de nenhuma estrela poderia penetrar. E muitos se arrependeram da viagem e começaram a reclamar, especialmente os que acompanhavam Fingolfin, amaldiçoando Fëanor e dizendo que ele era a causa de todas as desgraças dos eldar. Fëanor, porém, sabendo de tudo o que era dito, aconselhou-se com seus filhos. E eles viam apenas dois meios de escapar de Araman e entrar em Endor: pelos estreitos, ou em barcos. Contudo, consideravam Helcaraxë intransponível, enquanto a quantidade de barcos era insuficiente. Muitos haviam sido perdidos na longa viagem, e os restantes eram poucos para transportar de uma vez toda aquela multidão. No entanto, ninguém estava disposto a permanecer na costa ocidental enquanto outros eram transportados primeiro. Já havia despertado entre os noldor o medo da traição. Por isso, ocorreu a Fëanor e seus filhos a idéia de tomar todos os barcos e partir de repente. Pois eles haviam mantido o comando da frota desde a Batalha do Porto, e ela era tripulada apenas por aqueles que lá haviam lutado e tinham vínculos com Fëanor. E, como se fosse a pedido seu, começou a soprar um vento vindo do noroeste, e Fëanor escapou em segredo com todos os que ele considerava fiéis, embarcou e pôs-se ao mar e deixou Fingolfin em Araman. E, como o mar ali fosse estreito, navegando para o leste e um pouco para o sul ele fez a travessia sem perdas, sendo o primeiro de todos os noldor a voltar a pisar nas praias da Terra-média; e o desembarque de Fëanor foi na foz do estuário chamado Drengist, que levava ao interior de Dorlómin.

Quando estavam em terra firme, porém, Maedhros, seu primogênito, e no passado amigo de Fingon, antes que as mentiras de Morgoth os separassem, dirigiu-se a Fëanor.

- Agora quais barcos e remadores liberarás para a volta? E quem eles trarão em primeiro lugar? Fingon, o Valente?

Riu então Fëanor como um ensandecido e gritou: - Nenhum barco, nenhum remador! O que deixei para trás não dou como perda. Revelou-se bagagem desnecessária no caminho. Que aqueles que amaldiçoaram meu nome continuem a me amaldiçoar e voltem os gemidos para as jaulas dos Valar! Queimem os barcos! - E então Maedhros ficou de lado, sozinho, mas Fëanor fez com que ateassem fogo aos alvos barcos dos teleri. Portanto, naquele local chamado de Losgar, na saída do Estuário de Drengist, acabaram-se as mais belas embarcações que jamais navegaram, num enorme incêndio, brilhante e terrível. E Fingolfin e seu povo viram a luz ao longe, vermelha sob as nuvens; e souberam que haviam sido traídos. Esses foram os primeiros frutos do Fratricídio e da Condenação dos Noldor.

Então, Fingolfin, ao ver que Fëanor o havia deixado para perecer em Araman ou retomar humilhado a Valinor, encheu-se de rancor. Desejava agora mais do que nunca chegar de algum modo a Terra-média para reencontrar Fëanor. Assim, ele e sua gente muito caminharam em condições deploráveis, mas seu valor e sua capacidade de resistência cresciam com as dificuldades, pois eram um povo poderoso, os filhos mais velhos e imortais de Eru Ilúvatar, porém recém-chegados do Reino Abençoado e ainda não desgastados com o cansaço da Terra.

O ânimo de seus corações tinha energia; e, liderados por Fingolfin e seus filhos, e por Finrod e Galadriel, eles ousaram penetrar nas regiões mais hostis do norte. E, não encontrando nenhum outro caminho, enfrentaram afinal o horror da Helcaraxë e os cruéis blocos de gelo. Poucos dos feitos dos noldor daí em diante suplantaram essa travessia desesperada em termos de dificuldade ou desgraças. Ali, perderam Elenwë, a mulher de Turgon; e muitos outros também pereceram. E foi com uma hoste reduzida que Fingolfin afinal pôs os pés nas Terras de Fora.

Pouco amor por Fëanor ou por seus filhos tinham aqueles que marcharam sob seu comando e que soaram suas trombetas na Terra-média ao primeiro nascer da Lua.
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Manwë Súlimo
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Ter Jun 29 2010, 11:24

CAPÍTULO X
Dos sindar



Ora, como foi relatado, o poder de Elwë e Melian crescia na Terra-média, e todos os elfos de Beleriand, desde os marinheiros de Círdan aos caçadores nômades das Montanhas Azuis, do outro lado do Rio Gelion, reconheciam Elwë como seu senhor. Elu Thingol era ele chamado, Rei Manto-cinzento, no idioma de seu povo. Estes são os sindar, os elfos-cinzentos de Beleriand cheia de estrelas. E, embora fossem moriquendi, sob a liderança de Thingol e com os ensinamentos de Melian se tomaram os mais belos, mais sábios e mais habilidosos de todos os elfos da Terra-média. E, no final da primeira era da Prisão de Melkor, quando toda a Terra estava em paz e a glória de Valinor estava no seu apogeu, veio ao mundo Lúthien, a única filha de Thingol e Melian. Apesar de a Terra-média estar em sua maior parte no Sono de Yavanna, em Beleriand, sob o poder de Melian, havia vida e alegria, e as estrelas brilhantes refulgiam como raios de prata. E lá na floresta de Neldoreth, Lúthien nasceu; e as alvas flores de niphmdil surgiram para saudá-la como estrelas brotando da terra.
Ocorreu, durante a segunda era de cativeiro de Melkor, que anões atravessaram as Montanhas

Azuis de Ered Luin, entrando em Beleriand. A si mesmos davam o nome de khazâd, mas os sindar os chamavam de naugrim, o povo nanico, e gonohirrimg, mestres da pedra. Muito ao longe no leste, ficavam as habitações mais antigas dos naugrim, mas eles haviam escavado para si grandes palácios e mansões, segundo seu próprio estilo, na parte oriental das Ered Luin E essas cidades tinham em seu próprio idioma os nomes de Gabilgathol e Tumunzahar. Ao norte da enorme elevação do Monte Dolmed ficava Gabilgathol, que os elfos traduziam em sua língua como Belegost, ou seja, Grão-Forte; e ao sul foi esculpida na rocha Tumunzahar, chamada pelos elfos de Nogrod, a Morada Oca. A maior de todas as mansões dos anões era Khazad-dûm, a Mina dos Anões, Hadhodrond no idioma dos elfos, que mais tarde nos seus dias escuros foi chamada de Moria; mas ela ficava muito distante nas Montanhas Nevoentas, para além das longas léguas de Eriador, e só chegava aos elfos como um nome e um rumor com origem nas palavras dos anões das Montanhas Azuis.

De Nogrod e Belegost, os naugrim avançaram para Beleriand; e os elfos se encheram de espanto, pois acreditavam que eram os únicos seres vivos na Terra-média a falar com palavras ou a trabalhar com as mãos, e serem todos os outros apenas aves e feras. Não conseguiam, porém, entender nenhuma palavra da língua dos naugrim, que a seus ouvidos era pesada e sem beleza. E poucos foram os eldar que chegaram a dominá-la. Já os anões tinham facilidade de aprendizado e, de fato, estavam mais dispostos a aprender a língua dos elfos do que a ensinar a sua própria àquela raça estranha. Poucos dos eldar foram algum dia a Nogrod e Belegost, à exceção de Eol de Nan Elmoth e Maeglin, seu filho. Já os anões faziam comércio com Beleriand e construíram uma grande estrada que passava sob o sopé do Monte Dolmed e acompanhava o curso do Rio Ascar, cruzando o Gelion em Sam Athrad, o Vau das Pedras, onde mais tarde foi travada uma batalha. Sempre foi distante a amizade entre os naugrim e os eldar, embora ela gerasse muitos benefícios mútuos. Naquela época, porém, as desgraças que se interpuseram entre eles ainda não haviam ocorrido; e o Rei Thingol 1hes deu as boas-vindas. Já os naugrim estavam muito mais dispostos a dar sua amizade aos noldor em dias futuros, do que a quaisquer outros elfos e homens, em virtude de seu amor e reverência por Aulë; e louvavam as pedras preciosas dos noldor mais do que qualquer outra riqueza. Na escuridão de Arda, os anões já haviam criado grandes obras; pois desde os primeiros tempos de seus Pais demonstravam fantástica habilidade com metais e pedras. Naqueles tempos antigos, porém, adoravam trabalhar com o ferro e o cobre, e não com a prata ou o ouro.

Ora, Melian tinha grande capacidade de previsão, como era comum entre os Maiar. E, quando terminou a segunda era do cativeiro de Melkor, ela avisou Thingol de que a Paz de Arda não duraria para sempre. Ele refletiu, portanto, sobre como construir para si uma habitação régia, um lugar que fosse seguro, se o mal voltasse a despertar na Terra-média. E procurou auxílio e conselho junto aos anões de Belegost. Estes o deram de bom grado, pois naquela época eram incansáveis e ansiavam sempre por novos trabalhos. E, embora os anões exigissem algo por tudo aquilo que fizessem, fosse com prazer, fosse com esforço, naquela ocasião eles se consideraram pagos. Pois Melian muito lhes ensinou que eles estavam dispostos a aprender; e Thingol os recompensou com grande quantidade de belas pérolas. Essas Círdan lhe dera, já que existiam em abundância nas águas rasas em tomo da Ilha de Balar. Os naugrim, entretanto, nunca haviam visto nada semelhante e as tinham em alta conta. Havia uma do tamanho de um ovo de pomba, e seu brilho se assemelhava ao das estrelas na espuma do mar. Nimphelos era seu nome, e o chefe dos anões de Belegost a valorizava mais do que a uma montanha de riquezas.

Assim, por muito tempo os naugrim trabalharam alegremente para Thingol, e criaram muitos palácios no estilo de sua gente, escavados nas profundezas da terra. Ali, por onde fluía o Esgalduin, separando Neldoreth de Region, havia no meio da floresta uma colina rochosa, e o rio passava junto ao seu sopé. Ali os anões ergueram os portões do palácio de Thingol, e construíram uma ponte de pedra sobre o rio, único meio de acesso aos portões. Do outro lado, amplos corredores desciam a salões e aposentos imponentes, que haviam sido escavados na rocha viva muito abaixo do nível da entrada. Eram tantos e tão magníficos, que essa morada foi chamada de Menegroth, as Mil Cavemas.

Os elfos, entretanto, também participaram desse trabalho. E elfos e anões juntos, cada um com seu talento próprio, ali concretizaram as visões de Melian, imagens da maravilha e da beleza de Valinor, além Mar. As pilastras de Menegroth foram esculpidas para se assemelharem às faias de Oromë, tronco, galho e folha, e eram iluminadas com lantemas de ouro. Os rouxinóis cantavam ali como nos jardins de Lórien; e havia fontes de prata, bacias de mármore e pisos de pedras multicores. Imagens entaIhadas de animais e pássaros corriam pelas paredes, subiam pelas pilastras ou espiavam entre os galhos entremeados de miríades de flores. E, com o passar dos anos, Melian e suas servas encheram os salões com tapeçarias nas quais podiam ser lidos os feitos dos Valar, e muitos fatos que haviam acontecido em Arda desde seu início, além de indícios de acontecimentos que ainda estavam por vir. Era a mais bela morada de qualquer rei que jamais existiu a leste do Mar.

E, quando terminou a construção de Menegroth, e houve paz no reino de Thingol e Melian, os naugrim ainda cruzavam as montanhas de vez em quando e comerciavam pelas terras. Mas raramente iam até as Falas, pois detestavam o som do mar e receavam olhar para ele. A Beleriand não chegou nenhum outro rumor ou notícia do mundo lá fora.

Contudo, à medida que avançava a terceira era do cativeiro de Melkor, os anões ficaram preocupados e falaram ao Rei Thingol, dizendo que os Valar não haviam erradicado totalmente os males do norte; e que agora os restantes, tendo por muito tempo se multiplicado nas trevas, voltavam a aparecer, perambulando livremente.

- Há feras cruéis na terra à leste das montanhas, e seus antigos parentes que moram por lá estão fugindo das planícies para as colinas.

E, antes que se passasse muito tempo, as criaturas nefastas chegaram até mesmo a Beleriand, por passagens nas montanhas, ou vindo do sul através das florestas escuras. Havia lobos, ou criaturas que adotavam sua forma, e outros seres cruéis das sombras. E entre eles estavam os orcs, que mais tarde devastariam Beleriand. Naquela época, entretanto, eles ainda eram poucos e desconfiados; e só farejavam aquela terra, enquanto aguardavam a volta de seu senhor. De onde vinham ou o que eram, os elfos não sabiam, supondo que talvez fossem avari que se houvessem tornado perversos e brutais no ambiente selvagem. Conta-se que, sob esse aspecto, infelizmente sua suposição estava quase correta.

Por isso, Thingol começou a pensar em armas, das quais até então seu povo não sentira necessidade. E essas, de início, os naugrim forjaram para ele; pois eram muito hábeis nesse trabalho, embora nenhum deles suplantasse os artífices de Nogrod, dos quais Telchar, o Ferreiro, era o de maior renome. Uma raça belicosa desde tempos imemoriais eram todos os naugrim; e eles se dispunham a lutar, ferozes, com quem quer que os afligisse: servos de Melkor, eldar, avari, animais selvagens, ou, não raramente, sua própria gente, anões de outras casas ou linhagens. O oficio de ferreiro os sindar logo aprenderam com eles. No entanto, de todos os ofícios, somente na têmpera do aço os anões nunca foram superados, nem mesmo pelos noldor; e na confecção de malha de elos unidos, inventada pelos ferreiros de Belegost, seu trabalho era incomparável.

A essa altura, portanto, os sindar estavam bem armados, expulsaram todas as criaturas do mal e voltaram a ter paz. Os arsenais de Thingol, porém, estavam repletos de machados, lanças e espadas, altos elmos e longas cotas de malha brilhante; pois as armaduras dos anões eram feitas de tal forma que não enferrujavam, mas brilhavam eternamente como se fossem recém-polidas.

E isso se revelou vantajoso para Thingol na época que estava por vir.

Ora, como se relatou, um certo Lenwë da hoste de Olwë abandonou a marcha dos eldar na ocasião em que os teleri foram detidos às margens do Grande Rio junto às fronteiras da região ocidental da Terra-média. Pouco se sabe dos caminhos percorridos pelos nandor, que ele conduziu ao longo do Anduin. Diz-se que alguns deles habitaram por muito tempo os bosques do Vale do Grande Rio; alguns chegaram afinal à sua foz e ali permaneceram junto ao Mar; e outros, ainda, passando pelas Ered Nimrais, as Montanhas Brancas, voltaram para o norte e penetraram nos ermos de Eriador, entre as Ered Luin e as longínquas Montanhas Nevoentas.

Ora, esse era um povo da floresta e não possuía nenhuma arma de aço. A chegada dos animais ferozes, vindos do norte, deixou-os apavorados como os naugrim declararam ao Rei Thingol em Menegroth. Assim, Denethor, o filho de Lemvë, ao ouvir rumores sobre o poderio de Thingol e sua majestade, e também sobre a paz em seu reino, reuniu a hoste que pôde de sua gente dispersa e com ela atravessou as montanhas para entrar em Beleriand. Ali foram acolhidos por Thingol, como parentes há muito perdidos que voltam ao lar, e se instalaram em Ossiriand, a Terra dos Sete Rios.

Dos longos anos de paz que se seguiram à chegada de Denethor, pouco se sabe. Diz-se que, naquela época, Daeron, o Menestrel, o maior sábio do reino de Thingol, criou suas Runas; e os naugrim que vieram a Thingol as aprenderam e se encantaram com o invento, valorizando o talento de Daeron ainda mais do que os sindar, seu próprio povo. Por meio dos naugrim, as Cirth foram levadas para o leste, para o outro lado das montanhas, e se tornaram parte do conhecimento de muitos povos: mas foram pouco usadas pelos sindar para a finalidade de registros até os tempos da Guerra, e grande parte do que se guardava na memória pereceu nas ruínas de Doriath. É que da bem-aventurança e da alegria na vida há pouco a ser dito enquanto duram; assim como as obras belas e maravilhosas, enquanto perduram para que os olhos as contemplem, são registros de si mesmas, e somente quando correm perigo ou são destruídas é que se transformam em poesia.

Em Beleriand naquela época, os elfos perambulavam, os rios corriam, as estrelas brilhavam, e as flores da noite exalavam seus perfumes. E a beleza de Melian era como o meio-dia; e a beleza de Lúthien era como o alvorecer na primavera. Em Beleriand, o Rei Thingol, em seu trono, era como os senhores dos Maiar, cujo poder está em repouso, cuja alegria é como o ar que respiram todos os dias, cujos pensamentos fluem numa onda imperturbável, das alturas às profundezas. Em Beleriand, ainda às vezes cavalgava Oromë, o Grande, passando como um vento pelas montanhas, e o som de sua trompa descia pelas léguas iluminadas pelas estrelas; e os elfos o temiam pelo esplendor de seu semblante e pelo enorme estrondo da investida de Nahar. No entanto, quando a Valaróma ecoava nos montes, eles bem sabiam que todos os seres do mal eram afugentados dali.

Aconteceu, porém, de se aproximar o fim da bem-aventurança, e de a tarde ensolarada de Valinor chegar ao seu crepúsculo. Pois, como foi dito e como todos sabem, por estar escrito nos registros das tradições e por ter sido cantado em muitas obras poéticas, Melkor abateu as Árvores dos Valar com o auxílio de Ungoliant e escapou, voltando para a Terra-média. Muito ao norte ocorreu o confronto entre Morgoth e Ungoliant; mas o terrível grito de Morgoth reverberou por toda a Beleriand, fazendo toda a sua gente encolher de medo. Pois, embora não soubessem o que o grito prenunciava, o que estavam ouvindo era o arauto da morte. Pouco depois, Ungoliant fugiu do norte e entrou no reino do Rei Thingol, e um terror de escuridão a cercava. Contudo, pelo poder de Melian, foi impedida de prosseguir, e não entrou em Neldoreth, mas permaneceu muito tempo à sombra dos precipícios pelos quais Dorthonion se estendia em direção ao sul. E esses passaram a ser conhecidos como Ered Gorgoroth, as Montanhas do Terror, e ninguém ousava ir até lá ou passar por perto. Ali, a vida e a luz eram sufocadas; e todas as águas, envenenadas. Morgoth, porém, como já se relatou, voltou para Angband e a reconstruiu. E acima de seus portões ergueu as torres fumegantes das Thangorodrim. E os portões de Morgoth estavam a apenas setecentos e cinqüenta quilômetros da ponte de Menegroth: distantes e, entretanto demasiado próximos.

Ora, os orcs que se multiplicavam na escuridão da terra tomaram-se fortes e cruéis, e seu senhor sinistro os encheu de desejo de devastação e morte. Eles saíram então dos portões de Angband sob as nuvens que Morgoth fez surgir e passaram em silêncio para os planaltos do norte. Dali, de súbito, um enorme exército entrou em Beleriand e atacou o Rei Thingol. Ora, em seus vastos domínios, muitos elfos perambulavam livremente na natureza ou moravam pacificamente em pequenos clãs muito afastados. Somente em torno de Menegroth, no centro da região e ao longo das Falas, no país dos marinheiros, havia grandes populações. Os orcs, porém, investiram contra os dois lados de Menegroth; e, a partir de acampamentos no leste, entre o Celon e o Gelion, e, no oeste, nas planícies entre o Sirion e o Narog, praticaram todo tipo de pilhagem. E Thingol foi isolado de Círdan em Eglarest Ele convocou, então, Denethor; e os elfos vieram em grande número de Region, do outro lado do Aros e de Ossiriand, para travar a primeira batalha nas Guerras de Beleriand. E a hoste oriental dos orcs foi cercada pelos exércitos dos eldar, ao norte de Andram e a meio caminho entre o Aros e o Gelion. E ali sofreram total derrota; e aqueles que fugiram para o norte a fim de escapar da enorme carnificina caíram na emboscada dos machados dos naugrim que saíam do Monte Dolmed. Na realidade, poucos voltaram para Angband.

Contudo, a vitória dos elfos teve um alto preço. Pois aqueles de Ossiriand estavam pouco armados e não tinham como enfrentar os orcs, que usavam calçados e escudos de ferro e portavam enormes lanças de lâminas largas. Assim, Denethor foi isolado e cercado na colina de Amon Ereb. Ali ele sucumbiu com todos os parentes mais próximos à sua volta, antes que o exército de Thingol chegasse em seu auxilio. Por mais que sua morte fosse vingada com virulência, quando Thingol se abateu sobre a retaguarda dos orcs e os chacinou aos magotes, seu povo lamentou eternamente sua perda e não voltou a ter um rei.

Depois da batalha, alguns voltaram para Ossiriand, e suas notícias inspiraram no restante do povo um medo enorme, de tal modo que a partir dali eles nunca mais se apresentaram para uma guerra declarada, mas se mantiveram em segredo e desconfiança. E eles foram chamados de laiquendi, os elfos-verdes, em virtude de seus trajes da cor das folhas. Muitos foram, porém, para o norte e penetraram no reino protegido de Thingol, misturando-se com seu povo.

E, quando Thingol voltou a Menegroth, soube que o exército de orcs no oeste saíra vitorioso, tendo encurralado Círdan na orla do mar. Por isso, Thingol recolheu, dentro da segurança de Neldoreth e Region, todo o povo que sua convocação pôde alcançar; e Melian acionou seu poder e cercou todo o território ao redor com uma muralha invisível de sombras e desorientação: o Cinturâo de Melian, para que ninguém dali em diante pudesse passar por ele contra a sua vontade ou a do Rei Thingol, a menos que se tratasse de alguém com poder superior ao de Melian, a Maia. E essa terra cercada, que durante muito tempo foi chamada de Eglador, mais tarde recebeu o nome de Doriath, o reino protegido, a Terra do Cinturão. Ali dentro havia ainda uma paz vigilante; mas fora dela, havia o perigo e um enorme pavor; e os servos de Morgoth andavam a solta, menos nos portos murados das Falas.

Novidades estavam chegando, porém, que ninguém na Terra-média previra, nem Morgoth, em seus fossos, nem Melian, em Menegroth. Pois, depois da morte das Árvores nenhuma notícia chegara de Aman, fosse por mensageiro, fosse por espírito, fosse por visão em sonho. Na mesma época, Fëanor cruzou o Mar nas alvas embarcações dos teleri, aportou no Estuário de Drengist e ali, em Losgar, queimou os barcos




CAPÍTULO XI
Do Sol, da Lua e da ocultação de Valinor



Conta-se que, depois da fuga de Melkor, os Valar passaram muito tempo sentados imóveis, nos seus tronos no Círculo da Lei; mas não estavam ociosos, como Fëanor declarara, no desatino de seu coração. Pois os Valar podem fazer muitas coisas com o pensamento, em vez de usar as mãos; e sem usar a voz, em silêncio, eles podem conferenciar uns com os outros. Assim, eles cumpriram vigília na noite de Valinor, e seu pensamento voltou a tempos anteriores a Eä e avançou até o Fim. Contudo, nem o poder nem a sabedoria mitigavam sua dor e o conhecimento do mal na hora em que ele surge. E não lamentavam mais a perda das Árvores do que o desencaminhamento de Fëanor: das obras de Melkor, uma das mais perversas. Pois em todas as partes do corpo e da mente, em valentia, em resistência, em beleza, em compreensão, em talento, em força e em sutileza, no mesmo grau, Fëanor havia sido o mais poderoso de todos os Filhos de Ilúvatar, e nele ardia uma chama brilhante. As obras maravilhosas para a glória de Arda que ele poderia ter criado, se tudo tivesse sido diferente, somente Manwë poderia de certo modo conceber. E os vanyar que estavam em vigília junto aos Valar relataram que, quando os mensageiros repetiram a Manwë as respostas de Fëanor a seus arautos, Manwë chorou e baixou a cabeça. Já à última frase de Fëanor – de que no mínimo os feitos futuros dos noldor vive-riam para sempre em canções -, Manwë ergueu a cabeça, como alguém que ouve uma voz ao longe.

- Assim seja! Custosas lhes sairão essas canções e serão, entretanto, uma boa aquisição. Pois o preço não poderia ser outro. Assim, exatamente como Eru nos falou, uma beleza ainda não concebida chegará a Eä e ainda terá sido bom que o mal tenha existido.

- E mesmo assim continuará sendo o mal – retrucou Mandos, porém – A mim Fëanor virá em breve.

Mas quando afinal os Valar souberam que os noldor haviam de fato deixado Aman e estavam de volta a Terra-média, eles se ergueram e começaram a concretizar em atos as decisões tomadas em pensamento para remediar os danos causados por Melkor. Então Manwë pediu a Yavanna e Nienna que exercessem todos os seus poderes em prol do crescimento e da cura. E elas aplicaram todos os seus poderes às Árvores. Porém, as lágrimas de Nienna não conseguiram curar seus ferimentos mortais, e por muito tempo Yavanna cantou sozinha na penumbra. Mesmo assim no exalo momento em que faltou esperança, e seu canto hesitou, Telperion produziu, afinal, num galho sem folhas, uma enorme flor de prata; e Laurelin, um único fruto de ouro.

Esses Yavanna colheu e então as Árvores morreram E seus troncos sem vida ainda estão em pé em Valinor, um monumento à alegria perdida. Já a flor e o fruto Yavanna deu a Aulë e Manwë os abençoou. E Aulë e seu povo criaram naves para contê-los e conservar seu brilho, como está relatado no Narsilion, o Cântico do Sol e da Lua. Essas naves os Valr entregaram a Varda, para que se tornassem lamparinas no firmamento, brilhando mais do que as estrelas antigas, por se encontrar mais perto de Arda. E ela lhes deu o poder de transitar pelas regiões inferiores de Ilmen e as pôs a percorrer trajetos definidos acima do cinturão da Terra, do oeste para o leste, e a voltar.

Tudo isso os Valar fizeram, relembrando, em sua penumbra, a escuridão das terras de Arda. E resolveram então iluminar a Terra-média para, com a luz, dificultar os feitos de Melkor. Pois lembravam-se dos avari que haviam permanecido junto às águas de seu despertar; e também não haviam abandonado totalmente os noldor no exílio. Além disso, Manwë sabia que a hora da chegada dos homens se aproximava. E o que se diz é que, da mesma forma que os Valar fizeram guerra a Melkor para proteger os quendi, agora eles eram tolerantes para proteger os hildor, Os Sucessores, os Filhos Mais Novos de Ilúvatar. Pois tão graves haviam sido os danos causados a Terra-média na guerra contra Utumno, que os Valar temiam que algo ainda pior pudesse acontecer, já que os hildor seriam mortais e mais fracos do que os quendi para suportar o medo e o tumulto. Ademais, não foi revelado a Manwë em que local se daria o início dos homens, a norte, sul ou leste. Por isso, os Valar produziram luz, mas fortificaram a terra onde habitavam.

Isil, o Esplendor, foi como os vanyar de outrora chamaram a Lua, em Valinor, flor de Telperion; e Anar, o Ouro de Fogo, fruto de Laurelin, foi como chamaram o Sol. Já os noldor também os chamaram de Rána, a Inconstante, e Vása, o Coração de Fogo, que desperta e incendeia. Pois o Sol foi criado como um sinal para o despertar do homem e para o declínio dos elfos, ao passo que a Lua homenageia sua memória.

A donzela que os Valar escolheram entre os Maiar para conduzir a nave do Sol chamava-se Arien; e aquele que guiava a ilha da Lua foi Tilion. No tempo das Árvores, Arien cuidava das flores douradas nos jardins de Vána e as regava com os orvalhos cintilantes de Laurelin. Já Tilion era um caçador do grupo de Oromë e possuía um arco de prata. Ele adorava a prata e, quando queria descansar, deixava os bosques de Oromë e, entrando em Lórien, deitava-se, sonhador, junto aos poços de Estë, sob os raios cintilantes de Telperion. E Tilion implorou que lhe dessem a missão de cuidar para sempre da última Flor de Prata. Arien, a donzela, era mais poderosa do que ele, e foi escolhida por não ter sentido medo do calor de Laurelin e por não ter sido ferida por ele, já que desde o início ela era um espírito de fogo que Melkor não havia conseguido enganar nem atrair para seu serviço. Os olhos de Arien eram brilhantes demais até mesmo para os elfos contemplarem; e, ao deixar Valinor, ela abandonou a forma e os trajes que, como os Valar, usava lá e se tornou como que uma labareda nua, terrível na plenitude de seu esplendor.

Isil foi criada e preparada em primeiro lugar, e subiu primeiro para o reino das estrelas, sendo a mais velha dos novos luzeiros, como Telperion fora a mais velha das Árvores. Por algum tempo, então, o mundo teve luar, e começou a se mover e a despertar grande quantidade de seres que muito haviam aguardado no sono de Yavanna. Os servos de Morgoth muito se admiraram, mas os elfos das Terras de Fora olhavam para o céu, felizes. E no exato instante em que a Lua surgiu, acima da escuridão no oeste, Fingolfin soou suas trombetas de prata e começou sua marcha para entrar na Terra-média. E as sombras de sua hoste iam longas e negras a sua frente.

Tilion já atravessara os céus sete vezes e, portanto, estava no extremo leste, quando a nave de Arien ficou pronta. E então Anar surgiu, gloriosa. E a primeira aurora do Sol foi como um enorme incêndio sobre as torres das Pelóri: as nuvens da Terra-média foram aquecidas, e ouviu-se o som de muitas cachoeiras. Então, Morgoth de fato se intimidou, enfurnou-se nas maiores profundezas de Angband e recolheu seus servos, emitindo vapores fortíssimos e uma nuvem negra para ocultar seus domínios da luz da Estrela do Dia.

Ora, Varda pretendia que as duas naves viajassem em Ilmen e que sempre estivessem nas alturas, mas não juntas. Cada uma deveria passar por Valinor, entrar no leste e voltar, sendo que uma sairia do oeste no momento em que a outra começasse a voltar do leste. Assim, os primeiros dos novos dias foram contados à maneira das Árvores, pela mescla das luzes quando Arien e Tilion passavam cada um em seu trajeto, acima do meio da Terra. Entretanto, Tilion era inconstante e incerto em sua velocidade e não se fixava no caminho que lhe era designado.

Além disso, procurava se aproximar de Arien, sendo atraído pelo seu esplendor, embora a chama de Anar o queimasse, e a ilha da Lua ficasse chamuscada.

Em virtude da rebeldia de Tilion e ainda mais em resposta às súplicas de Lórien e Estë, que diziam que o sono e o descanso haviam sido banidos da Terra e as estrelas estavam ocultas, Varda mudou de opinião e concedeu um período no qual o mundo ainda tivesse sombra e penumbra. Anar descansaria algum tempo em Valinor, deitado no colo fresco e acolhedor do Mar de Fora; e o Entardecer, a hora da descida e do descanso do Sol, era a hora de maior luz e alegria em Aman. Logo, porém, o Sol era arrastado para baixo pelos servos de Ulmo e seguia apressado por baixo da Terra, chegando, assim, invisível, ao leste para ali voltar a subir no firmamento, a fim de que a noite não se prolongasse, e o mal não se espalhasse à luz da Lua.

Pelo poder de Anar, porém, as águas do Mar de Fora eram aquecidas e refulgiam com um fogo colorido, e Valinor teve luz por algum tempo depois da passagem de Arien. Contudo, à medida que Arien seguia por baixo da Terra e se aproximava do leste, o fulgor desbotava, e Valinor ficava às escuras. Nessa hora, os Valar mais lamentavam a morte de Laurelin. Ao amanhecer, as sombras das Montanhas da Defesa caíam pesadas sobre o Reino Abençoado.

Varda ordenou que a Lua se movimentasse da mesma forma e que, passando por baixo da Terra, nascesse no leste, mas somente depois que o Sol tivesse descido do céu. Tilion, no entanto, seguia com um ritmo instável, como ainda segue, e era sempre atraído por Arien, como sempre será. De tal modo que, com freqüência, os dois podem ser vistos acima da Terra, juntos; ou pode acontecer que Tilion se aproxime tanto do Sol, que sua sombra esconda o brilho de Arien, e surja a escuridão no meio do dia.
Portanto, com as idas e vindas de Anar, os Valar contaram os dias a partir dali até a Mudança do Mundo. Pois Tilion pouco se demorava em Valinor, mas na maioria das vezes passava veloz pelas terras do ocidente, por Avathar, Araman ou Valinor, e mergulhava no abismo do outro lado do Mar de Fora, seguindo seu caminho em solidão em meio às grutas e cavernas nas raízes de Arda. Ali, costumava passar muito tempo perambulando, só voltando tarde.

Ainda assim, após a Longa Noite, a luz de Valinor era mais forte e mais clara do que a da Terra-média; pois o Sol lá descansava, e as luzes do firmamento se aproximavam mais da Terra naquela região. No entanto, nem o Sol nem a Lua conseguem trazer à lembrança a luz que existia antes, a que emanava das Árvores antes que elas fossem tocadas pelo veneno de Ungoliant. Aquela luz sobrevive agora apenas nas Silmarils.

Morgoth, porém, odiava os novos luzeiros, e por algum tempo ficou desnorteado com esse inesperado golpe dos Valar. Atacou, então, Tilion, enviando espíritos de sombra contra ele, e houve luta em Ilmen sob os caminhos das estrelas, mas Tilion saiu vitorioso. E de Arien, Morgoth sentia um medo imenso e não ousava se aproximar, já não possuindo mais esse poder.

Pois, à medida que crescia em perversidade e transmitia o mal que concebia sob a forma de mentiras e criaturas nefastas, seu poder passava para elas e se dispersava, enquanto ele mesmo ficava cada vez mais preso a terra, relutante em sair de seus redutos sinistros. Com sombras, escondia a si mesmo e a seus servos de Arien, cujo olhar não conseguia suportar por muito tempo, e as terras em tomo de sua morada eram envoltas em vapores e nuvens enormes.

Ao ver, porém, a investida contra Tilion, os Valar ficaram em dúvida, temendo o que a perversidade e a astúcia de Morgoth poderiam ainda tramar contra eles. Embora não se dispusessem a enfrentá-lo na Terra-média, eles mesmo assim se lembravam da destruição de Almaren. E resolveram que nada de semelhante aconteceria a Valinor. Por isso, naquela época, voltaram a fortificar toda a terra e ergueram as paredes das Montanhas Pelóri a alturas tremendas e intransponíveis, a leste, norte e sul As encostas externas eram escuras e lisas, sem saliência ou ponto de apoio para os pés, e elas caíam em grandes precipícios, com a superfície lisa como vidro, e se elevavam em enormes picos coroados de gelo branco. Estabeleceu-se nelas uma guarda ininterrupta, e não havia passagem que as atravessasse, à exceção da Calacirya. Essa passagem, entretanto, os Valar não fecharam, em consideração aos eldar que lhes eram fiéis. E na cidade de Tirion sobre a colina verde, Finarfin ainda governava os que restavam dos noldor na profunda fenda nas montanhas. Pois todos os que são da raça dos elfos, até mesmo os vanyar e seu senhor, Ingwë, precisam às vezes respirar o ar de fora e o vento que vem pelo mar das terras de seu nascimento. E os Valár ainda não se dispunham a isolar os teleri totalmente dos seus parentes. Mesmo assim, na Calacirya, foram instaladas fortes torres e muitas sentinelas. E em sua extremidade, nos planaltos de Valmar, acampava um exército, para que nem ave, animal, elfo, homem, nem nenhuma criatura que habitasse a Terra-média passasse por aquela tropa.

E foi também nessa época, que os poemas chamam de Nurtalë Valinóreva, a Ocultação de Valinor, que as Ilhas Encantadas foram criadas, e todos os mares ao redor foram preenchidos com sombras e desorientação. E essas ilhas foram dispostas como uma rede nos Mares Sombrios, de norte a sul, antes que Tol Eressëa, a Ilha Solitária, fosse alcançada por quem navegasse para o oeste. Dificilmente um barco conseguiria passar por elas, pois nos perigosos estreitos as ondas suspiravam eternamente em rochas escuras ocultas na névoa. E, naquela penumbra, um enorme cansaço se abatia sobre os marinheiros, acompanhado de ódio ao mar; mas quem chegasse a pisar nas ilhas ali ficaria preso, e dormiria até a Mudança do Mundo. Foi assim que, como Mandos lhes havia prenunciado em Araman, o Reino Abençoado se fechou para impedir a entrada dos noldor. E, dos muitos mensageiros que em tempos posteriores navegaram para o oeste, nenhum jamais chegou a Valinor – à exceção de um apenas: o mais poderoso marinheiro que teve sua história contada.
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Manwë Súlimo
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Ter Jun 29 2010, 11:29

CAPÍTULO XII
Dos homens



Permaneceram então em paz os Valar atrás de suas montanhas e, tendo concedido a luz a Terra-média, a deixaram por muito tempo abandonada. A autoridade de Morgoth não era contestada a não ser pela bravura dos noldor. Ulmo, que recebia notícias da Terra por meio de todas as águas, não deixava de pensar nos exilados.

A partir dessa época foram contados os Anos do Sol. Mais rápidos e breves são eles do que os longos Anos das Árvores em Valinor. Foi nesse período que o ar da Terra-média se tornou pesado com o hálito do crescimento e da mortalidade; e a transformação e o envelhecimento de todas as coisas foram muito acelerados. A vida pululava no solo e nas águas na Segunda Primavera de Arda, e os eldar aumentaram em número. E, sob o novo Sol, Beleriand se tornara verde e bela.

Ao primeiro raiar do Sol, os Filhos Mais Novos de Ilúvatar despertaram na terra de Hildórien, nas regiões orientais da Terra-média; mas o primeiro Sol raiou no Oeste, e os olhos dos homens que se abriam se voltaram para ele; e seus pés, quando Perambularam pela Terra, acabavam indo naquela direção. Atani foi como os eldar os chamaram, o Segundo Povo; mas também os chamavam de Hildor, os Sucessores, entre muitos outros nomes: Apanónar, os Posteriores; Engwar, os Enfermiços; e Firimar, os Mortais. Ainda os chamavam de Usurpadores, Desconhecidos, Inescrutáveis, Malditos, Desajeitados, Temerosos-da-noite, Filhos do Sol. Dos homens, pouco se conta naquelas histórias que dizem respeito aos Dias Antigos, antes do surgimento dos mortais e do desaparecimento dos elfos, à exceção daqueles ante-passados dos homens, os atanatári, que nos primeiros anos do Sol e da Lua entraram na região Norte do mundo. A Hildórièn não veio nenhum Vala para guiar os homens ou convocá-los a ir morar em Valinor. E os homens sempre temeram os Valar, em vez de amá-los, e não compreendiam os objetivos dos Poderes, estando em desacordo com eles e em luta com o mundo. Ulmo, porém, pensava muito neles, propiciando a resolução e a vontade de Manwë, e suas mensagens muitas vezes lhes chegavam por águas correntes e inundações. Contudo, os homens não têm habilidade para essas questões, e tinham ainda menos naquele tempo, antes de se misturarem aos elfos. Por isso, adoravam as águas, e seus corações se comoviam, mas não compreendiam suas mensagens. Mesmo assim, diz-se que antes que se passasse muito tempo eles encontraram elfos escuros em muitos lugares e com eles fizeram amizade. E os homens tornaram-se companheiros e discípulos, em sua infância, desse povo antigo, nômade da raça élfica, que nunca partiram para Valinor e conheciam os Valar somente como um rumor e um nome distante.

Não fazia muito que Morgoth voltara para a Terra-média, e seu poder não se espalhara muito, além de ser mantido sob controle pela súbita chegada da grande luz. Havia pouco perigo nas terras e nas colinas; e, lá, novos seres, criados eras antes no pensamento de Yavanna e plantados como sementes nas trevas, afinal brotavam e floriram. A oeste, norte e sul, os filhos dos homens se dispersavam e vagueavam; e sua alegria era a alegria da manhã antes de o orvalho secar, quando cada folha estava verde.

No entanto, a alvorada é breve, e o dia muitas vezes não corresponde à sua promessa.
Aproximava-se então a hora das grandes guerras das forças do norte, quando os noldor, os sindar e os homens lutaram contra os exércitos de Morgoth Bauglir, e sucumbiram derrotados.

Para essa finalidade sempre se voltaram as mentiras astutas que Morgoth semeara no passado, e que voltava a semear entre seus inimigos, aliadas à maldição decorrente do fratricídio em Alqualondë e do Juramento de Fëanor. Somente uma parcela se conta aqui dos feitos daquela época; e a maior parte fala dos noldor, das Silmarils e dos mortais cujos destinos se enredaram com os deles. Naquela época, os elfos e os homens eram semelhantes em estatura e força física, mas os elfos tinham mais sabedoria, habilidade e beleza; e aqueles que haviam morado em Valinor e contemplado os Poderes superavam os elfos-escuros nesses aspectos tanto quanto estes últimos suplantavam os mortais. Somente no Reino de Doriath, cuja rainha Melian era da linhagem dos Valar, os sindar quase se equiparavam aos calaquendi do Reino Abençoado.

Imortais eram os elfos, e sua sabedoria crescia de uma Era para outra, sem que nenhuma enfermidade ou pestilência lhes trouxesse a morte. Seus corpos eram na verdade da matéria da Terra e podiam ser destruídos; e naquela época eram mais parecidos com os corpos dos homens, pois não haviam sido habitados tanto tempo pelo fogo de seu espírito, que os consome por dentro com o passar das eras. Já os homens eram mais frágeis, mais fáceis de serem mortos por arma ou acidente, e mais difíceis de curar; eram sujeitos a doenças e muitas enfermidades, e envelheciam e morriam. O que pode acontecer com seus espíritos após a morte, os elfos não sabem. Alguns dizem que eles vão para os palácios de Mandos; mas seu local de espera por lá não é o mesmo dos elfos. E abaixo de Ilúvatar, à exceção de Manwë, somente Mandos sabe para onde vão depois do período de recordação, nos palácios silenciosos, às margens do Mar de Fora. Ninguém jamais voltou das mansões dos mortos, a não ser Beren, filho de Barahir, cuja mão tocou uma Silmaril; mas depois disso ele nunca mais falou com homens mortais. Talvez o destino dos homens após a morte não esteja nas mãos dos Valar, nem esteja tudo previsto na Música dos Ainur.

Depois, quando, em decorrência do triunfo de Morgoth e satisfazendo seu maior desejo, elfos e homens vieram a se desentender, aqueles indivíduos da raça élfica que ainda viviam na Terramédia definharam e empalideceram, enquanto os homens usurparam a luz do Sol. Os quendi passaram então a perambular pelos locais solitários das grandes terras e ilhas, preferindo o luar e a luz das estrelas, os bosques e as cavernas, tomando-se como sombras e lembranças, à exceção daqueles que de quando em quando navegavam para o oeste e desapareciam da Terramédia.

No entanto, na alvorada do tempo, elfos e homens eram aliados e se consideravam semelhantes. Houve alguns dentre os homens que aprenderam a sabedoria dos eldar e se tornaram grandes e destemidos entre os capitães dos noldor. E, na glória e na beleza dos elfos, e também em seu destino, plena participação tiveram os filhos de elfos e de mortais, Eárendil e Elwing, bem como Elrond, seu filho.




CAPÍTULO XIII
Da volta dos noldor



Diz-se que, dos Exilados, Fëanor e seus filhos foram os primeiros a chegar a Terra-média e aportaram nos ermos de lammoth, o Grande Eco, junto às margens distantes do Estuáno de Drengist. E no mesmo instante em que os noldor pisaram na praia, seus gritos foram acolhidos pelas colinas e multiplicados, de modo que um clamor como o de inúmeras vozes poderosas encheu todo o litoral do norte; e o ruído do incêndio dos barcos em Losgar seguiu com os ventos do mar, como uma comoção de enorme fúria E, ao longe, todos os que ouviram aquele som se admiraram.

Ora, as labaredas daquele incêndio foram vistas não só por Fingolfin, que Fëanor abandonara em Araman, mas também pelos orcs e pelos vigias de Morgoth. Não houve relato do que Morgoth pensou em seu íntimo diante da notícia de que Fëanor, seu pior inimigo, trouxera um exército do Oeste. Pode ser que o temesse pouco, pois ainda não provara as espadas dos noldor; e logo se viu que pretendia expulsá-los de volta para o mar.

Sob as frias estrelas, antes do nascer da Lua, a hoste de Fëanor subiu pelo longo Estuário de Drengist, que adentrava pelas Colinas Ressoantes das Ered Lómin, e assim passou do litoral para a vastidão de Hithlum. Chegaram afinal ao lago comprido de Mithrim e, junto à sua margem norte, armaram acampamento na região de mesmo nome. Mas as hostes de Morgoth, instigadas pelo tumulto de Lammoth e pela luz do incêndio em Losgar, atravessaram as passagens das Ered Wethrin, as Montanhas de Sombra, e atacaram Fëanor de súbito, antes que o acampamento estivesse pronto ou preparado para a defesa. E ali nos campos cinzentos de Mithrim travou-se a segunda batalha nas Guerras de Beleriand. Dagor-nuin-Giliath, ela é chamada, a Batalha-sob-as-estrelas, pois a Lua ainda não havia nascido; e é celebrada em versos. Os noldor, embora em número inferior e apanhados de surpresa, conquistaram uma rápida vitória, pois a luz de Aman ainda não se apagara em seus olhos, eles eram fortes e ágeis, além de mortais em sua raiva; e suas espadas eram longas e terríveis. Os orcs fugiram deles e foram expulsos de Mithrim com grandes perdas, sendo escorraçados para o outro lado das Montanhas de Sombra para a vasta planície de Ard-galen, que ficava ao norte de Dorthonion.

Ali, os exércitos de Morgoth, que foram na direção sul para o Vale do Sirion e sitiaram Círdan nos Portos das Falas, vieram em seu auxílio e foram derrotados com eles. Pois Celegorm, filho de Fëanor, deles tendo tomado conhecimento, armou-lhes uma emboscada com uma parte do exército élfico e, abatendo-se sobre eles a partir das colinas próximas a Eithel Sirion, expulsouos para o Pântano de Serech. Péssimas sem dúvida foram às notícias que afinal chegaram a Angband, e Morgoth ficou desnorteado. Dez dias durara a batalha; e, de todos os exércitos que ele havia preparado para a conquista de Beleriand, dela retomou não mais do que um punhado de soldados.

Entretanto, motivos tinha ele para enorme regozijo, embora lhe ficassem ocultos por algum tempo. Pois Fëanor, em sua fúria contra o Inimigo, não quis parar, mas continuou a perseguir os orcs restantes, com a intenção de, assim, chegar ao próprio Morgoth. E dava sonoras risadas enquanto brandia a espada, feliz por ter desafiado a ira dos Valar e os perigos da viagem e ver chegar a hora de sua vingança. Nada sabia ele de Angband, nem da imensa força de defesa que Morgoth preparara com tanta rapidez. Porém, mesmo que tivesse sabido, isso não o teria dissuadido, pois Fëanor estava enlouquecido, consumido pela chama de sua própria ira. Assim, seguia ele muito adiante da vanguarda de seu exército. E, percebendo isso, os servos de Morgoth resolveram acuá-la, e de Angband saíram balrogs para ajudá-los. Ali, nos confins de Dor Daedeloth, a terra de Morgoth, Fëanor foi cercado, com poucos amigos a seu lado. Lutou por muito tempo, sem desanimar, embora estivesse envolto em chamas e com muitos ferimentos. Finalmente, porém, foi derrubado por Gothmog, Senhor dos balrogs, que Ecthelion mais tarde matou em Gondolin. Ali, Fëanor teria perecido, se seus filhos naquele momento não tivessem chegado em seu auxílio; e os balrogs o abandonaram, partindo para Angband.

Seus filhos então levantaram o pai e o carregaram de volta, na direção de Mithrim. Mas quando se aproximavam de Eithel Sirion e já estavam na trilha de subida para passar para o outro lado das montanhas, Fëanor pediu-lhes que parassem. Pois seus ferimentos eram mortais, e ele sabia que sua hora havia chegado. E, das encostas das Ered Wethrin, com sua última visão, ele contemplou ao longe os cumes das Thangorodrim, as mais imponentes torres da Terra-média, e soube, com a antevisão da morte, que nenhum poder dos noldor jamais as derrubaria; mas amaldiçoou o nome de Morgoth três vezes e incumbiu os filhos de cumprir seu Juramento e vingar seu pai. Morreu então, mas não teve enterro nem túmulo, pois seu espírito era tão ardente que, no momento em que escapou, o corpo caiu transformado em cinzas e se dissipou como fumaça. E seu semblante nunca mais apareceu em Arda; nem seu espírito deixou os palácios de Mandos. Assim terminou o mais poderoso dos noldor, cujos feitos originaram sua maior fama e suas piores desgraças.

Ora, Mithrim era habitada pelos elfos-cinzentos, povo de Beleriand que viera do outro lado das montanhas para o norte, e os noldor se alegraram ao encontrá-los, como parentes havia muito afastados. De início, porém, a conversa não foi fácil entre eles, pois, durante a longa separação, os idiomas dos calaquendi em Valinor e dos moriquendi em Beleriand se tornaram muito diferentes. Com os elfos de Mithrim, os noldor souberam do poder de Elu Thingol, Rei em Doriath, e do cinturão encantando que protegia seu reino. Também notícias desses grandes feitos ao norte vieram na direção sul, chegando a Menegroth e aos portos de Brithombar e Eglarest. Então, todos os elfos de Beleriand se encheram de admiração e de esperança com a chegada de seus parentes poderosos, que assim retornavam inesperadamente do oeste no exato momento de sua necessidade, e acreditaram a princípio que eles vinham como emissários dos Valar para salvá-los.

Porém, bem na hora em que Fëanor morria, chegou a seus filhos uma embaixada de Morgoth, reconhecendo a derrota e oferecendo termos de rendição, até mesmo a entrega de uma Silmaril.

Então Maedhros, o Alto, o primogênito, convenceu seus irmãos a simular um tratado com Morgoth e ir encontrar seus emissários no lugar marcado; mas os noldor tinham tão pouca fé quanto ele. Portanto, cada delegação compareceu com mais força do que o combinado; mas Morgoth mandou mais, e vieram também balrogs. Maedhros sofreu uma emboscada, e todos os seus acompanhantes foram mortos. Ele, no entanto, foi levado vivo, por ordem de Morgoth, até Angband.

Os irmãos de Maedhros então recuaram e fortificaram um grande acampamento em Hithlum; mas Morgoth mantinha Maedhros como refém, e mandou avisar que não o soltaria a menos que os noldor desistissem da guerra, voltando para o oeste ou então partindo para longe de Beleriand, para o sul do mundo. Os filhos de Fëanor sabiam, porém, que, não importava como agissem, Morgoth os trairia e não soltaria Maedhros. E também eram obrigados a cumprir o Juramento, não podendo por motivo algum renunciar à guerra com o Inimigo. Assim, Morgoth pegou Maedhros e o pendurou no alto de um precipício nas Thangorodrim, e ele estava preso à rocha pelo pulso da mão direita, envolto numa faixa de aço.

Agora chegavam ao acampamento em Hithlum rumores da marcha de Fingolfin e dos que o seguiram, que haviam atravessado o Gelo Atritante; e todos se admiraram com a chegada da Lua. Só que, quando a hoste de Fingolfin entrou em Mithrim, o Sol nasceu flamejante no oeste.

E Fingolfin desfraldou suas bandeiras azuis e prata, tocou seus clarins, e flores cresciam sob seus pés que marchavam. Assim, terminaram as eras das estrelas. Com o raiar da grande luz, os servos de Morgoth fugiram para dentro de Angband; e Fingolfin conseguiu passar sem combate pela segurança de Dor Daedeloth, enquanto seus inimigos se escondiam debaixo da terra.

Bateram, então, os elfos nos portões de Angband, e o desafio de suas trombetas fez tremerem as torres das Thangorodrim. E Maedhros os ouviu em meio a seu tormento, mas sua voz se perdeu nos ecos da pedra.

Mas Fingolfin, por ter um temperamento diferente do de Fëanor, e ter muita cautela com os ardis de Morgoth, recuou de Dor Daedeloth e voltou na direção de Mithrim, pois ouvira notícias de que ali encontraria os filhos de Fëanor, e por desejar, também, ter o escudo das Montanhas Sombrias para que seu povo pudesse descansar e se fortalecer. Pois vira a força de Angband e não achava que ela fosse cair apenas com toques de clarim. Portanto, chegando afinal a Hithlum, armou seu primeiro acampamento e morada junto às margens norte do lago de Mithrim. No coração dos que acompanhavam Fingolfin não havia muito amor pela Casa de Fëanor, já que a agonia dos que haviam resistido à travessia no Gelo havia sido tremenda, e Fingolfin considerava os filhos cúmplices do pai. Havia então perigo de luta entre os dois exércitos, mas, por graves que tivessem sido suas baixas no percurso, as hostes de Fingolfin e de Finrod, filho de Finarfin, ainda eram mais numerosas do que os seguidores de Fëanor; e estes agora recuaram diante dos outros e se mudaram, indo habitar a margem sul, com o lago entre eles. Muitos do povo de Fëanor, de fato arrependidos do incêndio em Losgar, se admiraram com a bravura que havia trazido os amigos, abandonados do outro lado do Gelo do Norte; e lhes teriam dado as boas-vindas, mas, por vergonha, não ousaram.

Assim, em virtude da maldição que se abatia sobre eles, os noldor não realizavam nada, enquanto Morgoth hesitava, e o pavor da luz ainda era recente e forte entre os orcs. Morgoth, contudo, despertou dos pensamentos e, percebendo a cisão entre seus inimigos, riu. Nos subterrâneos de Angband, fez com que fossem criados imensos vapores e fumaças, e eles emanavam dos cumes pestilentos das Montanhas de Ferro. E ao longe, em Mithrim, podiam ser vistos, poluindo os ares luminosos nas primeiras manhãs do mundo. Um vento veio do leste e os carregou para cima de Hithlum, escurecendo o novo Sol; e eles desceram e serpentearam pelos campos e grotões, pairando sobre as águas do Mithrim, lúgubres e venenosos.

Então Fingon, o valente, filho de Fingolfin, decidiu salvar o feudo que dividia os noldor, antes que seu Inimigo estivesse pronto para o combate. Pois a Terra tremia ao norte com o estrondo das forjas subterrâneas de Morgoth. Havia muito tempo, na bem-aventurança de Valinor, antes que Melkor fosse libertado, ou que mentiras os separassem, Fingon havia sido muito amigo de Maedhros; e, embora ainda não soubesse que Maedhros não se esquecera dele quando do incêndio dos barcos, a idéia da antiga amizade lhe doía no coração. Por isso, ousou um feito que tem justificado renome entre os maiores príncipes dos noldor. Sozinho e sem se aconselhar com ninguém, partiu em busca de Maedhros. Auxiliado pela própria escuridão criada por Morgoth, chegou sem ser visto ao reduto dos inimigos. Subiu bem alto pelos contrafortes das Thangorodrim e contemplou em desespero a desolação daquela terra; mas nenhuma passagem ou fenda conseguiu encontrar através da qual pudesse penetrar na fortaleza de Morgoth. Então, em desafio aos orcs, que ainda estavam acuados nos escuros vãos subterrâneos, apanhou sua harpa e entoou uma canção de Valinor que os noldor haviam composto nos velhos tempos, antes que surgisse a discórdia entre os filhos de Finwë. E sua voz ecoou nos grotões melancólicos que antes nunca tinham ouvido nada a não ser gritos de medo e aflição.
Assim descobriu Fingon o que procurava. Pois, de repente, acima dele, ao longe e com voz muito fraca, sua canção foi retomada, e uma voz chamou por ele em resposta. Era Maedhros que cantava em meio a seu tormento. Mas Fingon subiu até a base do precipício onde estava pendurado seu parente e dali não pôde avançar. E chorou ao ver a cruel invenção de Morgoth.

Maedhros, portanto, angustiado e sem esperanças, implorou a Fingon que o matasse com uma flecha. E Fingon preparou uma flecha e retesou o arco. Sem ver nenhuma saída, gritou a Manwë.

- Ó, Rei, que amas todos os pássaros, leva agora esta flecha emplumada e volta a ter pena dos noldor nesta hora de necessidade!

Sua oração foi atendida prontamente. Pois Manwë, que ama todos os pássaros e a quem eles trazem notícias da Terra-média até Taniquetil, enviara a raça das Águias, com a ordem de que habitassem os penhascos do norte e mantivessem Morgoth sob vigilância, já que Manwë ainda se condoía dos elfos exilados. E as Águias traziam aos ouvidos pesarosos de Manwë notícia de grande parte do que se passava naqueles tempos. Ora, no exato instante em que Fingon retesou o arco, desceu das alturas Thorondor, Rei das Águias, a mais poderosa de todas as aves que já existiram, cujas asas abertas cobriam mais de sessenta metros, e, detendo a mão de Fingon, ergueu-o e o levou até a face do rochedo em que Maedhros estava pendurado. Fingon, porém, não conseguiu soltar o elo infernal que lhe prendia o pulso, nem cortá-la, nem arrancá-la da pedra. Mais uma vez, em sua dor, Maedhros implorou que o matasse; mas Fingon lhe decepou a mão acima do pulso, e Thorondor os trouxe de volta a Mithrim.

Ali Maedhros com o tempo sarou, pois a chama da vida era forte dentro dele; e sua resistência era do mundo antigo, tal como só possuíam aqueles que haviam sido criados em Valinor. Seu corpo recuperou-se do tormento e voltou à saúde, mas a sombra de sua dor não lhe saía do coração, e ele viveu para usar a espada com a mão esquerda com perigo mais mortal do que antes com a direita. Por esse feito, Fingon conquistou grande fama, e todos os noldor o elogiaram. Com isso, mitigou-se o ódio entre as Casas de Fingolfin e de Fëanor. Pois Maedhros implorou perdão pelo abandono em Araman; e renunciou ao direito de reinar sobre todos os noldor.

- Se não restasse rancor entre nós, senhor – disse ele a Fingolfin – ainda assim a coroa deveria ser sua de direito, o mais velho da Casa de Finwë e o não menos sábio. - Com isso, pórém, nem todos os seus irmãos concordaram de coração. Logo, e como Mandos previra, a Casa de Fëanor passou a ser chamada de os Espoliados, por ter sido passado para a Casa de Fingolfin o direito, que era seu por primogenitura, tanto em Elendë quanto em Beleriand, bem como pela perda das Silmarils. Os noldor, entretanto, estando novamente unidos, montaram guarda junto às fronteiras de Dor Daedeloth, e Angband ficou sitiada pelo oeste, pelo sul e pelo leste. E enviaram mensageiros para todos os lados a fim de conhecer as regiões de Beleriand e lidar com as pessoas que ali habitassem.

Ora, o Rei Thingol não acolheu de coração aberto a chegada de tantos príncipes cheios de poder, vindas do oeste, ansiosos por novos territórios; e não se dispôs a abrir seu reino, nem a remover seu cinturão encantado, pois, prudente com a sabedoria de Melian, não confiava que a repressão a Morgoth perdurasse. De todos os príncipes dos noldor, somente os da Casa de Finarfin tinham permissão de entrar nos limites de Doriath, já que podiam alegar um grau próximo de parentesco com o próprio Rei Thingol, pois sua mãe era Eárwen de Alqualondë, filha de Olwë.

Angrod, filho de Finarfin, foi o primeiro dos Exilados a vir a Menegroth, como mensageiro de seu irmão Finrod, e muito tempo conversou ele com o Rei, relatando os feitos dos noldor no norte, falando de seus números e da organização de suas forças; mas, sendo sincero, ponderado e considerando todos os males então perdoados, não disse palavra sobre o fratricídio, nem sobre a forma do exílio dos noldor ou sobre o Juramento de Fëanor. O Rei Thingol prestou atenção às suas palavras e lhe disse antes de Angrod partir: - O seguinte você dirá àqueles que o enviaram. Em Hithlum, os noldor têm permissão para ficar, bem como nos planaltos de Dorthonion e nas terras a leste de Doriath que estejam vazias e ermas. Em qualquer outra parte, porém, há muitos do meu povo, e não quero vê-los constrangidos em sua liberdade, muito menos expulsos de seus lares. Atentem bem, vocês, príncipes do oeste, para o modo como vão se comportar; pois eu sou o Senhor de Beleriand, e todos os que procuram aqui habitar deverão me dar ouvidos. Em Doriath, ninguém poderá permanecer, a não ser aqueles a quem eu convidar como hóspedes ou que me procurarem em grande necessidade.

Ora, os senhores dos noldor estavam reunidos em assembléia em Mithrim, e para lá se dirigiu Angrod, ao sair de Doriath, trazendo a mensagem do Rei Thingol. Fria pareceu a acolhida aos noldor, e os filhos de Fëanor se irritaram com as palavras,mas Maedhros riu.

- Rei é aquele que consegue manter seus domínios, ou seu título será em vão Thingol não nos dá nada além de terras sobre as quais não exerce poder. Na realidade, neste momento somente Doriath seria seu reino, não fosse pela chegada dos noldor. Portanto, que reine ele em Doriath e se alegre por ter como vizinhos os filhos de Finwë, não os orcs de Morgoth que encontramos.

Em outras partes, tudo correrá como nos parecer conveniente.

No entanto, Caranthir, que não gostava dos filhos de Finarfin, e era dos irmãos o mais agressivo e de temperamento mais irritável, protestou em voz alta.

- E mais! Que os filhos de Finarfin não fiquem correndo de um lado para o outro contando suas histórias para esse elfo-escuro lá nas grutas dele! Quem os nomeou nosso porta-voz para lidar com ele. E, embora tenham vindo de fato para Beleriand, que não se esqueçam assim tão depressa de que seu pai é um senhor dos noldor, embora sua mãe seja de outra linhagem.

Com isso, irou-se Angrod e abandonou a assembléia. Maedhros chegou a censurar Caranthir; mas a maioria dos noldor, dos dois séqüitos, ao ouvir suas palavras, sentiu o coração perturbado, temendo o espírito cruel dos filhos de Fëanor que parecia sempre explodir em violência ou em palavras impensadas. Maedhros, entretanto, conteve seus irmãos, e eles deixaram a assembléia. Pouco depois, partiram de Mithrim na direção leste e atravessaram o Aros para chegar ao vasto território em torno da Colina de Himring. Aquela região daí em diante foi chamada de Fronteira de Maedhros; pois na direção norte havia pouca defesa de colina ou rio contra alguma investida de Angband. Ali Maedhros e seus irmãos montavam guarda, reunindo as pessoas que quisessem a eles vir; e tinham pouco contato com seus parentes a oeste, a não ser em caso de necessidade. Diz-se na verdade que o próprio Maedhros maquinou esse plano para reduzir as chances de rivalidade e por ter o grande desejo de que o principal perigo do ataque se abatesse sobre ele. Maedhros, por seu lado, manteve a amizade com a Casa de Fingolfin e a de Finarfin. E às vezes vinha até elas para conversas de interesse mútuo. Contudo, Maehdros também estava preso ao Juramento, embora este estivesse no momento como que esquecido.

Ora, o povo de Caranthir morava mais a leste para além do curso superior do Gelion, em torno do Lago Helevorn, aos pés do Monte Rerir e mais ao sul. E eles escalavam os picos das Ered Luin e olhavam para o leste com espanto pois as regiões da Terra-média lhes pareciam selvagens e imensas. E foi assim que o povo de Caranthir deparou com os anões, que, depois do violento ataque de Morgoth e da chegada dos noldor, haviam parado de comerciar em Beleriand. Entretanto, embora os dois povos gostavam de trabalhos habilidosos e sentissem muita vontade de aprender, não havia grande amor entre eles. Pois os anões eram reservados e suscetíveis, e Caranthir era arrogante e mal disfarçava seu desdém pela falta de beleza dos naugrim, exemplo seguido por seu povo. Não obstante, como temiam e odiavam Morgoth, os dois povos fizeram uma aliança e dela tiraram grande proveito. Pois os naugrim aprenderam muitos segredos técnicos naquela época, de modo que os ferreiros e pedreiros de Nogrod e de Belegost ganharam renome entre sua gente; e. Quando os anões retomaram suas viagens por Beleriand, todo o comércio de suas minas passava primeiro pelas mãos dè Caranthir, o que lhe trouxe grande riqueza

Passados vinte anos do Sol, Fingolfin, Rei dos noldor, deu uma grande festa. Ela se realizou na primavera, perto das lagoas de Ivrin. Onde nascia o veloz Rio Narog, pois ali as terras eram verdejantes e belas aos pés das Montanhas Sombrias, que as protegiam do norte A alegria daquela festa foi relembrada por muito tempo nos dias de tristeza que estavam por vir. E ela se chamou Mereth Aderthad, a Festa da Reunião. Para ali vieram muitos dos líderes e do povo de Fingolfin e Finrod, e dos filhos de Fëanor, Maedhros e Maglor, com guerreiros da Fronteira oriental, e também compareceram, em grande número, elfos-cinzentos, nômades dos bosques de Beleriand, assim como o povo dos Portos, com Círdan, seu senhor. Vieram até mesmo elfos-verdes de Ossiriand a Terra dos Sete Rios, muito distante, à sombra das muralhas das Montanhas Azuis De Doriath, porém, vieram apenas dois mensageiros, Mablung e Daeron, trazendo cumprimentos do Rei.

Em Mereth Aderthad, foram dados espontaneamente muitos conselhos, e feitos juramentos de lealdade e amizade. Diz-se que nessa festa a língua dos elfos-cinzentos foi a mais falada, mesmo pelos noldor, pois eles aprenderam rapidamente o idioma de Beleriand, ao passo que os sindar eram lentos para dominar a língua de Valinor. Os corações dos noldor estavam enlevados e cheios de esperança; e, para muitos deles, parecia que as palavras de Fëanor haviam sido justificadas, ao lhes recomendar que procurassem a liberdade e belos territórios na Terra-média. E, de fato, seguiram-se longos anos de paz, enquanto suas espadas protegiam Beleriand da destruição de Morgoth, e o poder dele permanecia trancado por trás de seus portões. Naquela época, havia alegria sob o novo Sol e a nova Lua, e toda a terra estava contente. Ainda assim, a Sombra pairava no norte.

E quando outros trinta anos se passaram, Turgon, filho de Fingolfin, deixou Nevrast, onde morava, e foi procurar Finrod, seu amigo, na ilha de Tol Sirion; e os dois saíram em viagem ao longo do rio na direção sul, por estarem um pouco entediados das montanhas do norte. E enquanto prosseguiam, à noite os alcançou adiante dos Alagados do Crepúsculo, ao lado das águas do Sirion, e eles adormeceram as suas margens, sob as estrelas de verão. Ulmo, porém, subindo o rio, lançou sobre eles um sono profundo e sonhos pesados. E a perturbação dos sonhos não os abandonou depois que acordaram, mas nenhum disse nada ao outro, pois sua lembrança não era nítida, e cada um acreditava que só ele havia recebido uma mensagem de Ulmo. No entanto, a inquietação para sempre se abateu sobre eles, bem como dúvidas sobre o que aconteceria; e muitas vezes eles perambularam sozinhos por terras ainda não desbravadas, procurando por toda parte locais de força oculta. Pois a cada um lhe parecia que deveria se preparar para um dia nefasto e construir um abrigo, para a eventualidade de Morgoth sair de Angband em ataque e derrotar os exércitos do norte.

Houve uma ocasião em que Finrod e Galadriel, sua irmã, foram hospedados por Thingol, seu parente, em Doriath. Então, maravilhou-se Finrod com a força e a majestade de Menegroth, seus tesouros e arsenais, seus salões de pedra de muitas colunas. E brotou em seu íntimo o desejo de construir amplos salões atrás de portões eternamente vigiados em algum lugar profundo e secreto sob as colinas. Assim, ele abriu o coração com Thingol, relatando seus sonhos. E Thingol lhe falou do profundo desfiladeiro do Rio Narog e das cavernas aos pés dos Altos Faroth, em sua escarpada margem ocidental. E, quando Finrod partiu, Thingol lhe forneceu guias para levá-lo àquele lugar do qual poucos tinham conhecimento. Assim, Finrod chegou às Cavernas de Narog e ali começou a construir profundos salões e arsenais, no estilo das mansões de Menegroth. E essa fortaleza se chamou Nargothrond. Nesse trabalho, Finrod foi auxiliado pelos anões das Montanhas Azuis, que foram bem recompensados, pois Finrod trouxera mais tesouros de Tirion do que qualquer outro príncipe dos noldor. E naquela época foi feito para ele o Nauglamír, o Colar dos Anões, a mais célebre de suas obras nos Dias Antigos. Era uma gargantilha de ouro engastada com inúmeras pedras preciosas de Valinor.

Mas essa jóia tinha em si o poder de pousar levemente em quem a usasse, como se fosse um fio de linho, e qualquer que fosse o pescoço que cingisse, sempre assentava com graça e beleza.

Ali, em Nargothrond, Finrod estabeleceu seu lar com muitos de sua gente. E, na língua dos anões, foi chamado de Felagund, o Escavador de Grutas; e esse nome ele adotou até a morte.

Contudo, Finrod Felagund não foi o primeiro a habitar as grutas às margens do Rio Narog Galadriel, sua irmã, não foi com ele para Nargothrond, pois em Doriath morava Celeborn, parente de Thingol, e havia grande amor entre os dois. Por isso, ela permaneceu no Reino Oculto, residindo com Melian; e com ela adquiriu enorme conhecimento e sabedoria a respeito da Terra-média.

Já Turgon tinha lembranças da cidade instalada no alto de uma colina, Tirion, a bela, com sua torre e sua árvore; e não encontrava o que buscava. Mas voltou para Nevrast e se acomodou em Vinyamar, à beira-mar. E, no ano seguinte, o próprio Ulmo lhe apareceu e recomendou que voltasse a entrar sozinho no Vale do Sirion. Turgon partiu e, sob a orientação de Ulmo, descobriu o vale oculto de Tumladen, nas Montanhas Circundantes, no centro do qual havia uma colina de pedra. Dessa descoberta, ele não falou a ninguém por um tempo, mas retomou ainda uma vez a Nevrast, e ali começou em segredo a elaborar o projeto de uma cidade no estilo de Tirion sobre Túna, pela qual seu coração ansiava no exílio.

Ora, Morgoth, fiando-se nos relatos de seus espiões de que os senhores dos noldor andavam passeando sem se preocupar com a guerra, pôs à prova a força e o estado de alerta de seus inimigos. Mais uma vez, de modo muito inesperado, seu poder se ergueu, e de repente houve terremotos no norte, o fogo saía de fendas na terra, e as Montanhas de Ferro vomitavam labaredas, enquanto orcs avançavam cano uma avalanche pela planície de Ard-galen. Dali, precipitaram-se pelo Passo do Sirion no oeste; e no leste invadiram a terra de Maglor, na abertura entre as colinas de Maedhros e os contrafortes das Montanhas Azuis. Fingolfin e Maedhros não estavam de olhos fechados, porém; e, enquanto outros perseguiam os bandos esparsos de orcs que se espalhavam por Beleriand, perpetrando grandes males, eles se abateram sobre o corpo principal do exército de ambos os flancos quando este atacava Dorthonion.

Derrotaram os servos de Morgoth e, perseguindo-os por Ard-galen, os destruíram totalmente, até o último, à vista dos portões de Angband. Essa foi a terceira grande batalha das Guerras de Beleriand, e se chamou Dagor Aglareb, a Batalha Gloriosa.

Foi uma vitória e, ainda assim, uma advertência. E os príncipes lhe deram atenção, reforçando ainda mais sua aliança, fortalecendo e organizando sua vigilância, para iniciar o Cerco a Angband, que durou quase quatrocentos anos do Sol. Por um longo período após Dagor Aglareb, nenhum servo de Morgoth se dispôs a sair de seus portões, por temor aos senhores dos noldar. E Fingolfin se vangloriava de que, a menos que houvesse traição entre eles mesmos, Morgoth jamais conseguiria romper o esconderijo dos eldar, nem surpreendê-los desprevenidos. Contudo, os noldor não conseguiam nem conquistar Angband, nem recuperar as Silmarils; e a guerra nunca cessou totalmente em todo aquele período do Cerco, pois Morgoth inventava novas maldades e, de quando em quando, testava seus inimigos. Tampouco foi possível o cerco total à fortaleza de Morgoth, pois as Montanhas de Ferro, de cuja enorme muralha em curva se projetavam às torres das Thangorodrim, a defendiam dos dois lados e eram intransponíveis aos noldor, em virtude da neve e do gelo. Assim, em sua retaguarda e na direção norte, Morgoth não tinha inimigos; e por essas vias às vezes saíam espiões, que por caminhos tortuosos entravam em Beleriand. E, no desejo supremo de semear o medo e a desunião entre os eldar, Morgoth ordenou aos orcs que capturassem vivo qualquer um que pudessem e o trouxessem amarrado até Angband. E alguns ele amedrontou tanto com o terror de seus olhos, que eles não precisavam mais de correntes, mas viviam apavorados, fazendo sua vontade onde quer que estivessem. Assim, Morgoth ficou sabendo grande parte de tudo o que havia acontecido desde a rebelião de Fëanor; e se alegrou, vendo ali a semente de muitas dissensões entre seus inimigos

Quando quase cem anos haviam decorrido desde a Dagor Aglareb, Morgoth tentou apanhar Fingolfin desprevenido (pois sabia da vigilância de Maedhros); e despachou um exército para as regiões brancas do norte. Eles se voltaram para o oeste e depois para o sul, chegando às costas do Estuário de Drengist pela rota que Fingolfin seguira a partir do Gelo Atritante.

Assim, invadiriam o reino de Hithlum pelo oeste, mas foram vislumbrados a tempo, e Fingon se abateu sobre eles entre as colinas no limite do Estuário, empurrando para o mar a maioria dos orcs. Essa não foi incluída entre as grandes batalhas, pois os orcs não estavam em grande número, e somente parte da população de Hithlum lutou ali. A partir daí, porém, houve paz por muitos anos, sem nenhum ataque direto proveniente de Angband, pois Morgoth percebia agora que os orcs desassistidos não eram inimigos à altura dos noldor; e buscou outra idéia em seu íntimo.

Passados mais de cem anos, Glaurung, o primeiro dos urulóki, os dragões de fogo do norte, saiu pelos portões de Angband à noite. Ele ainda era jovem e mal havia atingido metade de seu tamanho, pois longa e demorada é a vida dos dragões, mas os elfos fugiram diante dele para as Ered Wethrin e Dorthonion, amedrontados. E ele destruiu os campos de Ard-galen. Então, Fingon, príncipe de Hithlum, cavalgou em sua direção com arqueiros igualmente montados e o cercou com uma roda de velozes cavaleiros. E, ainda não tendo desenvolvido plenamente sua couraça, Glaurung não conseguiu suportar seus dardos e fugiu de volta para Angband, sem voltar a sair por muitos anos. Fingon foi alvo de grandes louvores, e os noldor se alegraram; pois poucos previam o pleno significado e a ameaça desse novo ser. Morgoth porém estava insatisfeito por Glaurung se ter mostrado tão prematuramente. Depois dessa derrota, houve a Longa Paz de quase duzentos anos. Em todo esse tempo, não houve senão contendas nas fronteiras, e toda a Beleriand prosperava e enriquecia. Com a proteção da guarda de seus exércitos no norte, os noldor construíram suas moradas e suas torres, e criaram muitas coisas lindas nessa época, além de poemas, histórias e livros de tradições. Em muitas partes da região, os noldor e os sindar fundiram-se num só povo, falando o mesmo idioma; embora permanecesse entre eles a diferença de que os noldor tinham maior poder físico e mental, sendo os maiores guerreiros e sábios, sabendo construir com pedras e sendo amantes das encostas das colinas e das vastidões. Já os sindar tinham as vozes mais belas, eram mais talentosos na música, a exceção de Maglor, filho de Fëanor, e adoravam os bosques e as margens dos nos. E alguns elfos-cinzentos ainda perambulavam à vontade, sem residência fixa, e cantavam enquanto caminhavam.
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Manwë Súlimo
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Ter Jun 29 2010, 11:40

CAPÍTULO XIV
De Beleriand e seus reinos



Esta é a descrição das terras para onde os noldor foram, no norte das regiões acidentais da Terra-média, nos tempos antigos; e aqui também se relata como os comandantes dos eldar mantiveram suas terras e o sítio contra Morgoth depois da Dagor Aglareb, a terceira batalha nas Guerras de Beleriand.

Na região norte do mundo, Melkor em épocas passadas havia erguido as Ered Engrin, as Montanhas de Ferro, como uma cerca para sua cidadela de Utumno; e elas ficavam junto às fronteiras do frio eterno, formando uma enorme curva de leste para oeste. Atrás das muralhas das Ered Engrin, no ocidente, onde a curva se voltava para o norte, Melkor construiu outra fortaleza, como defesa contra o ataque que poderia vir de Valinor; e, quando voltou à Terramédia, como foi dito, instalou residência nos intermináveis calabouços de Angband, os Infernos de Ferro; pois, na Guerra dos Poderes, em sua pressa de derrotá-la em seu imponente reduto de Utumno, os Valar não destruíram Angband totalmente, nem investigaram o que havia em suas profundezas. Por baixo das Ered Engrin, Melkor abriu um túnel enorme, que saía ao sul das montanhas; e ali construiu um portão fortíssimo. Acima desse portão, porém, e atrás dele até atingir as montanhas, forjou as torres trovejantes das Thangorodrim, que eram feitas de cinzas e escória de suas fornalhas subterrâneas, e também da imensa quantidade de entulho da abertura dos túneis. Essas torres eram negras, desoladas e extremamente altas. De seu cume saía fumaça, escura e repugnante para os céus do norte. Diante dos portões de Angband, a imundície e a devastação se espalhavam na direção sul por muitos quilômetros pela planície de Ard-galen. No entanto, após a chegada do Sol, brotou ali um capim verdejante e, enquanto Angband estava sitiada com seus portões fechados, havia plantas verdes até mesmo entre os fossos e as rochas quebradas diante das portas do inferno.

A oeste das Thangorodrim ficava Hísilómë, a Terra da Névoa, pois assim foi chamada pelos noldor em sua própria língua em virtude das nuvens que Morgoth para lá enviou durante seu primeiro acampamento. Tornou-se Hithlum no idioma dos sindar que habitavam aquelas regiões. Foi uma bela terra enquanto durou o Cerco a Angband, embora seu ar fosse frio, e o inverno, gelado. No lado ocidental. Seus limites eram as Ered Lómin, as Montanhas Ressoantes, que acompanhavam de perto a linha do litoral; e, no lado oriental e sul, sua fronteira era a grande curva das Ered Wethrin, as Montanhas Sombrias, que davam para Ardgalen e o Vale do Sirion.

Fingolfin e Fingon, seu filho, detiveram a posse de Hithlum, e a maior parte do povo de Fingolfin veio habitar Mithrim, perto das margens do grande lago. A Fingon foi destinada Dorlómin, que ficava a oeste das Montanhas de Mithrim. Contudo, sua principal fortaleza era em Eithel Sirion, a leste das Ered Wethrin, de onde podia vigiar Ard-galen. E sua cavalaria percorria aquela planície até chegar à sombra das Thangorodrim; pois, de uns poucos, seus cavalos se haviam multiplicado rapidamente, e a pastagem de Ard-galen era verde e abundante.

Desses cavalos, muitos dos reprodutores vinham de Valinor, e foram doados a Fingolfin por Maedhros em compensação por suas perdas, por terem sido trazidos nos barcos até Losgar.

A oeste de Dor-lómin, do outro lado das Montanhas Ressoantes, que se embrenhavam na terra ao sul do Estuário de Drengist, ficava Nevrast, que significa a Costa de Cá no idioma sindarin.

Esse nome se aplicava de início a todas as regiões costeiras ao sul do Estuário, mas, depois, indicava somente o território cujo litoral se situava entre Drengist e o Monte Taras. Ali, por muito tempo foi o reino de Turgon, o Sábio, filho de Fingolfin, limitado pelo mar, pelas Ered Lómin e pelas colinas que davam continuidade às muralhas das Ered Wethrin na direção do oeste, de Ivrin ao Monte Taras, que ficava num promontório. Alguns achavam que Nevrast pertencia mais a Beleriand do que a Hithlum, pois era uma terra mais amena, irrigada pelos ventos úmidos do mar e abrigada dos frios ventos do norte que sopravam sobre Hithlum. Era uma terra protegida, cercada por montanhas e grandes penhascos litorâneos mais altos do que as planícies no interior; e dali não corria nenhum rio No centro de Nevrast havia uma grande lagoa, sem margens definidas, por ser cercada de vastos pântanos. Linaewen era o nome dessa lagoa, em virtude da multidão de aves que ali habitava, daquelas espécies que adoram juncos altos e águas rasas. Quando da chegada dos noldor, muitos dos elfos-cinzentos viviam em Nevrast, perto do litoral, e em especial ao redor do Monte Taras no sudoeste, pois àquele local Ulmo e Ossë costumavam vir outrora. Toda essa gente aceitou Turgon como seu senhor, e a fusão dos noldor e dos sindar se realizou mais cedo ali; e Turgon morou muito tempo naquele palácio que ele chamou de Vinyamar, aos pés do Monte Taras, junto ao mar.

Ao sul de Ard-galen, o vasto planalto chamado Dorthonion cobria trezentos quilômetros de leste a oeste. Nele havia imensos pinheirais, especialmente ao norte e a oeste. Por meio de suaves encostas a partir da planície, ele se erguia até um platô árido e elevado, onde existiam muitos lagos circulares aos pés de picos nus, cujos cumes eram mais altos do que os das Ered Wethrin; mas, na direção sul na qual era voltado para Doriath, ele caía, abrupto, em precipícios apavorantes. Das encostas setentrionais de Dorthonion, Angrod e Aegnor, filhos de Finarfm, contemplavam os campos de Ard-galen, e eram vassalos de seu irmão Finrod, senhor de Nargothrond. Sua população era pequena, pois a terra era árida, e as grandes alturas por trás deles eram consideradas um baluarte que Morgoth não procuraria atravessar sem um bom motivo.

Entre Dorthonion e as Montanhas Sombrias, havia um vale estreito, cujas paredes íngremes eram cobertas de pinheiros. Mas o vale em si era verde, pois o Rio Sirion passava por ele, fluindo para Beleriand. Finrod guardava o Passo do Sirion e, sobre a ilha de Tol Sirion, no meio do rio, construiu um imponente posto de observação, Minas Tirith. Contudo, depois que Nargothrond estava pronta, transferiu a responsabilidade por Minas Tirith principalmente a seu irmão, Orodreth.

Ora, o belo e vasto país de Beleriand cobria as duas margens do grande Rio Sirion, renomado em versos, que nascia em Eithel Sirion e margeava Ard-galen, antes de mergulhar na passagem, avolumando-se cada vez mais com os córregos das montanhas. Dali ele seguia para o sul por cerca de seiscentos e cinqüenta quilômetros, recebendo as águas de muitos afluentes, até que, com um tremendo caudal, atingia suas várias fozes e seu delta arenoso, na Baía de Balar. E, acompanhando o Sirion de norte a sul, à sua margem direita em Beleriand Ocidental, havia a Floresta de Brethil, entre o Sirion e o Teiglin, e depois o reino de Nargothrond, entre o Teiglin e o Narog. E o Rio Narog nascia nas quedas de Ivrin, na face meridional de Dor-lómin, percorrendo cerca de quatrocentos quilômetros antes de se juntar ao Sirion em Nan-tathren, a Terra dos Salgueiros. Ao sul de Nantathren havia uma região de pradarias repletas de flores, habitada por pouca gente. E mais adiante ficavam os pântanos e as ilhas de junco das Fozes do Sirion, bem como as areias de seu delta, desertas de seres vivos a não ser pelas aves marinhas.

No entanto, o reino de Nargothrond também se estendia a oeste do Narog até o Rio Nenning, que alcançava o mar em Eglarest; e Finrod passou a ser o senhor supremo de todos os elfos de Beleriand entre o Sirion e o mar, à exceção apenas da região das Falas. Ali moravam aqueles sindar que ainda adoravam barcos, e Círdan, o Armador, era seu senhor. Entre Círdan e Finrod havia, porém, amizade e aliança; e, com o auxílio dos noldor, os portos de Brithombar e Eglarest foram reconstruídos. Por trás de suas imponentes muralhas, tornaram-se belas cidades e ancoradouros, com cais e píeres de pedra. No cabo a oeste de Eglarest, Finrod ergueu a torre de Barad Nimras para vigiar o mar ocidental, embora desnecessariamente, como acabou se revelando. Pois, em absolutamente nenhum momento Morgoth tentou construir embarcações ou fazer guerra pelo mar. A água, todos os seus servos evitavam; e ao mar nenhum deles se disporia a ir, a não ser em caso de tremenda necessidade. Com o auxílio dos elfos dos Portos, algumas pessoas de Nargothrond construíram novos barcos e navegaram para examinar a grande Ilha de Balar, pensando em preparar ali um último refúgio, se o pior acontecesse. Mas não era seu destino que um dia viessem a habitá-la.

Era, portanto, o reino de Finrod de longe o maior, embora ele fosse o mais novo dos grandes senhores dos noldor, Fingolfin, Fingon, Maedhros e Finrod Felagund. Mas Fingolfin era considerado o senhor supremo de todos os noldor, ficando Fingon em segundo lugar, embora seu reino se restringisse ao território setentrional de Hithlum. Seu povo era, porém, o mais resistente e corajoso, mais temido pelos orcs e mais odiado por Morgoth.

À margem esquerda do Sirion ficava Beleriand Oriental, que na sua maior largura media quinhentos quilômetros, do Sirion até o Gelion e às fronteiras de Ossiriand. Em primeiro lugar, entre o Sirion e o Mindeb, ficava a terra deserta de Dimbar, à sombra dos picos de Crissaegrim, morada de águias. Entre o Mindeb e o curso superior do Esgalduin ficava a terra de ninguém de Nan Dungortheb; e essa região era impregnada de medo, pois, de um dos lados, o poder de Melian fechava o marco setentrional de Doriath, mas, do outro, os abruptos precipícios das Ered Gorgoroth, as Montanhas do Terror, despencavam das alturas de Dorthonion. Para ali, como foi relatado anteriormente, Ungoliant fugira dos açoites dos balrogs; e ali ela viveu por um tempo, enchendo os desfiladeiros com sua escuridão fatal; e ali ainda, quando ela se foi, sua prole abominável se escondia e tecia suas teias nefastas. E os fios da água que escorriam das Ered Gorgoroth eram contaminados e perigosos, pois o coração de quem os provasse se enchia de sombras de loucura e desespero. Todos os seres vivos evitavam essa terra; e os noldor passavam por Nan Dungortheb somente em caso de grande necessidade, por trilhas próximas à fronteira de Doriath e à maior distância possível das colinas mal-assombradas. Esse caminho fora aberto muito antes, na época em que Morgoth ainda não voltara a Terra-média. E quem seguisse por ele iria para o leste até Esgalduin, onde, no tempo do Cerco, ainda havia a ponte de pedra de Iant Iaur. Dali, o viajante atravessaria Dor Dínen, a Terra Silenciosa, e, cruzando os Arossiach (que significa os Vaus do Aros), chegaria às fronteiras setentrionais de Beleriand, onde viviam os filhos de Fëanor.

Para o sul, ficavam os bosques protegidos de Doriath, morada de Thingol, o Rei Oculto, em cujo reino ninguém entrava a não ser que ele quisesse Sua parte menor e mais ao norte, a Floresta de Neldoreth, tinha como limite leste e sul o escuro Rio Esgalduin, que fazia uma curva para o oeste no meio do terri-tório. E entre o Aros e o Esgalduin situavam-se os bosques mais densos e maiores de Region. Na margem sul do Esgalduin, onde ele fazia a curva para o oeste na direção do Sirion, localizavam-se as Grutas de Menegroth; e Doriath inteira estava a leste do Sirion, a não ser por uma estreita região de mata entre o encontro do Teiglin com o Sirion e os Alagados do Crepúsculo. O povo de Doriath chamava esse bosque de Nivrim, o Marco Ocidental. Cresciam ali carvalhos enormes, e a região também estava incluída no Cinturão de Melian, para que alguma parte do Sirion, que ela amava em reverência a Ulmo, ficasse inteiramente sob o poder de Thingol.

Na região sudoeste de Doriath, onde o Aros desembocava no Sirion, havia grandes lagoas e pântanos dos dois lados do rio, que ali suspendia seu curso e se perdia em muitos canais. Essa região era chamada de Aelin-uial, os Alagados do Crepúsculo, pois eles estavam permanentemente envoltos em névoa, e o encantamento de Doriath pairava sobre eles. Ora, toda a região setentrional de Beleriand apresentava uma inclinação para o sul até esse ponto, e ali por certa extensão era plana, o que detinha o curso do Sirion. Entretanto, ao sul dos Aelinuial, havia uma queda acentuada e súbita. E todos os campos inferiores do Sirion eram separados dos superiores por essa queda, a qual, para quem estivesse olhando do sul para o norte parecia ser uma cadeia interminável de colinas se estendendo de Eglarest para além do Narog, no oeste, até Amon Ereb, no leste, podendo ser vista ao longe, do Gelion. O Narog atravessava essas colinas num profundo desfiladeiro e descia em corredeiras, mas não apresentava cascatas, e em sua margem ocidental a terra subia até os grandes planaltos cobertos de árvores de Taur-en-Faroth. No lado ocidental dessa ravina, onde o riacho Ringwil, curto e turbulento, se lançava direto no Narog vindo dos Altos Faroth, Finrod fundou Nargothrond.

Porém, cerca de cento e vinte e cinco quilômetros a leste da ravina de Nargothrond, o Sirion caía do norte numa catarata majestosa, a jusante dos Alagados, e então mergulhava subitamente por baixo da terra em túneis imensos, escavados pelo peso da queda das águas. E voltava a surgir a céu aberto quinze quilômetros ao sul, com grande ruído e vapor através de arcos rochosos no sopé das colinas que eram chamadas de Portões do Sirion.
Essa queda divisória era chamada de Andram, a Longa Muralha, de Nargothrond até Ramdal, o Fim da Muralha, em Beleriand Oriental. A leste, porém, ela se tornava cada vez menos íngreme, pois o vale do Gelion apresentava uma inclinação constante para o sul, e o Gelion não tinha cataratas nem corredeiras em todo o seu curso, mas sempre fora mais rápido que o Sirion.

Entre Ramdal e o Gelion, havia apenas uma colina de grande extensão e de encostas suaves, mas que parecia ser mais imponente do que era, por estar isolada. E essa colina se chamava Amon Ereb. No Amon Ereb morreu Denethor, senhor dos nandor que moravam em Ossiriand e que marcharam em auxílio a Thingol contra Morgoth, na época em que os orcs atacaram pela primeira vez em grande número e destruíram a paz cheia de estrelas de Beleriand. Também nessa colina Maedhros morou após a grande derrota. Contudo, ao sul da Andram, entre o Sirion e o Gelion, havia uma terra bravia de florestas emaranhadas nas quais ninguém entrava, a não ser aqui e ali alguns elfos-escuros a perambular. Chamava-se Taur-im-Dunaith, a Floresta entre os Rios.

O Gelion era um grande rio. Nascia de duas fontes e, de início, tinha dois braços: o Pequeno Gelion, que descia da Colina de Himring, e o Grande Gelion, que vinha do Monte Rerir. Do encontro dos dois braços, ele seguia na direção sul por cerca de duzentos quilômetros antes de receber seus afluentes. E, antes de chegar ao mar, era duas vezes mais longo do que o Sirion, embora menos largo e com menor volume de água, pois chovia mais em Hithlum e Dorthonion, de onde o Sirion extraía suas águas, do que no leste. Das Ered Luin desciam seis afluentes do Gelion: Ascar (que mais tarde recebeu o nome de Rathlóriel), Thalos, Legolin, Brilthor, Duilwen e Adurant, rios velozes e turbulentos, que desciam das montanhas íngremes. E entre o Ascar ao norte e o Adurant ao sul, assim como entre o Gelion e as Ered Luin, ficava a região remota e verdejante de Ossiriand, a Terra dos Sete Rios. Ora, a certa altura, quase na metade de seu curso, a corrente do Adurant se dividia para depois voltar a se unir. E a ilha que suas águas cercavam era chamada de Tol Galen, a Ilha Verde. Ali Beren e Lúthien foram morar depois de seu retorno.

Em Ossiriand, sob a proteção dos rios, habitavam os elfos-verdes. É que, depois do Sirion, Ulmo amava o Gelion mais do que quaisquer outras águas do mundo ocidental. A experiência em florestas dos elfos de Ossiriand era tal, que um desconhecido poderia passar por suas terras de uma extremidade a outra sem ver nenhum deles. Na primavera e no verão, vestiam-se de verde, e o som de seus cantos podia ser ouvido do outro lado do Gelion, motivo pelo qual os noldor denominaram a região Lindon, a Terra da Música, e as montanhas mais além chamaram de Ered Lindon, pois as viram pela primeira vez de Ossiriand.

A leste de Dorthonion, as fronteiras de Beleriand eram mais suscetíveis a um ataque; e somente colinas de pouca altura protegiam o vale do Gelion de ataques do norte. Naquela região, na Fronteira de Maedhros e nas terras na retaguarda, moravam os filhos de Fëanor com um povo numeroso; e seus cavaleiros passavam com freqüência pela extensa planície setentrional, Lothlann, a vasta e deserta, a leste de Ard-galen, para que Morgoth não tentasse nenhuma investida na direção de Beleriand Oriental. A principal fortaleza de Maedhros ficava sobre a Colina Himring, o Gelo-eterno; e ela era larga, desprovida de árvores, com o topo plano, cercado de muitos montes menores. Entre Himring e Dorthonion, havia uma passagem, muitíssimo íngreme do lado ocidental, a Passagem de Aglon, que servia como portão para Doriath; e um vento implacável sempre soprava por ela, vindo do norte. Celegorm e Curufin, porém, fortificaram Aglon e mantiveram com forças numerosas sua posse, bem como toda a terra de Himlad, ao sul, entre o Rio Aros, que nascia em Dorthonion, e seu afluente Celon, que vinha de Himring.

Entre os braços do Gelion ficava o posto de vigia de Maglor; e ali, a certa altura, as colinas simplesmente desapareciam. Foi por ali que os orcs entraram em Beleriand Oriental, antes da Terceira Batalha. Por esse motivo, os noldor mantinham um grande contingente de cavalaria nas planícies, naquele local. E o povo de Caranthir fortificou as montanhas a leste da Falha de Maglor. Ali, o Monte Rerir, tendo ao seu redor muitos outros morros menores, se destacava da cadeia principal das Ered Lindon, na direção oeste. E, no ângulo formado entre o Rerir e as Ered Lindon, havia um lago, sombreado por montanhas de todos os lados, à exceção do sul.

Era o Lago Helevom, profundo e escuro; e às suas margens Caranthir tinha sua morada. No entanto, todo o vasto território situado entre o Gelion e as montanhas, e entre o Rerir e o Rio Ascar, era chamado pelos noldor de Thargelion, que significa a Terra para Além do Gelion, ou Dor Caranthir, a Terra de Caranthir; e foi ali que os noldor vieram a conhecer os anões.

Contudo, Thargelion era antes chamada pelos elfos-cinzentos de Talath Rhúnen, Vale Oriental.

Assim, os filhos de Fëanor sob o comando de Maedhros eram os senhores de Beleriand Oriental, mas sua gente naquela época se concentrava principalmente no norte daquela região, e na direção sul somente cavalgavam para caçar nas matas. Era lá, porém, que Amrod e Amras tinham sua morada; e raramente vinham para o norte enquanto o Cerco durou. E ali também outros senhores élficos costumavam às vezes cavalgar, vindo mesmo de muito longe, pois a região era selvagem mas belíssima. Desses, Finrod Felagund era o que vinha com maior freqüência, pois sentia enorme prazer em passear, tendo chegado até mesmo a Ossiriand e conquistado a amizade dos elfos-verdes. Nenhum dos noldor, contudo, jamais ultrapassou as Ered Lindon, enquanto durou seu reinado. E poucas notícias, geralmente atrasadas, chegavam a Beleriand sobre o que acontecia nas regiões do leste.




CAPÍTULO XV
Dos noldor em Beleriand



Já se relatou como, com a orientação de Ulmo, Turgon de Nevrast descobriu o vale oculto de Tumladen; e este (como mais tarde se soube) ficava a leste do curso superior do Sirion, num círculo de montanhas altas e escarpadas, aonde não chegava nenhum ser vivo à exceção das águias de Thorondor. Existia, porém, um caminho nas profundezas, por baixo das montanhas, escavado nas trevas do mundo, por águas que fluíam para se juntar à correnteza do Sirion. E esse caminho Turgon descobriu, e chegou assim à verde planície em meio às montanhas, e viu a colina-ilha de pedra dura e lisa que ficava ali; pois o vale havia sido outrora um lago enorme.

Turgon soube, então, que havia encontrado o local de seus desejos, e decidiu construir ali uma bela cidade, um monumento em memória de Tirion sobre Túna. Voltou porém para Nevrast e lá permaneceu sossegado, embora sempre pensando num modo de realizar seu projeto.

Ora, depois da Dagor Aglareb, a inquietação que Ulmo instilara em seu coração lhe voltou, e Turgon convocou muitos dos mais resistentes e mais habilidosos de seu povo, levou-os em segredo para o vale oculto, e ali começaram a construção da cidade que Turgon havia imaginado. Montaram também guarda em toda a sua volta, para que ninguém que viesse de fora pudesse deparar com seu trabalho, e o poder de Ulmo que corria nas águas do Sirion os protegia. Turgon, porém, ainda residia na maior parte do tempo em Nevrast até que afinal a cidade ficou pronta, após cinqüenta e dois anos de faina em segredo. Diz-se que Turgon a denominou Ondolindë, na fala dos elfos de Valinor, a Rocha da Música da Água, pois havia nascentes na colina; mas no idioma sindarin o nome foi mudado, tornando-se Gondolin, a Rocha Oculta. Preparou-se então Turgon para partir de Nevrast e abandonar seus palácios em Vinyamar à beira-mar. E ali Ulmo mais uma vez veio até ele e lhe falou.

- Agora irás finalmente para Gondolin, Turgon; e manterei meu poder sobre o Vale do Sirion, e sobre todas as águas que existem ali, para que ninguém se dê conta de tua viagem. Ninguém tampouco encontrará a entrada secreta contra a tua vontade. De todos os reinos dos eldalië, Gondolin será o que resistirá mais tempo a Melkor. Não tenhas, porém, amor em excesso pela obra de tuas mãos e pelas invenções de teu coração. Lembra-te que a verdadeira esperança dos noldor está no oeste e vem do Mar.

E Ulmo avisou a Turgon que ele também estava sujeito à Condenação de Mandos, a qual Ulmo não tinha nenhum poder para eliminar.

- Assim, pode acontecer que a maldição dos noldor também te descubra antes do fim, e que a traição surja dentro de tuas muralhas. Então, elas correrão perigo de incêndio. No entanto, se esse perigo chegar muito perto, da própria Nevrast, virá alguém te avisar; e dele, superando a destruição e o fogo, nascerá a esperança para elfos e homens. Deixa. Portanto, nesta casa armas e uma espada para que em anos futuros ele as possa encontrar e, assim, tu o reconheças e não sejas enganado. - E Ulmo determinou a Turgon de que tipo e tamanho deveriam ser o elmo, a cota de malha e a espada que ele ali deixaria.

Retornou Ulmo, então, para o mar, e Turgon despachou todo o seu povo, que chegou a compor um terço dos noldor da combativa de Fingolfin e uma multidão ainda maior dos sindar. E eles desapareceram, uma companhia após a outra, em segredo, sob as sombras elas Ered ethrin, chegando a Gondolin sem serem vistos. E ninguém soube dizer para onde haviam ido. Em último lugar, Turgon se levantou e partiu com sua família em silêncio pelas colinas, entrando pelos portões nas montanhas; e estes se fecharam depois de sua passagem.

Por muitos e muitos anos, dali em diante, ninguém entrou nesse lugar, à exceção de Húrin e Huor. E o povo de Turgon nunca mais voltou a sair até o Ano da Lamentação, mais de trezentos e cinqüenta anos depois. Contudo, por trás do círculo das montanhas, o povo de Turgon cresceu e prosperou. E dedicavam seus talentos ao trabalho incessante, de tal modo que Gondolin sobre o Amon Gwareth se tomou realmente bela e digna de ser comparada até mesmo a Tirion élfica, do outro lado do mar. Altas e brancas eram suas muralhas; bem-feitas, suas escadarias; e forte e elevada, a Torre do Rei. Dali, jorravam fontes cintilantes, e nos pátios de Turgon havia imagens das Árvores de outrora que o próprio Turgon criara com sua habilidade de elfo. E a Árvore que ele fez de ouro chamava-se Glingal; e a Árvore cujas flores ele fez de prata chamava-se Belthil. No entanto, mais bela do que todas as maravilhas de Gondolin era Idril, filha de Turgon, que foi chamada de Celebrindal, a Pés-de-prata, cujos cabelos eram como o ouro de Laurelin antes da chegada de Melkor. Assim, Turgon muito tempo viveu em bem-aventurança; mas Nevrast permaneceu desolada, deserta de seres vivos até a destruição de Beleriand.

Ora, enquanto a cidade de Gondolin estava sendo construída em segredo, Finrod Felagund trabalhava nas profundezas de Nargothrond; mas Galadriel, sua irmã, morava, como já foi relatado, no reino de Thingol, em Doriath. E às vezes Melian e Galadriel conversavam sobre Valinor e a felicidade de antigamente. Contudo, além da hora negra da morte das Árvores, Galadriel se recusava a ir, e sempre se calava.

- Há alguma desgraça que paira sobre você e sua gente – disse Melian um dia. - Isso eu posso ver em você, mas tudo o mais permanece oculto. Nem por visão, nem por pensamento, consigo perceber nada do que ocorreu ou ocorre no oeste: uma sombra encobre toda a terra de Aman e se estende para além, por sobre o mar. Por que você não quer me dizer mais?

- Essa desgraça ficou no passado – disse Galadriel. - E eu acabaria com a alegria que aqui nos resta, e não é perturbada pela lembrança. E talvez venha a ocorrer desgraça suficiente no futuro, embora a esperança ainda pareça brilhar.

- Não acredito que os noldor tenham vindo como mensageiros dos Valar, como se dizia de início – disse Melian, olhando nos olhos de Galadriel. - Não acredito, mesmo tendo eles chegado na exata hora de nossa necessidade. Pois eles nunca falam nos Valar, nem seus senhores supremos trouxeram nenhuma mensagem a Thingol, fosse de Manwë, de Ulmo, ou mesmo de Olwë, o irmão do Rei, e de sua própria gente que se pôs ao mar Por que motivo, Galadriel, foi o nobre povo dos noldor expulso de Aman como exilados? Ou que mal jaz no íntimo dos filhos de Fëanor, para que sejam tão arrogantes e cruéis? Não estou chegando perto da verdade?

- Perto – respondeu Galadriel – só que não fomos expulsos, mas viemos por vontade própria, e contra o desejo dos Valar. E correndo enorme perigo e a despeito dos Valar, viemos com este objetivo: nos vingarmos de Morgoth e recuperar o que ele roubou.

Falou, então, Galadriel a Melian a respeito das Silmarils e do assassinato do Rei Finwë em Formenos. Mesmo assim, não disse palavra sobre o Juramento, sobre o fratricídio ou sobre a queima dos barcos em Losgar.

- Agora, muito você me conta, e ainda mais eu percebo – disse Melian, entretanto. - Uma escuridão você desejaria lançar sobre o longo trajeto de Tirion até aqui, mas vejo o mal ali, mal do qual Thingol deveria saber para se orientar.

- Talvez – disse Galadriel – mas não de mim.

E Melian não tocou mais nesses assuntos com Galadriel; mas contou ao Rei Thingol tudo o que ouvira a respeito das Silmarils.

- É uma questão importante – disse ela – na realidade, mais importante do que os próprios noldor conseguem compreender. Pois a Luz de Aman e o destino de Arda estão agora presos a essas gemas, a obra de Fëanor, que já se foi. Elas não serão recuperadas, antecipo, por nenhum poder dos eldar; e o mundo será destruído em batalhas que estão por vir antes que elas sejam arrancadas das mãos de Morgoth. Veja bem! Fëanor eles assassinaram, e muitos outros, suponho. Mas a primeira de todas as mortes que provocaram e que ainda irão provocar foi a de Finwë, seu amigo. Morgoth matou-o antes de fugir de Aman.

Calado então ficou Thingol, dominado pela dor e pelos maus presságios; mas, finalmente, falou.

- Agora, enfim, entendo a vinda dos noldor do oeste, com a qual antes muito me admirei. Não foi em nosso auxílio que vieram ao não ser por acaso; pois os que permanecem na Terra-média os Valar deixam que recorram aos meios ao seu alcance, até na extrema necessidade. Vieram os noldor por vingança e em busca de compensação por sua perda. Mesmo assim, ainda mais fiéis serão eles como aliados contra Morgoth, com quem agora não se pode pensar que algum dia venham a entrar em acordo.

- É verdade que vieram por esses motivos – respondeu, porém, Melian. - Mas também por outros. Cuidado com os filhos de Fëanor! A sombra da ira dos Valar paira sobre eles. E eles agiram mal, percebo eu, tanto em Aman quanto com seu próprio povo. Uma mágoa que está apenas adormecida jaz entre os príncipes dos noldor.

- E que diferença isso me faz? - retrucou Thingol. - De Fëanor, só ouvi a história, que o descreve como realmente destemido. De seus filhos, pouco ouço o que seja do meu agrado.

Contudo, eles podem se revelar os inimigos mais letais de nosso inimigo.

- Suas espadas e seus conselhos sempre terão dois gumes – disse Melian, e daí em diante não mais tocou nesse assunto.

Não demorou muito para que começassem a circular histórias a respeito dos feitos dos noldor anteriores à chegada a Beleriand. Conhecida é sua procedência, e a terrível verdade foi aumentada e envenenada com mentiras; mas os sindar ainda eram incautos e confiantes em palavras; e (como bem se pode imaginar) Morgoth os escolheu para a primeira investida de sua maldade, pois eles não o conheciam. E Círdan, ao ouvir essas histórias sinistras, ficou perturbado. Pois era prudente e percebeu logo que, verdadeiras ou falsas, elas eram espalhadas àquela altura por rancor, que ele atribuía aos príncipes dos noldor, em decorrência da inveja entre suas Casas. Enviou, portanto, mensageiros a Thingol para relatar tudo o que ouvira.

Por acaso, naquela ocasião, os filhos de Finarfin eram mais uma vez hóspedes de Thingol, pois desejavam ver a irmã, Galadriel. Thingol, então, muito alterado, dirigiu-se a Finrod, com raiva.

- Você agiu mal comigo, parente, ao ocultar de mim questões tão importantes. Pois eu agora soube de todos os feitos nefastos dos noldor.

- Que mal lhe fiz, senhor? - perguntou-lhe Finrod – Ou que feito nefasto os noldor perpetraram em seu reino para afligi-lo? Nem contra vossa majestade nem contra nenhum indivíduo de seu povo eles agiram mal ou pretenderam o mal.

- Eu me admiro que você, filho de Eärwen – disse Thingol -, chegue à mesa de parentes com as mãos ensangüentadas da chacina dos parentes de sua mãe; e ainda assim não diga nada para se defender, nem procure pedir perdão!

Finrod então ficou muito atrapalhado, mas silenciou, porque não poderia se defender a não ser fazendo acusações aos outros príncipes dos noldor; e isso ele não queria fazer diante de Thingol. No entanto, no coração de Angrod, a lembrança das palavras de Caranthir voltou a crescer em ressentimento, e ele protestou.

- Senhor, não sei que mentiras lhe contaram, nem sua procedência. Mas nós não chegamos com as mãos ensangüentadas. Viemos sem nenhuma culpa, a não ser talvez a da loucura de dar ouvidos às palavras do cruel Fëanor, e de nos inebriarmos com elas como que com o vinho, efeito que passou com a mesma rapidez. Nenhum mal fizemos em nosso percurso, mas sofremos, sim, enorme violência, e a perdoamos. Por esse motivo, somos chamados de leva-etraz e de possíveis traidores dos noldor. Uma inverdade, como o senhor sabe, pois em nossa lealdade nos calamos diante do senhor e, assim, atraímos sua ira. Agora, porém, não aceitaremos mais essas acusações, e a verdade o senhor saberá.

Então, Angrod falou com rancor contra os filhos de Fëanor, relatando o Fratricídio de Alqualondë, a Condenação de Mandos e a queima dos barcos em Losgar.

- Por que nós, que suportamos o Gelo Atritante, deveríamos aceitar a pecha de traidores e assassinos de nossos parentes?

- Mas a sombra de Mandos também paira sobre vocês – disse Melian. Thingol, porém, ficou muito tempo em silêncio antes de falar.

- Vão agora! Pois meu coração está revoltado. Mais tarde, podem voltar, se quiserem; pois não fecharei minhas portas para vocês, parentes, que foram enredados num mal para o qual não contribuíram. Com Fingolfin e seu povo também manterei a amizade, pois já pagaram caro pelo mal que fizeram. E em nosso ódio ao Poder que criou toda essa desgraça, nossas mágoas se perderão. Mas ouçam minhas palavras! Nunca mais chegará a meus ouvidos a língua dos que assassinaram meus parentes em Alqualondë! Nem em todo o meu reino ela poderá ser falada abertamente enquanto durar meu poder. Todos os sindar darão ouvidos à minha ordem de que não falem a língua dos noldor nem respondam a ela. E todos os que a usarem, serão considerados assassinos e impenitentes traidores de parentes.

Partiram então de Menegroth os filhos de Finarfin, pesarosos, percebendo que as palavras de Mandos seriam eternamente verdadeiras, e que nenhum dos noldor que acompanhasse Fëanor poderia escapar à sombra que pairava sobre sua Casa. E ocorreu exatamente o que Thingol dissera. Pois os sindar obedeceram à sua palavra e, dali em diante, em toda a Beleriand, eles se recusaram a usar a língua dos noldor e evitaram aqueles que a falavam em voz alta. Já os Exilados adotaram o idioma sindarin em todos os seus usos correntes, e a alta-fala do oeste era usada apenas pelos senhores dos noldor entre si. Ela sobreviveu, porém, para sempre como a língua da tradição, não importa onde morasse qualquer indivíduo daquele povo.

Aconteceu que Nargothrond ficou pronta (e no entanto Turgon ainda residia nos palácios em Vinyamar), e os filhos de Finarfin lá se reuniram para uma festa. Galadriel veio de Doriath e permaneceu um pouco em Nargothrond. Ora, o Rei Finrod Felagund não tinha esposa, e Galadriel lhe perguntou por que era solteiro. Enquanto ela falava, um presságio ocorreu a Felagund.

- Um juramento eu também farei, e devo ser livre para cumpri-lo e ir para as trevas. Nem nada de meu reino irá durar para que um filho o herde. Diz-se, porém, que até aquela hora pensamentos tão frios não o haviam dominado; pois a verdade era que sua amada fora Amarië dos vanyar, e ela não o acompanhara no exílio.




CAPÍTULO XVI
De Maeglin



Aredhel Ar-Feiniel, a Dama Branca dos noldor, filha de Fingolfin, morava em Nevrast com Turgon, seu irmão, e foi com ele para o Reino Oculto. Cansou-se, porém, da cidade protegida de Gondolin, desejando cada vez mais voltar a cavalgar em território aberto e caminhar nas florestas, como costumava fazer em Valinor. E, quando se passaram duzentos anos desde que Gondolin ficara pronta, Aredhel dirigiu-se a Turgon e pediu permissão para partir. Turgon abominava a idéia de conceder essa permissão e por muito tempo se negou a dá-la. Acabou, porém, cedendo.

- Vá então, se quiser, embora seja contra a minha recomendação. Prevejo que disso virão desgraças tanto para você quanto para mim. Mas vá apenas procurar Fingon, nosso irmão. E os que eu mandar com você deverão voltar para Gondolin o mais rápido possível.

- Sou sua irmã, não sua criada – respondeu-lhe então Aredhel. - E, fora de seu território, farei o que me parecer conveniente. E, se é a contragosto que você me fornece uma escolta, irei sozinha.

- Não lhe dou a contragosto nada do que tenho. Mesmo assim, meu desejo é que ninguém que saiba o caminho até aqui venha a morar fora destas muralhas. E, embora eu confie em você, irmã, confio menos em que outros saibam se manter calados – respondeu Turgon.

E designou três senhores de sua Casa para cavalgar com Aredhel, pedindo-lhes que a levassem a Fingon em Hithlum, se pudessem convencê-la.

- E tenham cuidado – disse ele – pois, embora Morgoth ainda esteja cercado no norte, há muitos perigos na Terra-média, que a Dama desconhece.

Aredhel partiu então de Gondolin; e o coração de Turgon se afligiu com a separação. Mas quando chegaram ao Vau de Brithiach, no Rio Sirion, Aredhel dirigiu-se aos acompanhantes.

- Vamos agora para o sul, não para o norte, pois não quero ir até Hithlum; Meu coração deseja, sim, encontrar os filhos de Fëanor, meus amigos de outrora. - E, como não conseguissem dissuadi-la, viraram para o sul, em obediência a ela, e procuraram ser admitidos em Doriath.

Contudo, os guardas da fronteira lhes negaram acesso. Pois Thingol não admitia que nenhum noldor cruzasse o Cinturão, à exceção de seus parentes da Casa de Finarfin, e menos ainda os que fossem amigos dos filhos de Fëanor. Portanto, os guardas da fronteira falaram com Aredhel.

- Para chegar às terras de Celegorm que a senhora procura, de modo algum é permitido passar pelo território do Rei Thingol. Deverão seguir por fora do Cinturão de Melian, ao sul ou ao norte. O caminho mais rápido é pelas trilhas que vão para o leste a partir de Brithiach, através de Dimbar, e ao longo da fronteira norte desse reino, até passar pela Ponte do Esgalduin e pelos Vaus do Aros, chegando às terras que ficam por trás da Colina de Himring. Acreditamos que é ali que residem Celegorm e Curufin; e pode ser que os encontrem; mas a estrada é perigosa.

Aredhel então deu meia-volta e tentou a estrada perigosa entre os vales mal-assombrados das Ered Gorgoroth e as bordas setentrionais de Doriath. E, à medida que se aproximavam da região nefasta de Nan Dungortheb, os cavaleiros se enredaram em sombras; e Aredhel se afastou da escolta e se perdeu. Muito procuraram por ela, em vão, temendo que tivesse caído em alguma armadilha ou bebido dos riachos envenenados da região; mas as criaturas cruéis de Ungoliant, que moravam nas ravinas, despertaram para persegui-los, e eles mal conseguiram escapar com vida. Quando afinal voltaram e relataram sua história, houve enorme tristeza em Gondolin. E Turgon ficou muito tempo sozinho, suportando em silêncio a dor e a raiva.

Aredhel, porém, tendo procurado em vão seus acompanhantes, seguiu viagem, pois era destemida e valente, como todos os descendentes de Finwë. Manteve-se no caminho e, tendo atravessado o Esgalduin e o Aros, chegou à terra de Himlad, entre o Aros e o Celon, onde Celegorm e Curufin moravam na época, antes de ser rompido o Cerco a Angband. Na ocasião, eles não estavam em casa, pois cavalgavam com Caranthir mais a leste em Thargelion; mas a gente de Celegonn deu-lhe as boas-vindas e pediu que ela ficasse com eles, com honras, até o retorno de seu senhor. Ali, por algum tempo, Aredhel se contentou; e sentiu enorme alegria em perambular em liberdade pelos bosques. No entanto, à medida que o ano ia se alongando e Celegorm não retornava, ela voltou a se sentir inquieta e se habituou a cavalgar sozinha, cada vez mais longe, à procura de novas trilhas e veredas inexploradas. Foi assim que no final do ano aconteceu de Aredhel chegar ao sul de Himlad e atravessar o Celon; e, antes que se desse conta, estava perdida em Nan Elmoth.

Naquele bosque, em eras passadas, Melian caminhara no crepúsculo da Terra-média, quando as árvores eram novas e um encantamento ainda pairava sobre ele. Agora, porém, as árvores de Nan Elmoth eram as mais altas e escuras de toda a Beleriand; e ali o sol nunca penetrava. Ali residia Eöl, que era chamado de elfo-escuro. Outrora, ele pertencera à linhagem de Thingol, mas em Doriath se sentia irrequieto e pouco à vontade; e, quando o Cinturão de Melian circundou a Floresta de Region, onde ele morava, ele fugiu para Nan Elmoth, onde passou a viver nas sombras profundas, apaixonado pela noite e pela penumbra sob as estrelas. Eöl evitava os noldor, considerando-os culpados por Morgoth ter voltado a perturbar a tranqüilidade de Beleriand; mas dos anões ele gostava mais do que qualquer outro elfo de outrora. Com ele, os anões vieram a saber muito do que se passava nas terras dos eldar.

Ora, o trajeto dos anões ao descerem das Montanhas Azuis seguia duas estradas que atravessavam Beleriand Oriental, e a trilha do norte, que se dirigia aos Vaus do Aros, passava perto de Nan Elmoth. Ali Eöl se encontrava com os naugrim e conversava com eles. E, à medida que sua amizade se fortaleceu, ele às vezes se hospedava nas profundas mansões de Nogrod ou de Belegost. Lá aprendeu muito sobre o trabalho com metais e adquiriu grande habilidade nessa atividade. Criou um metal tão resistente quanto o aço dos anões, mas tão maleável que era possível fazê-la fino e flexível, embora continuasse resistente a qualquer lâmina ou dardo. Deu-lhe o nome de galvorn, pois era negro e brilhante como o azeviche, e Eöl se vestia com ele sempre que saía de Nan Elmoth. Contudo, Eöl, apesar de encurvado em virtude do trabalho de ferreiro, não era nenhum anão, mas um elfo alto, de importante linhagem dos teleri, nobre, embora de expressão carrancuda; e seus olhos viam longe nas sombras e nos cantos escuros. E ocorreu que ele enxergou Aredhel Ar-Feiniel enquanto ela vagava por entre as árvores altas perto dos limites de Nan Elmoth, um brilho branco na terra sombria. Belíssima ela lhe pareceu, e ele a desejou. Lançou, então, seus encantamentos sobre ela para que não conseguisse encontrar saída, mas que se aproximasse cada vez mais de sua morada nas profundezas do bosque Ali ficavam sua oficina de ferreiro, seus salões sombrios e os criados que possuía, silenciosos e reservados como seu senhor. E, quando Aredhel, exausta de caminhar, chegou finalmente às suas portas, ele se revelou, acolheu-a e a conduziu para dentro de sua casa. E ali ela ficou, pois Eöl a tomou como esposa, e demorou muito até que algum parente de Aredhel voltasse a ter notícias dela.

Não se diz que Aredhel se opusesse totalmente a isso, nem que sua vida em Nan Elmoth lhe fosse detestável por muitos anos. Pois, embora em obediência à ordem de Eöl ela devesse evitar a luz do sol, os dois davam longos passeios juntos à luz das estrelas ou da foice da lua.

Ela podia passear sozinha se quisesse, só que Eöl a proibira de procurar os filhos de Fëanor ou qualquer outro noldo. E Aredhel teve um filho seu, nas sombras de Nan Elmoth. No íntimo, ela lhe deu um nome na língua proibida dos noldor, Lómion, que significa Filho do Crepúsculo.

Já o pai não lhe deu nome algum até ele completar doze anos. Chamou-o então de Maeglin, que significa Olhar Penetrante, pois percebia que os olhos do filho iam ainda mais fundo que os seus, e que seu pensamento lia os segredos dos corações que se escondiam por trás da névoa das palavras.

Quando Maeglin atingiu sua plena estatura, em rosto e forma lembrava seus parentes dos noldor, mas em temperamento e raciocínio havia saído ao pai. Falava pouco, a não ser em questões que o interessassem de perto. Além disso, sua voz tinha o poder de comover os que o ouviam e de derrubar os que resistissem a ele. Era alto e tinha cabelos negros; os olhos eram escuros, porém brilhantes e perspicazes, como os olhos dos noldor; e sua pele era branca. Com freqüência, acompanhava Eöl às cidades dos anões a leste das Ered Lindon, e lá aprendia com prazer o que se dispusessem a lhe ensinar, e acima de tudo a arte de encontrar minérios de metais nas montanhas.

Diz-se, porém, que Maeglin amava mais a mãe e, se Eöl estivesse viajando, costumava se sentar muito tempo ao seu lado e escutar tudo o que ela pudesse lhe contar de seu povo e de seus feitos em Eldamar, assim como do poder e valor dos príncipes da Casa de Fingolfin. A tudo isso ele dedicava enorme atenção, mas principalmente ao que ouvia sobre Turgon e sobre ele não ter nenhum herdeiro. Pois Elenwë, sua mulher, perecera na travessia de Helcaraxë, e Idril Celebrindal era sua única filha

O relato dessas histórias despertou em Aredhel o desejo de rever sua gente, e agora ela se espantava com o tédio que sentira da luz de Gondolin, das fontes ao sol, dos verdes gramados de Tumladen ao vento dos céus da primavera. Além disso, muitas vezes ficava sozinha nas sombras, quando o filho e o marido viajavam. Essas histórias também deram origem às primeiras desavenças entre Maeglin e Eöl. Pois, de modo algum quis a mãe revelar a Maeglin onde residia Turgon, nem de que modo se poderia chegar lá. E o filho dava tempo ao tempo, com a certeza de que um dia extrairia dela o segredo, ou talvez conseguisse ler seu pensamento desarmado. Mas antes de fazer isso, desejava observar os noldor e falar com os filhos de Fëanor, seu parente, que não moravam longe dali. Quando declarou sua intenção a Eöl, porém, o pai se enfureceu.

- Você pertence à Casa de Eöl, Maeglin, meu filho, não à dos golodhrim. Toda esta terra pertence aos teleri, e eu não lidarei, nem permitirei que meu filho o faça, com os assassinos de nossa gente, os invasores e usurpadores de nossos lares. Nisso você me obedecerá ou eu o acorrentarei. - E Maeglin não respondeu, mas calou-se com frieza e nunca mais saiu com Eöl.

E Eöl não confiava nele.

Ocorreu que, no solstício de verão, como era seu costume, os anões convidaram Eöl para uma festa em Nogrod; e ele foi. Então Maeglin e a mãe ficaram livres por algum tempo para fazer o que quisessem; e, com freqüência, cavalgavam até as bordas da floresta, em busca do Sol. E cresceu no coração de Maeglin o desejo de deixar Nan Elmoth para sempre.

- Senhora – disse ele a Aredhel. - Vamos partir enquanto temos tempo! Que esperança existe neste bosque para a senhora ou para mim? Estamos aqui num cativeiro, e nenhuma vantagem irei eu aqui encontrar. Pois já aprendi tudo o que meu pai tinha a ensinar ou que os naugrim quiseram me revelar. E se fôssemos procurar Gondolin? A senhora será minha guia; e eu, seu protetor!

Alegrou-se então Aredhel, e olhou com orgulho para o filho. E, dizendo aos criados de Eöl que iam em busca dos Filho de Fëanor, partiram a cavalo pelos limites setentrionais de Nan Elmoth. Ali atravessaram a estreita corrente do Celon, entrando na terra de Himlad; e seguiram até os Vaus do Aros, continuando, assim, para o oeste, ao longo das bordas de Doriath.

Ora, Eöl voltou do leste mais cedo do que Maeglin previra e descobriu que a mulher e o filho haviam partido apenas dois dias antes. Tamanha foi sua ira, que ele seguiu atrás deles mesmo à luz do dia. Ao entrar em Himlad, controlou sua fúria e prosseguiu com cautela, lembrando-se do perigo que corria, pois Celegorm e Curufin eram senhores poderosos que não amavam Eöl nem um pouco; e, além do mais, Curufin tinha temperamento perigoso. Entretanto, os guardas de Aglon observaram a viagem de Maeglin e Aredhel até os Vaus do Aros; e Curufin, percebendo que acontecimentos estranhos estavam em andamento, desceu um pouco ao sul da Passagem e acampou perto dos Vaus.

E, antes de ter percorrido muito terreno em Himlad, Eöl foi cercado pelos cavaleiros de Curufin, sendo levado a seu senhor.

- Que missão traz o elfo-escuro a minha terra? - perguntou, então, Curufin a Eöl. - Questão urgente, talvez, para fazer quem se esconde do Sol sair por aí à luz do dia.

E Eöl, reconhecendo o perigo, refreou as palavras rancorosas que lhe vieram à mente.

- Disseram-me, Senhor Curufin, que meu filho e minha mulher, a Dama Branca de Gondolin, saíram a cavalo para visitá-lo enquanto eu estava fora de casa. Pareceu-me correto juntar-me a eles nessa visita.

Curufin então riu de Eöl.

- Se você lhes tivesse feito companhia, eles poderiam ter encontrado uma acolhida menos calorosa do que .esperavam; mas não importa, porque não era essa sua intenção. Não faz dois dias que atravessaram os Arossiach, partindo velozes para o oeste. Parece-me que você quer me enganar; a menos que você mesmo tenha sido enganado

- Então, talvez o senhor me conceda permissão de seguir em frente e descobrir a verdade sobre esse assunto

- Você tem minha permissão, mas não minha amizade – disse Curufin. - Quanto mais cedo deixar minha terra, mais ficarei satisfeito.

- É bom, senhor Curufin – disse Eöl, então, montando em seu cavalo -, encontrar um parente tão generoso quando necessitamos. Não me esquecerei disso quando voltar. Curufin lançou então um olhar sinistro para Eöl.

- Não se vanglorie do título de sua mulher diante de mim. Pois os que roubam as filhas dos noldor e se casam com elas sem doação ou permissão não se tornam parentes dos parentes delas. Concedi-lhe permissão para ir. Aceite-a e vá embora. Pelas leis dos eldar, não posso matá-lo neste momento. E ainda vou lhe dar um conselho: volte agora para sua morada nas trevas de Nan Elmoth; pois meu coração me diz que, se perseguir aqueles que não o amam mais, nunca voltará para lá.

Saiu entào Eöl às pressas, cheio de ódio de todos os noldor, pois agora percebia que Maeglin e Aredhel estavam fugindo para Gondolin E impelido pela raiva e pela vergonha da humilhação, atravessou os Vaus do Aros e cavalgou firme pelo caminho seguido por eles. Contudo, embora os dois não soubessem que ele os seguia, e embora Eöl tivesse a montaria mais veloz, em nenhum momento chegou a avistá-los, até que chegaram a Brithiach e abandonaram seus cavalos. Nesse momento, por falta de sorte, foram traídos, pois os cavalos relincharam alto, e a montaria de Eöl os ouviu e partiu veloz em sua direção. E de longe Eöl viu os trajes brancos de Aredhel, e observou para onde se dirigia, em busca da trilha secreta para entrar nas montanhas.

Ora, Aredhel e Maeglin chegaram ao Portão Exterior de Gondolin e à Guarda Escura sob as montanhas. Ali foi recebida com alegria e, passando pelos Sete Portões, chegou com Maeglin a Turgon sobre o Amon Gwareth. Então o Rei ouviu admirado tudo o que Aredhel tinha a contar; e olhou com simpatia para Maeglin, filho da irmã, vendo que ele era digno de ser incluído entre os príncipes dos noldor.

- Alegra-me de fato que Ar-Feiniel tenha voltado para Gondolin – disse ele. - E agora ainda mais bela será minha cidade do que nos tempos em que considerei minha irmã perdida. E Maeglin terá as mais altas honrarias em meu reino.

Então Maeglin fez uma grande reverência e aceitou Turgon como senhor e rei, para obedecer a todas as suas ordens. Daí em diante, porém, ficou calado e vigilante, pois a felicidade e o esplendor de Gondolin superavam tudo o que ele imaginara a partir das histórias de sua mãe; e estava admirado com a fortificação da cidade e a quantidade de habitantes. E também com os inúmeros objetos estranhos e belos que via. Contudo, nada atraía tanto seu olhar quanto Idril, a filha do Rei, que estava sentada a seu lado. Pois ela era dourada como os vanyar, parentes de sua mãe, e lhe parecia ser como o Sol de onde todo o salão do Rei extraía sua luz.

Eöl, entretanto, ao seguir Aredhel, encontrou o Rio Seco e a trilha secreta. E assim, sorrateiro, chegou à Guarda, sendo apanhado e interrogado. Quando a Guarda ouviu que ele alegava ser Aredhel sua esposa, todos se surpreenderam e enviaram um mensageiro veloz à Cidade, e este veio ao salão do Rei.

- Senhor – gritou ele – a Guarda deteve alguém que se aproximava às escondidas do Portão Escuro. Diz ele chamar-se Eöl, e é um elfo alto, moreno e carrancudo, da linhagem dos sindar.

Ele alega, porém, que a Senhora Aredhel é sua esposa e exige ser trazido à sua presença Sua ira é enorme e é difícil contê-la, mas não o matamos, como exige a lei.

- Que lástima! - disse então Aredhel. - Eöl nos seguiu, exatamente como eu temia. Mas foi com grande esperteza que o fez, pois não vimos nem ouvimos sinal de perseguição quando entramos pelo Caminho Oculto. - Voltou-se então para o mensageiro. - O que ele diz é verdade. É Eöl, eu sou sua esposa, e ele é o pai de meu filho. Não o matem, mas tragam-no aqui para a decisão do Rei, se o Rei assim determinar.

E isso foi feito. Trouxeram Eöl ao salão de Turgon e, diante do trono elevado, o puseram em pé, orgulhoso e mal-encarado. Embora estivesse tão admirado quanto seu filho com tudo o que via, seu coração se encheu ainda mais de raiva e ódio dos noldor. Turgon, porém, tratou-o com cortesia. Levantou-se e lhe ofereceu a mão.

- Bem-vindo seja, irmão, pois assim o considero. Aqui você habitará como lhe aprouver, com a restrição de aqui permanecer e não partir de meu reino. Pois é minha lei que ninguém que encontre o caminho para cá saia daqui.

Eöl, entretanto, recolheu a mão.

- Não reconheço sua lei. Nenhum direito tem o senhor nem ninguém de sua linhagem de conquistar reinos nesta terra ou de fixar fronteiras, seja aqui, seja acolá. Esta terra é dos teleri, à qual vocês trazem a guerra e todo tipo de perturbação, sempre com atitudes injustas e arrogantes. Não ligo a mínima para seus segredos nem vim espioná-la, mas reivindicar o que é meu: minha esposa e meu filho. Contudo, se sobre Aredhel, sua irmã, o senhor crê ter algum direito, ela que fique. Que o pássaro volte para a gaiola da qual logo enjoará, como enjoou antes. Mas Maeglin, não. Meu filho o senhor não irá separar de mim. Venha, Maeglin, filho de Eöl! É seu pai quem ordena. Deixe a casa dos inimigos de seu pai e dos assassinos de sua gente, ou maldito seja! - Maeglin, porém, nada respondeu.

Sentou-se então Turgon em seu trono elevado, segurando seu cetro de justiça, e falou em tom severo.

- Não discutirei com você, elfo-escuro Seus bosques sombrios somente são defendidos pelas espadas dos noldor. Sua liberdade de perambular por lá à vontade, você deve à minha gente.

Não fosse por eles há muito você já estaria mourejando na escravidão nas profundezas de Angband. E aqui eu sou Rei Quer você queira, quer não, minha decisão é lei. Só lhe é dada a seguinte escolha: ficar aqui ou morrer aqui. O mesmo vale para seu filho Eöl olhou então nos olhos do Rei Turgon. E não se intimidou, mas ficou ali muito tempo sem nenhuma palavra ou movimento, enquanto um silêncio total caía sobre o salão. E Aredhel teve medo, por saber que ele era perigoso. De repente, com a rapidez de uma serpente, ele apanhou uma azagaia que trazia escondida por baixo do manto e a lançou na direção de Maeglin, com um grito.

- Escolho a segunda opção para mim e também para meu filho! Vocês não ficarão com o que é meu!

Aredhel, porém, saltou diante do dardo, que a atingiu no ombro. E Eöl foi dominado por muitos, acorrentado e levado dali, enquanto outros cuidavam de Aredhel. Maeglin, entretanto, olhava para o pai em silêncio.

Foi determinado que Eöl fosse trazido no dia seguinte para ser julgado pelo Rei. E Aredhel e Idril conseguiram convencer Turgon a ser misericordioso. Ao entardecer, porém, apesar de o ferimento parecer pequeno, Aredhel adoeceu, caiu na escuridão e durante a noite morreu. Pois a ponta da azagaia estava envenenada, embora ninguém soubesse disso até que fosse tarde demais.

Logo, quando Eöl foi levado à presença de Turgon, não obteve misericórdia alguma. E o levaram até o Caragdûr, um precipício de rocha negra no lado norte do monte de Gondolin, para ali jogá-la do alto das muralhas escarpadas da cidade. E Maeglin estava presente sem nada dizer; mas no último instante, Eöl exclamou – Quer dizer que você renuncia a seu pai e a sua gente, filho desnaturado! Aqui você vai perder todas as suas esperanças; e que aqui você um dia morra a mesma morte que eu.

Lançaram então Eöl do alto do Caragdûr, e foi esse seu fim. Para todos em Gondolin, isso pareceu justo, mas Idril se sentiu confusa e, daquele dia em diante, não mais confiou em seu parente. Maeglin, porém, prosperou e adquiriu renome entre os gondolindrim, elogiado por todos e alvo da alta estima de Turgon; pois, se aprendia com disposição e rapidez tudo o que pudesse, também tinha muito a ensinar. E reuniu ao seu redor todos os que tinham maior pendor para a mineração e para o ofício de ferreiro. E explorou as Echoriath (que são as Montanhas Circundantes), lá encontrando ricos veios de diversos metais. O que mais valorizava era o ferro duro da mina de Anghabar no norte das Echoriath, e de lá obteve grande quantidade de metal forjado e de aço, de tal modo que as armas dos gondolindrim se tornaram cada vez mais fortes e mais afiadas. E isso lhes seria bem útil nos dias que viriam. Sábio em seus conselhos era Maeglin, além de cauteloso; e, no entanto, corajoso e valente se necessário.

E isso se comprovou em dias futuros. Pois, quando, no terrível ano das Nimaeth Amoediad, Turgon abriu seu cerco e avançou para ajudar Fingon no norte, Maeglin não quis permanecer em Gondolin como regente do Rei, mas foi para a guerra e lutou ao lado de Turgon, revelandose cruel e destemido em combate.

Assim, tudo parecia bem com a sorte de Maeglin, que se tornara poderoso entre os príncipes dos noldor, e o segundo maior, no mais renomado dos reinos. Contudo, ele não revelava seu coração. E embora nem tudo saísse como desejava, suportava isso em silêncio, ocultando seus pensamentos, de modo que poucos conseguiam lê-los, a menos que se tratasse de Idril Celebrindal. Pois, desde seus primeiros dias em Gondolin, ele trazia no peito uma dor, cada vez pior, que lhe roubava a alegria. Ele adorava a beleza de Idril e a desejava, sem esperanças. Os eldar não se casavam com parentes tão próximos; nem nunca algum deles tivera esse tipo de desejo. E, fosse como fosse, Idril absolutamente não amava Maeglin. E, ao ficar sabendo como ele pensava nela, passou a amá-lo ainda menos. Pois, a seus olhos, havia algo de estranho e depravado nele, como de fato os eldar desde então sempre consideraram: um fruto nefasto do fratricídio, através do qual a sombra da maldição de Mandos caía sobre a última esperança dos noldor. Porém, com o passar dos anos, Maeglin ainda observava Idril e esperava; e seu amor se transformou em trevas em seu coração. E ele procurava cada vez mais fazer valer sua vontade em outras questões, sem evitar nenhuma faina ou carga, se com aquilo pudesse obter mais poder.

Foi assim em Gondolin; e em meio à bem-aventurança daquele reino, enquanto durou sua glória, fora plantada uma sinistra semente do mal.
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Manwë Súlimo
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MensagemAssunto: Re: A História do Silmarillion   Ter Jun 29 2010, 11:51

CAPÍTULO XVII
Da chegada dos homens ao oeste



Passados mais de trezentos anos da vinda dos noldor para Beleriand, nos dias da Longa Paz, Finrod Felagund, senhor de Nargothrond, passeava a leste do Sirion e fora caçar com Maglor e Maedhros, filhos de Fëanor. Cansou-se, porém, da caçada e prosseguiu sozinho na direção das montanhas de Ered Lindon, que via cintilando ao longe. Tomando a Estrada dos Anões, atravessou o Gelion no Vau de Sarn Athrad e, voltando-se para o sul e cruzando o curso superior do Ascar, chegou ao norte de Ossiriand.

Num vale em meio aos contrafortes das montanhas, abaixo das fontes de Thalos, viu luzes à noite e ouviu mais ao longe o som de cantos. Com isso ficou muito admirado, pois os elfosverdes daquela terra não acendiam fogueiras, nem cantavam à noite. De início, temeu que um ataque de orcs tivesse atravessado o Cerco do Norte; mas, à medida que se aproximava, viu que não se tratava disso, pois os cantores usavam uma língua que nunca ouvira antes, nem de anões, nem de orcs. Felagund, então, parado em silêncio na sombra noturna das árvores, olhou para o acampamento lá embaixo e avistou um povo estranho.

Ora, eles pertenciam à família e aos seguidores de Bëor, o Velho, como ele mais tarde foi chamado, um líder entre os homens. Passadas muitas vidas vagando para sair do leste, ele os conduzira afinal através das Montanhas Azuis, os primeiros da raça dos homens a entrar em Beleriand. E cantavam porque estavam felizes, e acreditavam ter escapado de todos os perigos, tendo chegado finalmente a uma terra sem medo Por muito tempo, Felagund os observou, e o amor por eles brotou em seu coração; mas ele continuou escondido nas árvores até que todos estivessem dormindo. Seguiu então para o meio dos adormecidos e se sentou ao lado da fogueira que se apagava, por ninguém vigiada.

Apanhou uma harpa tosca que Bëor deixara de lado e começou a tocar música tal como nunca chegara aos ouvidos dos homens; pois eles ainda não tinham mestres na arte, a não ser os elfosescuros das terras ermas.

Ora, os homens acordaram e escutaram Felagund, que tocava harpa e cantava, e cada qual julgou estar tendo um sonho agradável, até perceber que seus companheiros também estavam acordados a seu lado. A beleza da música e o encanto dos versos eram tais, que ninguém falou nem se mexeu enquanto Felagund tocava. Havia sabedoria nas palavras do Rei élfico, e os corações que o ouviam tornavam-se mais sábios Pois os fatos sobre os quais cantava, a criação de Arda, a bem-aventurança de Aman para além das sombras do Mar, chegavam aos olhos dos homens como visões nítidas, e o idioma élfico era interpretado em cada mente de acordo com sua capacidade.

Foi assim que os homens chamaram o Rei Felagund, que foi o primeiro dos eldar que conheceram, de Nóm, ou seja, Sabedoria, na linguagem daquele povo; e, por causa dele, chamaram seu povo de nómin, os Sábios. Na verdade, a princípio, eles acreditaram que Felagund fosse um dos Valar, de quem tinham ouvido rumores de que moravam longe no oeste. E essa seria (há quem diga) a causa de sua viagem. Felagund, porém, permaneceu com eles e lhes ensinou o verdadeiro conhecimento. Eles o amaram e o aceitaram como senhor, sendo para sempre leais à Casa de Finarfin.

Ora, os eldar superavam todos os outros povos na habilidade com idiomas; e Felagund descobriu também que conseguia ler na mente dos homens aqueles pensamentos que eles desejavam revelar na fala, de modo que suas palavras eram interpretadas com facilidade. Dizse também que esses homens lidavam havia muito com os elfos-escuros a leste das montanhas e com eles aprenderam grande parte de sua fala. E, como todas as línguas dos quendi tinham uma única origem, a língua de Bëor e seu povo lembrava o idioma élfico em muitas palavras e construções. Não demorou, portanto, para Felagund conseguir conversar com Bëor; e, enquanto ali permaneceu, os dois muito falaram um com o outro. No entanto, quando questionado a respeito do surgimento dos homens e suas vagens, Bëor dizia muito pouco. E na realidade pouco sabia, pois os ancestrais de seu povo contavam poucas histórias do passado, e um silêncio se abatera sobre a memória deles

- Atrás de nós, ficam as trevas – dizia Bëor – e nós lhes demos as costas. Não desejamos voltar para lá, nem mesmo em pensamento. Nossos corações estão voltados para o oeste, e acreditamos que encontraremos a Luz.

Entretanto, dizia-se depois entre os eldar que, quando os homens despertaram em Hildórien, ao nascer do Sol, os espiões de Morgoth estavam alertas e logo lhe levaram a notícia. E essa questão lhe pareceu tão importante, que, em segredo e oculto pelas sombras, ele próprio saiu de Angband e penetrou na Terra-média, deixando o comando da guerra nas mãos de Sauron. De seus contatos com os homens, os eldar de fato nada sabiam na época, e descobriram pouca coisa mais tarde. Mas percebiam com clareza que (como a sombra do Fratricídio e da Condenação de Mandos se abatia sobre os noldor) uma escuridão encobria os corações dos homens, mesmo no povo de amigos-dos-elfos que conheceram primeiro. Corromper ou destruir tudo o que surgisse de novo e belo sempre fora o principal desejo de Morgoth; e, sem dúvida, também era esse seu objetivo nessa viagem: usando o medo e as mentiras, tomar os homens inimigos dos eldar, e instigá-los a deixar o leste para entrar em Beleriand. Esse plano era, porém, de lenta maturação e nunca foi plenamente realizado; pois os homens (ao que se diz) eram de início muito poucos, e Morgoth, temendo a união e o poder crescente dos eldar, retornou para Angband, deixando atrás de si, na época, nada mais do que alguns servos, e esses dos menos astutos e poderosos.

Ora, Felagund soube por Bëor que havia muitos outros homens de pensamento semelhante que também estavam viajando para o oeste.

- Outros da minha própria gente cruzaram as Montanhas e vêm perambulando não muito longe daqui; e os haladin, um povo do qual estamos isolados pela fala, ainda estão nos vales nas encostas orientais, esperando notícias antes de decidir avançar. Existem ainda outros homens, cujo idioma é mais parecido com o nosso, com quem lidamos às vezes. Estavam à nossa frente na marcha para o oeste, mas nós os ultrapassamos, pois são um povo numeroso, que mesmo assim se mantém unido e se movimenta com vagar, sendo todos eles governados por um líder que chamam de Marach.

Ora, os elfos-verdes de Ossiriand ficaram perturbados com a chegada dos homens, e, quando souberam que um senhor dos eldar, do outro lado do Mar, estava entre eles, enviaram mensageiros a Felagund.

- Senhor – diziam -, se tens poder sobre esses recém-chegados, faze com que voltem por onde vieram, ou que continuem seu caminho. Pois, nesta terra não desejamos que desconhecidos destruam a paz em que vivemos. E esse povo derruba árvores e caça animais. Portanto, não somos seus amigos. E, se não quiserem partir, nós os atormentaremos de todas as formas possíveis.

Seguindo, então, o conselho de Felagund, Bëor reuniu todas as famílias e parentes nômades de seu povo para que se mudassem para o outro lado do Gelion e fixassem residência nas terras de Amrod e Amras, junto às margens orientais do Celon, ao sul de Nan Elmoth, perto das fronteiras de Doriath. E o nome dessa terra daí em diante foi Estolad, o Acampamento. Com tudo, quando, passado um ano, Felagund quis voltar para sua própria terra, Bëor lhe implorou permissão para acompanhá-la. E permaneceu a serviço do Rei de Nargothrond enquanto durou sua vida Foi assim que ele recebeu seu nome, Bëor, pois antes seu nome era Balan. Bëor significava “vassalo” no idioma de seu povo. O comando do povo ele entregou a Baran, seu primogênito; e nunca mais voltou a Estolad.

Logo após a partida de Felagund, os outros homens de quem Bëor falara também chegaram a Beleriand. Os primeiros foram os haladin; mas, deparando com a antipatia dos elfos-verdes, eles se voltaram para o norte e foram morar em Thargelion, na região de Caranthir, filho de Fëanor. Ali, por algum tempo, tiveram paz; e a gente de Caranthir prestava pouca atenção a eles. No ano seguinte, Marach conduziu seu povo através das montanhas. Era uma gente alta, belicosa, que marchava em companhias organizadas. E os elfos de Ossiriand se esconderam e não armaram emboscadas para eles. Marach, porém, tendo sabido que o povo de Bëor habitava uma terra verde e fértil, desceu pela Estrada dos Anões e se instalou na região a sul e leste das moradas de Baran, filho de Bëor; e houve grande amizade entre esses povos.

O próprio Felagund voltava com freqüência para visitar os homens. E muitos outros elfos das terras acidentais, tanto noldor quanto sindar, viajavam até Estolad, na ânsia de ver os edain, cuja vinda tinha sido prevista havia muito. Ora, atani, o Segundo Povo, era o nome dado aos homens em Valinor na tradição que falava da sua chegada. Já na fala de Beleriand, esse nome passou a ser edain, e ali era usado apenas em referência às três famílias de amigos-dos-elfos.

Fingolfin, como Rei de todos os noldor, enviou-lhes mensagens de boas-vindas; e então muitos rapazes dispostos dos edain partiram para prestar serviços aos reis e senhores dos eldar. Entre eles estava Malach, filho de Marach, que morara em Hithlum catorze anos. Ele aprendera a língua élfica e recebera o nome de Aradan.

Os edain não permaneceram muito tempo em Estolad, pois muitos ainda desejavam ir para o oeste; só não sabiam o caminho. À sua frente, estavam as bordas de Doriath, e ao sul esta-va o Sirion e seus pântanos intransponíveis. Por isso, os reis das três Casas dos noldor, vendo esperança de força nos filhos dos homens, mandaram avisar que quaisquer edain que assim desejassem, poderiam se mudar e vir residir em meio a seu povo. Começou assim a migração dos edain. De início, aos poucos, mas mais tarde em famílias e clãs, eles levantaram acampamento e deixaram Estolad, até que, após cerca de cinqüenta anos, muitos milhares haviam passado para as terras dos Reis. A maioria deles seguiu pela longa estrada para o norte, até os caminhos se tornarem bem conhecidos. O povo de Bëor veio a Dorthonion e habitou terras governadas pela Casa de Finarfin. O povo de Aradan (pois Marach, seu pai, permaneceu em Estolad até sua morte) em sua grande maioria prosseguiu para o ocidente; e alguns chegaram a Hithlum, mas Magor, filho de Aradan, e boa parte do povo desceram o Sirion e entraram em Beleriand, morando algum tempo nos vales das encostas meridionais das Ered Wethrin.

Diz-se que em todas essas questões, ninguém, a não ser Finrod Felagund, procurou o conselho do Rei Thingol, que não ficou satisfeito, tanto por esse motivo, quanto por ter sido perturbado por sonhos relacionados à chegada dos homens muito antes de se ouvirem as primeiras notícias deles. Por conseguinte, ele ordenou que os homens não se apropriassem de nenhuma terra para habitar, à exceção do norte, e que os príncipes a quem serviam se responsabilizassem pelo que eles fizessem.

- Em Doriath. Nenhum homem entrará enquanto durar meu reinado, nem mesmo os da Casa de Bëor, que serve a Finrod, o Amado – disse Thingol. Naquela ocasião, nada lhe disse Melian, mas depois ela falou com Galadriel

- Agora o mundo corre veloz na direção de grandes notícias E um dos homens, exatamente da Casa de Bëor, de fato virá; e o Cinturão de Melian não o impedirá, pois um destino maior do que meu poder o estará enviando. E os versos que brotarão dessa vinda persistirão quando toda a Terra-média estiver mudada.

Entretanto, muitos homens permaneceram em Estolad; e ainda morava lá muitos anos depois um povo de origens diversas, até que na destruição de Beleriand eles foram derrotados ou fugiram de volta para o leste. Pois, além dos velhos que consideravam encerrados seus dias de nômades, não eram poucos os que desejavam seguir por conta própria e temiam os eldar, bem como a luz nos seus olhos. Surgiram então discórdias entre os edain, discórdias nas quais a sombra de Morgoth poderia ser detectada, pois é certo que ele sabia da vinda dos homens para Beleriand e de sua crescente amizade com os elfos. Os líderes da insatisfação eram Bereg, da Casa de Bëor, e Amlach, um dos netos de Marach.

- Enfrentamos longos caminhos – diziam eles, abertamente – desejando escapar aos perigos da Terra-média e dos seres sinistros que ali habitam; pois ouvimos dizer que havia Luz no oeste Mas agora descobrimos que a Luz fica do outro lado do Mar. Não podemos ir para lá, onde moram em bem-aventurança os Deuses, com exceção de um, pois o Senhor da Escuridão está aqui diante de nós; assim como os eldar, sábios porém cruéis, que lhe fazem guerra sem cessar.

No norte, vive ele, dizem os eldar. E lá estão a dor e a morte das quais fugimos. Não iremos nessa direção.

Foram então convocados um conselho e uma assembléia dos homens, que se reuniram em grande quantidade. E os amigos-dos-elfos responderam a Bereg.

- Sem dúvida, é do Rei das Trevas que vêm todos os males dos quais fugimos; mas ele pretende dominar toda a Terra-média, e para onde poderemos nos voltar sem que ele nos persiga? A menos que seja derrotado aqui, ou pelo menos mantido sob cerco. A única coisa que o restringe é a coragem dos eldar; e talvez tenha sido com esse objetivo, o de auxiliá-los na necessidade, que fomos trazidos para esta terra.

- Que os eldar cuidem disso! - respondeu Bereg. - Nossas vidas já são breves o suficiente.

Levantou-se então alguém que a todos pareceu ser Amlach, filho de Imlach, proferindo palavras cruas que abalaram o coração de todos os que o ouviram.

- Tudo isso são histórias dos elfos, contos para enganar recém-chegados incautos. O Mar não tem fim. Não há Luz nenhuma no oeste. Vocês vieram atrás de um fogo-fátuo dos elfos até o fim do mundo! Quem de vocês viu o menor dos Deuses? Quem contemplou o Senhor do Escuro no norte? São os eldar que procuram dominar a Terra-média. Em sua ganância por riquezas, eles cavaram a terra em busca de seus segredos e despertaram a ira dos seres que moram abaixo dela, como sempre fizeram e sempre farão. Que os orcs fiquem com o reino que é deles, e nós com o nosso. Existe espaço no mundo, desde que os eldar nos deixem em paz! Aqueles que estavam escutando ficaram então por algum tempo assustados, e uma sombra de medo se abateu sobre seus corações. E resolveram partir das terras dos eldar. Mais tarde, no entanto, Amlach voltou a estar entre eles e negou ter estado presente no debate ou ter pronunciado as palavras que eles relatavam. Surgiram, então, a dúvida e a perplexidade entre os homens.

- Vocês agora acreditarão pelo menos nisso – disseram os amigos-dos-elfos – que de fato existe um Senhor do Escuro e que seus espiões e emissários estão entre nós; pois ele nos teme e teme a força que podemos dar a seus inimigos.

- Ele nos odeia, isso sim – responderam ainda alguns – e seu ódio vai crescer quanto mais aqui permanecermos, intrometendo-nos em sua disputa com os Reis dos eldar, sem nenhuma vantagem para nós.

Assim, muitos dos que ainda se encontravam em Estolad se prepararam para ir embora; e Bereg conduziu mil indivíduos do povo de Bëor na direção sul, e eles desapareceram dos relatos daqueles tempos.

- Agora tenho uma disputa só minha – disse Amlach, arrependido – com esse Mestre das Mentiras, e essa briga durará até o fim de meus dias. - Dirigiu-se então para o norte e foi prestar serviços a Maedhros. Já aqueles do seu povo que tinham opinião semelhante à de Bereg escolheram um novo líder, refizeram o caminho através das montanhas, voltando a Eriador, e foram esquecidos.

Nessa época, os haladin permaneceram em Thargelion, contentes. Morgoth, porém, ao ver que por meio de mentiras e trapaças não conseguia afastar totalmente elfos e homens, encheu-se de ira e procurou causar aos homens os maiores males possíveis. Enviou, portanto, um ataque de orcs. Passando pelo leste, eles burlaram o cerco e chegaram sorrateiros através das Ered Lindon pelas passagens da Estrach dos Anões, abatendo-se sobre os haiadin nos bosques meridionais da terra de Caranthir.

Ora, os haladin não viviam sob o comando de senhores, nem em grandes aglomerados; mas cada propriedade era isolada e decidia suas próprias questões. Eram um povo lento para se unir.

Havia, porém, entre eles um homem chamado Haldad, que era autoritário e destemido. Ele reuniu todos os homens corajosos que conseguiu encontrar e recuou para o território entre o Ascar e o Geúon. Ali, no canto mais remoto, construiu uma paliçada de um rio ao outro. Para trás dela foram levadas todas as mulheres e crianças que conseguiram salvar. Ali foram sitiados, até seus alimentos terminarem.

Haldad tinha dois gêmeos: Haleth, a filha, e Haldar, o filho. E os dois foram valentes na defesa, pois Haleth era mulher de grande coração e força. No final, porém, Haldad foi morto numa investida contra os orcs; e Haldar, que se apressou a salvar o corpo do pai da carnificina, foi abatido a seu lado. Haleth, então, manteve seu povo unido, embora eles estivessem sem esperanças; e alguns se jogaram nos rios e morreram afagados. Entretanto, sete dias depois, quando os orcs faziam sua última investida e já haviam atravessado a paliçada, ouviu-se de repente o som de clarins, e Caranthir com seu exército desceu do norte e empurrou os orcs para dentro dos rios.

Caranthir então encarou os homens com simpatia e prestou grandes homenagens a Haleth.

Ofereceu-lhe compensações pela morte do pai e do irmão. E vendo, tarde demais, a bravura que havia nos edain, fez-lhe uma oferta.

- Se você quiser morar mais ao norte, terá lá a amizade e a proteção dos eldar, e territórios livres somente seus. Haleth, porém, era orgulhosa e não propensa a. Ser orientada ou governada; e a maioria dos haladin era de disposição semelhante. Agradeceu, portanto, a Caranthir mas respondeu: - Tenho agora a firme intenção, senhor, de abandonar a sombra das montanhas e ir para o oeste, para onde outros da nossa gente já foram.

Assim, quando reuniram todos os que encontraram vivos daqueles que haviam fugido enlouquecidos para os bosques com o ataque dos orcs e recolheram o que restava dos pertences em suas casas incendiadas, os haladin tornaram Haleth como chefe. E ela os conduziu afinal a Estolad, onde permaneceram algum tempo.

Continuaram, porém, um povo à parte, e ficaram para sempre conhecidos entre elfos e homens como o povo de Haleth. Haleth foi sua chefe enquanto viveu, mas não se casou, e depois dela a chefia passou para Haldan, filho de Haldar, seu irmão. No entanto, logo Haleth desejou se transferir mais para o ocidente. E, embora a maior parte de seu povo fosse contrária a essa decisão, ela os conduziu ainda uma vez. Seguiram, assim, sem ajuda ou orientação dos eldar; e, atravessando o Celon e o Aros, entraram na região perigosa entre as Montanhas do Terror e o Cinturão de Melian. Naquela época, esse território não era ainda tão nefasto quanto se tornou mais tarde, mas não era uma estrada pela qual homens mortais pudessem seguir sem auxílio. E Haleth só conseguiu completar o percurso com muita dificuldade e perda, forçando seu povo a avançar apenas pela força da vontade dela. Afinal atravessaram o Vau de Brithiach, e muitos se arrependeram amargamente da jornada; mas agora não havia mais retomo. Assim, em novas terras, eles voltaram a levar a vida de antes, na medida do possível. Moravam em propriedades livres nos bosques de Talath Dimen do outro lado do Teiglin; enquanto alguns se desgarraram, embrenhando-se bastante no reino de Nargothrond. Eram, entretanto, muitos os que amavam a Senhora Haleth, que desejavam ir aonde ela fosse e permanecer sob seu comando. E esses ela levou para a Floresta de Brethil, entre o Teiglin e o Sirion. Para lá, nos dias funestos que se seguiram, acorreram muitos de seu povo disperso.

Ora, Brethil era considerada pelo Rei Thingol parte de seus domínios, muito embora estivesse fora do Cinturão de Melian, e Thingol teria negado essa área a Haleth. Felagund, porém, que gozava da amizade de Thingol, tendo sabido de tudo o que acontecera ao povo de Haleth, obteve para ela esse beneficio: de morar livremente em Brethil, com a condição única de seu povo guardar as Travessias do Teiglin contra todos os inimigos dos eldar e não permitir que nenhum arc entrasse nos bosques. A essa condição, Haleth deu uma resposta.

- Onde estão Haldad, meu pai, e Haldar, meu irmão? Se o Rei de Doriath teme uma amizade entre Haleth e aqueles que devoraram sua família, o modo de pensar dos eldar é incompreensível para os homens.

E morou Haleth em Brethil até sua morte. E seu povo ergueu sobre ela um túmulo com a forma de uma colina verdejante na parte mais alta da floresta, Tûr Haretha, a Colina da Senhora, Haudh-en-Arwen no idioma sindarin.

Foi assim que aconteceu de os edain habitarem as terras dos eldar, alguns aqui, outros acolá, uns nômades, outros fixos, em clãs ou pequenos grupos. E a maior parte deles logo aprendeu o idioma dos elfos-cinzentos, tanto como língua comum quanto porque muitos desejavam conhecer as tradições dos elfos.

Depois de algum tempo, contudo, vendo que não era conveniente a mistura desordenada da vida em comum de elfos e homens, e percebendo que os homens precisavam de senhores de sua própria gente, os Reis élficos designaram regiões separadas nas quais os homens poderiam levar a vida e indicaram chefes para governar essas terras livremente. Os homens eram aliados dos eldar na guerra, mas marchavam sob o comando de seus próprios líderes Entretanto, muitos dos edain se compraziam com a amizade dos elfos e permaneciam entre eles tanto tempo quanto lhes fosse permitido. E os rapazes costumavam prestar serviço por um período nos exércitos dos reis.

Ora, Hador Lórindol, filho de Hathol, filho de Magor, filho de Malach Arachn, entrou para a Casa de Fingolfin na juventude e era amado pelo Rei. Fingolfin, por isso, concedeu-lhe o domínio sobre Dor-lómin; e naquele território Hador reuniu a maioria das pessoas do seu clã e se tomou o mais poderoso dos chefes dos edain. Em sua casa, somente se falava o idioma élfico; mas sua própria língua não fora esquecida, e dela derivou o idioma geral de Númenor.

Em Dorthonion, porém, o comando do povo de Bëor e da região de Ladros foi dado a Boromir, filho de Boron, que era neto de Bëor, o Velho.

Os filhos de Hador foram Galdor e Gundor; e os filhos de Galdor foram Húrin e Huor. O filho de Húrin foi Túrin, a Perdição de Glaurung; e o filho de Huor foi Tuor, pai de Eärendil, o Abençoado. O filho de Boromir foi Bregor, cujos filhos foram Bregolas e Barahir; e os filhos de Bregolas foram Baragund e Belegund. A filha de Baragund foi Morwen, mãe de Túrin; e a filha de Belegund foi Rían, mãe de Tuor. Já o filho de Barahir foi Beren Maneta, que conquistou o amor de Lúthien, filha de Thingol, e voltou dos Mortos. Deles nasceu Elwing, mulher de Eärendil, e todos os Reis de Númenor mais tarde.

Todos esses foram enredados na teia da Condenação dos noldor; e realizaram grandes feitos que os eldar ainda relembram entre as histórias dos Reis de outrora. E naquela época a força dos homens se somava ao poder dos noldor, e eram grandes suas esperanças. E Morgoth estava severamente cercado, pois o povo de Hador, resistente para agüentar o frio e longos períodos de nomadismo, não temia fazer longas incursões eventuais ao norte e lá montar guarda para vigiar os movimentos do Inimigo. Os homens das Três Casas cresceram e se multiplicaram, mas a maior delas foi à Casa de Hador Cabeça-dourada, par dos Senhores élficos. Seu povo tinha grande força e estatura, era alerta no raciocínio, corajoso e leal, rápido na irritação e no riso, poderoso entre os Filhos de Ilúvatar na juventude da Humanidade. Louros eram eles em sua maioria, e de olhos azuis; mas Túrin, cuja mãe era Morwen, da Casa de Bëor, não era assim. Os homens daquela casa tinham cabelos escuros ou castanhos, e olhos cinzentos. E de todos eram os mais parecidos com os noldor e os mais amados por eles; pois eram sérios, habilidosos, céleres na compreensão e de longa memória; e ainda levados com mais facilidade à compaixão do que ao riso. Semelhante a eles era o povo da floresta de Haleth, mas esses tinham menor estatura e menor curiosidade pelas tradições. Usavam poucas palavras e não apreciavam grandes ajuntamentos humanos. Muitos dentre eles apreciavam a solidão e perambulavam livremente pelos bosques, enquanto o espanto com as terras dos eldar ainda lhes era recente.

No entanto, nos reinos do oeste, sua passagem foi curta e seus dias, infelizes.

Os anos de vida dos edain foram prolongados, de acordo com o cálculo dos homens, depois de sua chegada a Beleriand; mas, no final, Bëor, o Velho, faleceu quando já tinha vivido noventa e três anos, quarenta e quatro dos quais a serviço do Rei Felagund. E, quando jazia morto, sem nenhum ferimento ou mágoa, mas abatido pela idade, os eldar viram pela primeira vez o rápido ocaso da vida dos homens e a morte por cansaço que eles mesmos não conheciam. E lamentaram muito a perda de seus amigos. Bëor, entretanto, entregara a vida de bom grado e fize-ra a passagem em paz. E os eldar muito se admiraram com o estranho destino dos homens, pois em toda a sua tradição de conhecimento não havia nenhuma menção a ele, e seu fim lhes era desconhecido.

Mesmo assim, os edain de outrora aprenderam rapidamente com os eldar toda arte e todo conhecimento que puderam absorver, e seus filhos desenvolveram sabedoria e perícia, até suplantar de longe todos os outros seres humanos que ainda permaneciam a leste das montanhas e não haviam visto os eldar, nem contemplado os rostos que conheceram a Luz de Valinor.
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